Estatísticas e Análises | 2 de setembro de 2016

OMS muda tratamento de doenças sexuais por resistência de bactérias

Mau uso de antibióticos tornou a gonorreia, a sífilis e a clamídia mais difíceis de tratar
OMS muda tratamento de doenças sexuais por resistência de bactérias

A Organização Mundial da Saúde (OMS) apresentou, dia 30 de agosto, novas diretrizes para tratar três das mais comuns doenças sexualmente transmissíveis (DSTs): clamídia, gonorreia e sífilis. A medida se dá devido ao aumento dos casos de resistência dessas doenças aos antibióticos.

A OMS alertou que essas DSTs “estão se tornando mais difíceis de tratar em razão da má utilização ou uso excessivo de antibióticos”. Segundo a agência EFE, “estima-se que anualmente, 131 milhões de pessoas se infectem com clamídia, 78 milhões com gonorreia, e 5,6 milhões com a sífilis. As três são causadas por uma bactéria e, normalmente, deveriam ser tratadas com antibióticos”. No entanto, o uso inadequado das drogas “fez o corpo criar resistência a estes medicamentos e agora estas doenças não podem mais ser curadas corretamente apenas com isso. Nos últimos anos, pesquisadores detectaram resistência aos fármacos em casos envolvendo as três doenças, mas especialmente a gonorréia”.

Alguns desses medicamentos que antes conseguiam eliminar as bactérias, agora estão se mostrando ineficazes. “O pior quadro ocorre no caso das infecções por gonorreia. De acordo com a OMS, antibióticos mais antigos e baratos perderam sua efetividade no tratamento da doença. Pelo novo protocolo, os países devem deixar de usar a classe de medicamentos quinolona, da qual faz parte a ciprofloxacina, um dos mais populares”, aponta reportagem do jornal Estadão.

No caso da sífilis, a OMS recomenda a utilização de uma única dose de penicilina benzatina, alternativa considerada mais efetiva do que medicamentos orais. Para a clamídia, a organização tem diferentes recomendações de acordo com o grau da infecção e o local afetado.

Quando não são tratadas, essas doenças podem gerar complicações graves para as mulheres, como gravidez ectópica (nas trompas de falópio), abortos e bebês natimortos. A ONU estima que a transmissão da sífilis de mãe para filho provocou, em 2012, 143 mil abortos ou nascimentos de crianças mortas; 44 mil nascimentos de prematuros; e 62 mil mortes prematuras de bebês. Já a gonorreia e a clamídia podem causar infertilidade, em homens e mulheres, se não for curada.

As três infecções aumentam de duas a três vezes o risco de contrair o HIV e podem gerar consequências mais graves como a infecção chegar ao cérebro ou ao coração e causar a morte.

A médica Teodora Elvira Wi, especialista da OMS no tema, ressaltou em entrevista coletiva que “o mais importante é tentar parar o crescimento das resistências e isso é feito prescrevendo o tratamento correto e usando-o como prescrito, por isso a responsabilidade é dupla, do médico e do paciente”.

A OMS recomenda que, no caso da gonorreia, os países façam um estudo nacional para saber qual é a taxa de resistência de cada antibiótico e prescrevam o que menor tenha. A respeito da sífilis, a OMS sugere apenas uma dose de penicilina benzatina, um antibiótico injetável. Para a clamídia, a menos resistente aos antibióticos, por enquanto, a orientação é que continue sendo usado a azitromicina. A Organização Mundial também destacou que o método mais seguro e efetivo para a prevenção de DSTs ainda é o uso do preservativo de forma regular.

No Brasil, quase todas as novas recomendações da OMS já são adotadas, segundo informou o Ministério da Saúde. “Representantes do governo federal participaram da elaboração do documento da OMS e, como a resistência aos antibióticos já é notada em estudos nacionais, alguns protocolos foram alterados antes mesmo da diretriz da organização ser divulgada”.

A única mudança ainda pendente em alguns Estados do Brasil é a retirada da ciprofloxacina do protocolo de tratamento da gonorreia. Isso é feito em São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, onde o ministério já havia identificado a circulação de cepas resistentes ao medicamento. Nos demais Estados (entre eles o Rio Grande do Sul), há estudos sobre o tema e o medicamento deverá deixar de ser usado até o fim do ano corrente.

Leia mais sobre bactérias resistentes:

Como os patógenos multirresistentes a medicamentos chegam aos hospitais?

Fungo Candida auris preocupa autoridades em todo o mundo

Encontrada pela primeira vez no Brasil bactéria resistente a um dos mais poderosos antibióticos

Projeto vai investir US$ 350 milhões em startups de biotecnologia para enfrentar as superbactérias

Os perigos da disseminação de bactérias resistentes a antibióticos

Combate à superbactérias deve ser feito de forma coordenada entre hospitais e governo

Superbactérias criam novos desafios para a cadeia hospitalar

Estudo mostra novos alertas para evitar o uso excessivo de antibióticos

Cientistas descobrem antibiótico mais eficaz

Produtos químicos e raios UV bloqueia a transmissão de superbactérias em hospitais

França projeta medidas para conter a propagação de superbactérias

80 mil pessoas poderão morrer por causa das superbactérias

Quatro pacientes de hospital em Los Angeles são infectados por superbactéria

Nitrato de gálio é testado para impedir evolução de bactérias resistentes a antibióticos

As origens da tuberculose resistente a medicamentos

VEJA TAMBÉM