Mundo | 16 de junho de 2017

SAMU de Paris inova no atendimento a vítimas de ataque cardíaco

Circulação extracorpórea no local do acidente melhora taxa de sobrevivência
SAMU de Paris inova no atendimento a vítimas de ataque cardíaco

Imagine a situação: durante o atendimento de uma pessoa vítima de parada cardíaca no meio da rua, os bombeiros (em Paris) ou o serviço de ambulância normalmente chegam com desfibrilação, massagem cardíaca e injeção de adrenalina.

Se, no entanto, o coração não voltar em trinta minutos após o ataque, os socorristas do SAMU de Paris (Service d’aide médicale urgente, a inspiração do SAMU brasileiro) se utilizam de uma ferramenta complementar: a circulação extracorpórea ou ECMO (oxigenação por membrana extracorpórea). O princípio do equipamento é desviar a circulação sanguínea do coração para uma máquina que funciona como uma bomba e um filtro oxigenante.

Segundo matéria do jornal francês Le Figaro, tal intervenção em vias públicas ainda era inimaginável há apenas alguns anos. A circulação extracorpórea, procedimento técnico e delicado, foi por muito tempo reservado aos blocos cirúrgicos para alimentar de oxigênio o cérebro durante as operações de peito aberto. A ECMO estabiliza o paciente, permitindo aos médicos a avaliar o estado cerebral da pessoa.  A prática se espalhou pelos hospitais franceses. Mas o SAMU de Paris recentemente começou a apostar na técnica também para seus atendimentos na rua. “É quase uma pequena unidade cirúrgica que se instala fora do hospital: o paciente é esterilizado como se estivesse na sala de cirurgia, e nós também nos vestimos com roupas adequadas e estéreis”, afirmou ao Le Figaro o Dr. Lionel Lamhaut, emergencista e anestesista do SAMU de Paris. O risco de infeção não é maior do que o de um hospital, estima o médico. “As bactérias ( que causam infecções) vem na maioria do próprio paciente, e bem menos do ambiente em que nos encontramos”, completa.

Estudo

O método foi testado em 156 pacientes num estudo conduzido pelo Dr. Lamhaut. Os resultados, publicados na revista científica europeia Resuscitation, são entusiasmantes, segundo o Le Figaro. Num primeiro momento – de 2011 à 2014 –, a circulação extracorpórea foi usada a partir da demanda de um médico socorrista enviado ao local da ocorrência pelo “15” (o número de telefone para chamar o SAMU na França). Uma equipe dedicada ao equipamento, composta de um médico, um enfermeiro reanimador e um enfermeiro do trabalho, instalavam a ECMO no próprio lugar, se o tempo para levar o paciente a um hospital fosse muito apertado.

Já na segunda parte do estudo (2015), a equipe da circulação extracorpórea era enviada sistematicamente em paralelo aos socorristas, quando o paciente cumpria certos critérios (menos de 70 anos e a massagem cardíaca iniciada desde os primeiros minutos).

Resultados

A primeira estratégia permitiu salvar 8% dos pacientes, a segunda 28%. “Esses são os pacientes que estariam praticamente mortos sem a máquina”, lembra o Dr. Lamhaut. A evolução da sobrevivência é realmente importante, segundo o médico. “No entanto, ainda temos que verificar se isso é devido a uma melhor seleção de pacientes entre as fases 1 e 2, ou se ela está relacionada com o tempo economizado”, afirma Lamhaut. Outro desafio nos próximos anos será de acompanhar os sobreviventes para ver como eles passando.

Única no mundo, a experiência é seguida em muitos lugares e tem sido copiada. O SAMU de Paris formou equipes em Lyon, Perpignan, Madri e ainda em Bruxelas, Viena, Londres e Melbourne. “É um avanço técnico e médico excepcional”, afirma o professor Patrick Goldstein, chefe da Emergência do Centro Hospitalar Universitário de Lille (França).

A miniaturização das bombas deve facilitar ainda mais a intervenção no futuro, acredita Goldstein, mesmo que a prática “não possa ser reproduzida em qualquer lugar do mundo. Não é algo que podemos fazer amanhã em todos os lugares, na prática atual”, alerta.

Mesmo assim, tanto Lamhaut e Goldstein ainda insistem sobre o importante papel de treinar o público em primeiros socorros. “Você pode ter os dispositivos mais sofisticados, mas se a primeira testemunha não faz a massagem cardíaca, tudo será inútil”, insistem.

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