ASCO 2026: Avanços da medicina de precisão no câncer de pulmão
Estudos HARMONi-6 e LIBRETTO-432 reforçam testes moleculares e terapias-alvo no câncer de pulmão de não pequenas células.
Dois estudos de fase 3 apresentados na sessão plenária do Congresso da Sociedade Americana de Oncologia Clínica (ASCO) reforçaram o papel da medicina de precisão no tratamento do câncer de pulmão, o tumor mais letal do Brasil. Realizado em Chicago, nos Estados Unidos, o encontro — o mais importante da oncologia mundial — reuniu cerca de 45 mil profissionais de saúde e pesquisadores e foi encerrado na terça-feira (2 de junho).
O câncer de pulmão fica atrás apenas dos tumores de mama, entre as mulheres, e de próstata, entre os homens, em número de casos no país. Os dois trabalhos levados à plenária de domingo (31) ajudam a consolidar a ideia de que testar o perfil molecular do tumor desde o diagnóstico amplia as opções terapêuticas, inclusive nas fases iniciais da doença.
Inibição dupla em uma só molécula
O estudo HARMONi-6 foi um dos mais aguardados do congresso. A pesquisa comparou o anticorpo biespecífico ivonescimabe associado à quimioterapia ao anticorpo monoclonal tislelizumabe combinado à quimioterapia em pacientes com câncer de pulmão de não pequenas células escamosas. Publicado na revista científica The Lancet, o trabalho mostrou que a combinação com ivonescimabe reduziu em 40% o risco de progressão ou morte, com sobrevida livre de progressão de 11,1 meses, ante 6,9 meses no grupo tratado com tislelizumabe.
O diferencial do ivonescimabe está em atacar dois alvos com uma única molécula: a Proteína de Morte Celular Programada 1 (PD-1), que funciona como um freio do sistema imunológico, e o Fator de Crescimento Endotelial Vascular (VEGF), que nutre as células tumorais. A inibição dupla é considerada um marco para os tumores escamosos, justamente porque os medicamentos anti-VEGF costumam apresentar alto risco de hemorragia.
O HARMONi-6 acompanhou 532 pacientes com doença em estágios III a IV por 21,4 meses. O grupo tratado com ivonescimabe alcançou sobrevida global de 27,9 meses, contra 23,7 meses no grupo do tislelizumabe. O benefício ocorreu independentemente da expressão de PD-L1, inclusive entre pacientes PD-L1 negativos, e a taxa de resposta foi maior com o biespecífico (76% ante 67%). Os eventos adversos foram considerados manejáveis, com baixa taxa de sangramento grave — ponto sensível nesse subtipo tumoral.
Terapia-alvo para estágios iniciais
O segundo destaque, o estudo LIBRETTO-432, avaliou o uso adjuvante do selpercatinibe em pacientes com câncer de pulmão de não pequenas células RET-positivo em estágios iniciais. A fusão RET é uma alteração genética na qual parte do gene RET se une a outro gene, originando uma proteína defeituosa que estimula o crescimento do tumor. Publicado no New England Journal of Medicine, o trabalho representa uma tentativa de levar terapias-alvo altamente seletivas para cenários curativos, com o objetivo de reduzir o risco de recorrência após a cirurgia.
Entre os pacientes em estágio II-IIIA, o selpercatinibe reduziu em 83% o risco de recorrência, progressão ou morte. Nesse grupo, 92% dos tratados com o fármaco mantiveram sobrevida livre de eventos em dois anos, contra 61% no grupo placebo. Considerando toda a população do estudo (IB-IIIA), a sobrevida livre de eventos em dois anos foi de 94% com selpercatinibe e de 70% com placebo. O perfil de segurança foi avaliado como manejável e consistente com estudos anteriores do fármaco, tendo a elevação de enzimas hepáticas como principal evento adverso relevante.
“O estudo destaca o papel da medicina de precisão também em cenários curativos do câncer de pulmão e a importância da realização de testes moleculares desde o diagnóstico inicial da doença”, afirma Samira Mascarenhas (foto), médica especializada em câncer de pulmão da Oncologia D’Or.
Câncer de pulmão é diagnosticado tarde demais
O Instituto Nacional do Câncer (Inca) estima que 35.380 brasileiros sejam diagnosticados com câncer de traqueia, brônquio e pulmão em 2026, com os fumantes respondendo por 75% dos casos. Tosse, falta de ar, dor torácica, perda de peso, cansaço e presença de sangue no escarro estão entre os sintomas mais comuns. Como dificilmente aparecem no início, cerca de 70% dos pacientes são diagnosticados em estágio avançado, o que reduz as chances de tratamento. Em 2023, a doença causou 31.237 óbitos no país, 55% deles em homens.
Avanços como os do HARMONi-6 e do LIBRETTO-432 reforçam a avaliação, sublinhada pela própria especialista, de que o teste molecular desde o diagnóstico é decisivo para definir a melhor conduta — agora também em estágios iniciais, antes restritos à quimioterapia e à imunoterapia convencionais.
A Oncologia D’Or opera mais de 60 clínicas em 12 estados e no Distrito Federal, com corpo clínico de mais de 500 especialistas em oncologia, radioterapia e hematologia, em integração com os hospitais da Rede D’Or.