Tecnologia e Inovação | 20 de julho de 2026

Marco regulatório coloca CROs no centro da expansão da pesquisa clínica no Brasil

Para a Fundação do Câncer, agilidade regulatória só amplia a pesquisa clínica no Brasil com estrutura operacional das Contract Research Organizations, organizações especializadas na gestão operacional das pesquisas clínicas...
Marco regulatório coloca CROs no centro da expansão da pesquisa clínica no Brasil

O novo marco regulatório da pesquisa clínica abriu uma fase diferente para o setor no Brasil. Com regras mais ágeis e alinhadas a padrões internacionais, o país passou a reunir condições melhores para atrair estudos multicêntricos e ampliar o acesso da população a tratamentos inovadores — um movimento em que ganham protagonismo as Contract Research Organizations (CROs), organizações especializadas na gestão operacional das pesquisas clínicas.


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Segundo dados apresentados pela Interfarma durante a BIO International Convention, realizada em junho, o Brasil subiu da 18ª para a 12ª posição no ranking mundial de estudos clínicos iniciados. Apenas nos primeiros meses de 2026, o país registrou 51 novos estudos, o equivalente a 2,9% do total global — o melhor desempenho da série histórica recente, de acordo com o levantamento. A expectativa é que o país consolide o crescimento e passe a integrar o grupo dos dez principais mercados de pesquisa clínica do mundo.


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As CROs são responsáveis por coordenar as etapas operacionais de um estudo clínico: planejamento e tramitação regulatória dos protocolos, interlocução com órgãos reguladores e comitês de ética, recrutamento e acompanhamento de participantes, monitoria, gerenciamento de dados e controle de qualidade. Essa estrutura permite que pesquisadores e instituições concentrem esforços na condução científica das pesquisas.


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“Modernizar a legislação era uma etapa necessária, mas ela, sozinha, não garante que mais pesquisas aconteçam”, afirma Alfredo Monteiro Scaff, epidemiologista e consultor médico da Fundação do Câncer. Segundo ele, cada estudo depende de uma estrutura capaz de cumprir exigências regulatórias, gerenciar dados, acompanhar pacientes e assegurar a qualidade dos processos. “É justamente esse o papel das CROs”, completa.

Scaff lembra que, até recentemente, a aprovação de um estudo podia ultrapassar 240 dias, prazo que com frequência inviabilizava a participação brasileira em pesquisas multicêntricas internacionais. Embora a Lei nº 14.874/2024 e a RDC nº 945/2024 da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) tenham reduzido a burocracia ao permitir análises paralelas, muitos centros ainda precisarão investir em tecnologia, qualificação e compliance. “É nesse contexto que as CROs se tornam ainda mais estratégicas para garantir que os estudos sejam conduzidos com eficiência e em conformidade com os padrões regulatórios”, destaca.

Outro desafio apontado pelo epidemiologista é ampliar a pesquisa clínica para além dos grandes centros. “Hoje, a maior parte dos estudos permanece concentrada nas regiões Sul e Sudeste, o que limita o acesso de pacientes de outras localidades a terapias em investigação e reduz a representatividade da população brasileira nas pesquisas”, diz. Ele observa que o perfil epidemiológico dos diferentes tipos de câncer varia entre as regiões, o que torna essencial ampliar a participação de hospitais e centros de outras localidades.

Para reduzir essa concentração, a Fundação do Câncer apoia iniciativas fora do eixo Sul-Sudeste. Entre elas está o trabalho junto ao Hospital Ophir Loyola, em Belém (PA), voltado à oncologia na Região Norte, para fortalecer a estrutura operacional de estudos clínicos na Amazônia. A instituição também atua em pesquisas do Instituto Nacional de Câncer (Inca), apoiando desde o planejamento e a tramitação regulatória até o gerenciamento de dados e o acompanhamento dos estudos.

“Nosso papel é criar as condições para que a pesquisa aconteça com qualidade, segurança e em conformidade com as exigências regulatórias”, conclui Scaff. Para ele, o Brasil já reúne pesquisadores qualificados, centros de excelência e um ambiente regulatório mais competitivo, e o próximo passo é garantir estrutura operacional capaz de sustentar o crescimento. “Quanto mais preparados estiverem os centros de pesquisa, maior será a capacidade do país de atrair novos estudos e ampliar o acesso dos pacientes à inovação.”

O marco regulatório da pesquisa clínica com seres humanos no Brasil foi impulsionado pelo deputado federal Pedro Westphalen (PP-RS), relator da matéria na Câmara dos Deputados e presidente da Frente Parlamentar Mista em Defesa dos Serviços em Saúde. Após mais de nove anos de tramitação no Congresso Nacional, a proposta resultou na Lei nº 14.874/2024, que passou a orientar a condução dos estudos clínicos no país.

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