Agenda Mais SUS 2027-2030: dez propostas para fortalecer o sistema no próximo ciclo
Documento do IEPS e da Umane propõe rever a contratação da rede privada, regular apostas e fixar médicos onde faltam, entre outras propostas.
O Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS) e a Umane lançaram em agosto a Agenda Mais SUS 2027-2030, publicação que reúne dez propostas técnicas para orientar candidaturas, governos de transição, parlamentares e gestores públicos no fortalecimento do Sistema Único de Saúde (SUS) durante o próximo ciclo dos governos federal e estaduais. É a segunda edição da iniciativa — a primeira, de 2022, tratava de seis desafios — e vem acompanhada de um documento paralelo de balanço e conjuntura sobre o sistema.
As dez prioridades estão organizadas em dois eixos. O primeiro responde a problemas estruturais que o SUS carrega desde a origem: acesso desigual, coordenação fragmentada, escassez de profissionais em territórios vulneráveis, infraestrutura digital incompleta e rede de saúde mental insuficiente. O segundo enfrenta fenômenos que se intensificaram na última década e chegam ao sistema como demanda assistencial, mas nascem fora da saúde — emergências sanitárias, mudanças climáticas, ambiente alimentar escolar, plataformas digitais e apostas online.
“As políticas para o SUS avançaram nos últimos anos, mas o sistema opera sob uma pressão cada vez maior. Estamos em ano eleitoral, mas esta Agenda trata sobre os quatro anos depois das eleições”, afirmou Rebeca Freitas, diretora de relações institucionais do IEPS.
Para Thais Junqueira, superintendente geral da Umane, “fortalecer o sistema de saúde exige planejamento de longo prazo e decisões orientadas por evidências”, ao mesmo tempo em que os temas emergentes cobram respostas mais ágeis do poder público.
Acesso, regionalização e o papel da rede privada
Boa parte do primeiro eixo trata do descasamento entre onde os serviços estão e onde a população precisa deles. A proporção de internações realizadas fora da região de residência subiu de 11,5% em 2010 para 15,3% em 2023, chegando a 25,2% nos casos que exigem UTI. A Agenda propõe uma política de inteligência territorial que organize a oferta especializada pela necessidade de cada região, com regulação integrada entre atenção primária, atenção especializada, centrais de regulação e telessaúde, além de uma política nacional de transporte sanitário com financiamento estável.
Para o gestor de hospital da rede privada/filantrópica, o ponto mais direto está na proposta de fortalecer os estados na coordenação regional. O documento defende substituir a contratação baseada em procedimentos isolados por contratos regionais atrelados a desfechos, transformando a rede privada contratada em parte integrante do sistema, e não em fornecedora avulsa. A recomendação passa pelo compartilhamento de informações entre os setores público e privado como pré-requisito para uma contratação orientada pela demanda — em 2022, segundo o próprio IEPS, o setor privado concentrava treze vezes mais aparelhos de ressonância magnética que o público, operando-os abaixo da capacidade.
Profissionais: um problema de distribuição, não de quantidade
A Agenda desmonta a leitura de que o SUS enfrenta apenas falta de médicos. Em 2024, o Brasil tinha 2,8 médicos por mil habitantes, patamar próximo ao de sistemas universais como Reino Unido (3,2) e Canadá (2,8). O problema é a distribuição: as capitais têm 6,1 médicos por mil habitantes, contra 1,1 no entorno metropolitano, e no Norte e no Nordeste 82% dos municípios não chegavam a um médico por mil habitantes atuando no SUS em 2023. Entre enfermeiros, a participação no SUS recuou de 91,8% em 2010 para 86,2% em 2023.
A proposta atua em três frentes — formar, reter e organizar —, com destaque para reorientar a formação ao território, condicionando a abertura de novos cursos e residências a critérios regionais e ampliando a imersão em áreas de escassez durante a graduação.
Saúde digital como infraestrutura do SUS
O gargalo que mais toca diretamente a coordenação do cuidado é a baixa interoperabilidade. Apenas 39% das Unidades Básicas de Saúde (UBS) oferecem algum serviço de telessaúde, e o prontuário eletrônico é compartilhado com hospitais da rede pública em apenas 9,3% delas; a comunicação entre os pontos da rede ainda se dá predominantemente por WhatsApp e telefone. A Agenda defende consolidar a Rede Nacional de Dados em Saúde (RNDS) como camada nacional de interoperabilidade, padronizar terminologias clínicas e assegurar financiamento estável para a telessaúde, tratando a saúde digital como infraestrutura transversal do sistema.
Os desafios que nascem fora da saúde
O segundo eixo reúne cinco frentes que pressionam o SUS a partir de fora. Na preparação a emergências, a Agenda propõe um marco normativo permanente com critérios técnicos para declarar, escalonar e encerrar crises sanitárias — um estudo citado no documento estima que ao menos 120 mil das quase 670 mil mortes por covid-19 poderiam ter sido evitadas com resposta coordenada. Na vigilância climática, aponta que 29% dos estabelecimentos do SUS, 26% dos leitos e 20% dos leitos de UTI estão a menos de 500 metros de áreas de alto ou muito alto risco geológico — vulnerabilidade exposta pelas enchentes do Rio Grande do Sul em 2024 —, e defende integrar dados entre Ministério da Saúde, Ministério do Meio Ambiente, Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), Serviço Geológico do Brasil e Defesa Civil.
As três frentes restantes miram crianças e adolescentes. Contra o avanço dos ultraprocessados — que respondem por 83% do consumo na faixa de 5 a 9 anos, enquanto o excesso de peso entre adolescentes subiu de 25% em 2015 para 33,5% em 2025 —, a Agenda pede um marco nacional vinculante para o ambiente alimentar escolar. Sobre plataformas digitais, cobra a regulamentação concreta das obrigações do ECA Digital, em vigor desde março de 2026. E defende restringir a publicidade de apostas online e proibir os jogos de maior risco: em 2025, ao menos 25 milhões de brasileiros apostaram, 10,9 milhões apresentam envolvimento com potencial de dano e 1,4 milhão preencheria critérios para Transtorno do Jogo, com custo social anual estimado em R$ 38,8 bilhões e 53% das crianças e adolescentes já expostas à publicidade do setor.