Gestão e Qualidade | 21 de julho de 2026

Governança clínica sustentou qualidade durante a expansão da Rede D’Or, aponta estudo

Pesquisa do IDOR acompanhou dez indicadores de segurança do paciente em 57 hospitais entre 2016 e 2024.
Governança clínica sustentou qualidade durante a expansão da Rede D'Or, aponta estudo

Um modelo de governança clínica unificada sustentou melhorias consistentes em indicadores de segurança do paciente ao longo de nove anos na Rede D’Or, mesmo diante da rápida expansão da rede e do período mais crítico da pandemia de Covid-19. A conclusão é de estudo conduzido pelo Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR), em colaboração com a Rede D’Or, publicado na revista científica BMC Health Services Research.


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A pesquisa acompanhou a evolução de indicadores assistenciais em 57 hospitais gerais de alta complexidade, distribuídos pelas cinco regiões brasileiras, entre 2016 e 2024. No período, a Rede D’Or mais que dobrou o número de unidades analisadas — de 25 para 57 hospitais incorporados progressivamente ao sistema. Ainda assim, a maior parte dos indicadores apresentou melhora ou estabilidade, e nenhum registrou piora consistente. Segundo os autores, trata-se de uma das análises longitudinais mais abrangentes já realizadas sobre governança clínica em uma grande rede hospitalar de um país de renda média.


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Manter padrões elevados de qualidade enquanto a estrutura cresce é um dos principais desafios da gestão em saúde.

“Existe uma diferença substancial entre gerenciar um número limitado de hospitais e manter consistência de qualidade técnica em uma rede com 79 unidades. Escalar sem perder qualidade é um dos maiores desafios da saúde”, afirma Helidea Lima, pesquisadora do IDOR e diretora de Qualidade Assistencial da Rede D’Or.


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O que a pesquisa mediu

Na prática, a governança clínica reúne estratégias voltadas a garantir que o cuidado seja seguro, padronizado e baseado nas melhores evidências disponíveis. O modelo analisado inclui protocolos assistenciais comuns a toda a rede, auditorias periódicas, monitoramento contínuo de indicadores, fortalecimento dos Núcleos de Segurança do Paciente, programas permanentes de capacitação, reuniões mensais para comparação de resultados entre hospitais e compartilhamento sistemático de boas práticas.

Os pesquisadores analisaram dez indicadores amplamente utilizados para medir segurança do paciente e qualidade assistencial, entre eles mortalidade cirúrgica, infecções relacionadas à assistência, quedas de pacientes internados, lesões por pressão, rapidez na administração de antibióticos em casos de sepse e o tempo necessário para a realização de angioplastia em pacientes com infarto agudo do miocárdio. O estudo também avaliou se a evolução da qualidade esteve associada ao desempenho financeiro das instituições, medido por indicadores econômicos utilizados internacionalmente.

Melhora na maioria dos indicadores

Ao longo dos nove anos, a maior parte dos indicadores apresentou evolução favorável. Houve redução das infecções primárias da corrente sanguínea associadas ao uso de cateter venoso central, das infecções do trato urinário relacionadas ao cateter vesical, das lesões por pressão e das quedas de pacientes internados. Também cresceu a proporção de pacientes com sepse que receberam antibióticos na primeira hora após o reconhecimento da doença e caiu o tempo entre a chegada ao hospital e a angioplastia em pacientes com infarto agudo do miocárdio — procedimento cujo sucesso depende diretamente da rapidez do atendimento.

Alguns indicadores permaneceram estáveis, mas nenhum piorou de forma consistente.

“Observa-se, de forma consistente, uma melhora progressiva da maioria desses indicadores na série histórica analisada. Alguns permanecem estáveis, mas nenhum apresenta piora”, afirma Helidea.

A prova da pandemia

O estudo permitiu observar o comportamento dos indicadores antes, durante e após a pandemia de Covid-19. Na Rede D’Or, alguns indicadores sofreram impacto temporário: houve aumento das infecções relacionadas à assistência e das lesões por pressão, movimento semelhante ao registrado internacionalmente. Após a fase mais aguda, esses indicadores retomaram a tendência de melhora observada antes de 2020.

Para os pesquisadores, o resultado demonstra a capacidade de recuperação de programas estruturados de qualidade diante de situações extremas. Outro aspecto destacado foi o próprio crescimento da rede: à medida que novas unidades eram incorporadas, os indicadores assistenciais mantiveram comportamento semelhante ao dos hospitais que já integravam o grupo — o que, segundo os autores, sugere que um modelo estruturado de governança clínica pode facilitar a integração de novos hospitais e acelerar a disseminação de padrões comuns de qualidade.

Qualidade e sustentabilidade financeira

7Os pesquisadores também investigaram se o investimento contínuo em protocolos, auditorias, treinamento e monitoramento comprometeria o desempenho financeiro das instituições. A análise não identificou associação consistente entre a melhora dos indicadores assistenciais e pior desempenho econômico ao longo do período. O desenho da pesquisa não permite estabelecer relações de causa e efeito, mas os resultados sugerem que investir em qualidade não significa, necessariamente, abrir mão da sustentabilidade financeira.

“Considerando-se que houve evolução positiva da performance econômica ao longo do período analisado, é razoável inferir que a qualidade contribuiu para o fortalecimento global da organização”, pondera Helidea.

Para a pesquisadora, o principal legado do estudo vai além dos indicadores isolados: o trabalho oferece uma análise histórica da trajetória da Rede D’Or — consolidação, expansão, enfrentamento de desafios críticos e entrega sustentada de resultados de qualidade técnica —, o que, em sua avaliação, repercute em melhores desfechos aos pacientes atendidos.

Segundo Leandro Reis Tavares, vice-presidente executivo da Rede D’Or São Luiz, a qualidade assistencial deve integrar a estratégia de crescimento de qualquer organização de saúde.

“Expandir uma rede hospitalar preservando padrões assistenciais elevados exige planejamento, monitoramento permanente e uma cultura organizacional voltada para a melhoria contínua. Este estudo demonstra que investir em governança clínica, protocolos baseados em evidências e acompanhamento sistemático dos indicadores é fundamental para fortalecer a segurança do paciente e garantir a sustentabilidade da organização”, afirma.

Os autores ressaltam que novas pesquisas poderão identificar quais componentes da governança clínica exercem maior influência sobre os indicadores e avaliar se estratégias semelhantes produzem resultados comparáveis em hospitais públicos, filantrópicos e em outras redes, no Brasil e no exterior.

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