Gestão e Qualidade | 20 de maio de 2026

Unimed Porto Alegre conquista o VBHC Prize 2026, principal prêmio internacional em cuidado baseado em valor

Modelo gaúcho para dor lombar vence reconhecimento chancelado por Michael Porter, de Harvard, com contratos baseados em resultados, navegação do paciente e 96% de satisfação clínica,
Unimed Porto Alegre conquista o VBHC Prize 2026, principal prêmio internacional em cuidado baseado em valor

O Sistema Integrado de Cuidado para Dor Lombar desenvolvido pela Unimed Porto Alegre conquistou o VBHC Prize 2026 (Value-Based Health Care Prize), o principal reconhecimento internacional em cuidado baseado em valor. A premiação ocorreu em 13 de maio, em Amsterdã, na Holanda, e selecionou 16 projetos de todo o mundo pela excelência em resultados de saúde e uso eficiente de recursos assistenciais.


banner setor saúde


O prêmio e a teoria de Michael Porter

O VBHC Prize é uma iniciativa do VBHC Center Europe e tem como chairman honorário o professor Michael Porter, da Harvard Business School — o acadêmico que, em 2006, ao lado de Elizabeth Teisberg, fundou as bases teóricas do Value-Based Health Care no livro Redefining Health Care. A obra inaugurou um novo paradigma global: reorganizar os sistemas de saúde em torno do valor gerado ao paciente, medido pela relação entre resultados clínicos e custos, substituindo a lógica do volume de procedimentos por uma lógica de desfechos. Porter é hoje o pesquisador mais citado nas áreas de economia e gestão, e sua ligação com o VBHC Prize confere ao reconhecimento um peso ímpar no cenário internacional.


INSCRICOES-ABERTAS-19-06-26-SS


Um problema de escala nacional

A escolha da dor lombar como foco do modelo não é casual. Segundo dados do próprio projeto registrados no site do VBHC Prize, cerca de 25 milhões de brasileiros sofrem de distúrbios crônicos da coluna. Em 2024, dor na coluna e hérnia de disco tornaram-se o principal driver de afastamento previdenciário no país, afetando mais de 205.100 trabalhadores — um aumento de 69% em relação ao ano anterior. A condição está associada a uma perda de produtividade estimada em 79%, além de gerar altos custos assistenciais em um modelo historicamente fragmentado, no qual pacientes transitam por múltiplos prestadores sem coordenação, com grande variação de conduta e baixo impacto na qualidade de vida.


banner-iahcs-ss


O que torna o modelo diferente

A iniciativa da Unimed Porto Alegre transforma esse cenário ao substituir o cuidado reativo e orientado por volume por uma abordagem estruturada, centrada no paciente e orientada a desfechos clínicos. Três diferenciais se destacam para gestores e líderes do setor.

O primeiro é o modelo de contrato baseado em resultados: a remuneração dos prestadores é vinculada à excelência clínica, não à quantidade de procedimentos realizados — uma ruptura direta com o modelo fee-for-service ainda dominante no Brasil.


MK-0179-25-Banner-Seminário-de-Gestão-600x313px


O segundo é a navegação do paciente. Cada jornada começa com um enfermeiro navegador que acolhe o paciente, oferece suporte e orienta o percurso assistencial. A partir de uma estratificação de risco baseada em dados padronizados, o médico direciona o paciente para o caminho adequado: tratamento conservador, manejo interventivo da dor ou cirurgia. Um dos critérios de estratificação é o Índice de Incapacidade de Oswestry (ODI, na sigla em inglês), questionário validado internacionalmente que mede o grau de limitação funcional causada pela dor lombar em dez domínios da vida cotidiana — como cuidados pessoais, caminhar, sentar e dormir. Pontuações acima de 40% indicam incapacidade severa e acionam o encaminhamento para fisioterapia de alta complexidade; dor acima de 7 em escala numérica serve como critério complementar.


CAFE-POLITICA-SAUDE-FEHOSUL-26-SS-GS-ANUNCIO-600


O terceiro é a mensuração sistemática de valor. O modelo incorpora 18 indicadores-chave de resultado, codesenhados com os próprios pacientes por meio de grupos de experiência, abrangendo desfechos clínicos, experiência do paciente, drivers de custo e processos assistenciais. Patient-Reported Outcomes (PROs) são coletados em múltiplos momentos ao longo de episódios de 90 dias, com seguimento de cinco anos.

A rede envolve cinco prestadores — as clínicas de fisioterapia Instituto Golden, Centro do Movimento e Clínica Marantes, além dos hospitais São Lucas da PUCRS e Mãe de Deus, em Porto Alegre — e contou com a consultoria de Marcia Makdisse (foto abaixo), médica especialista em transformação do cuidado pela Universidade do Texas e fundadora da Mak Valor Mentoring e Academia VBHC.

Marcia Makdisse premio valor em saude

Resultados e projeções

Lançado em novembro de 2024, o modelo incluiu 150 pacientes em seus primeiros 12 meses de operação. Entre os 25 pacientes que concluíram episódios completos de cuidado, os resultados registrados no site do VBHC Prize apontam: 42% de melhora na qualidade de vida, 61% na funcionalidade, 68% de redução da dor e 96% de satisfação. Os custos dos episódios cirúrgicos se mantiveram equivalentes ao histórico fee-for-service, com ratio de 1,03, demonstrando que qualidade assistencial e eficiência de custos podem caminhar juntos. Um ratio de 1,03 significa que o custo dos episódios cirúrgicos dentro do novo modelo foi apenas 3% acima do custo histórico no modelo fee-for-service tradicional.

Na prática: para cada R$ 100 que o sistema gastava antes por episódio cirúrgico, o novo modelo gastou R$ 103. Uma diferença mínima e estatisticamente irrelevante, que demonstra que não houve encarecimento real ao migrar de um modelo de pagamento por volume para um modelo de pagamento por resultado.

O dado é estrategicamente poderoso porque derruba o principal argumento contra o VBHC: o de que qualidade assistencial superior necessariamente gera custos maiores. O modelo não gerou economia nos episódios cirúrgicos, mas também não gerou encarecimento significativo. O custo ficou praticamente estável em relação ao histórico, enquanto os desfechos clínicos melhoraram expressivamente –  resultados acima descritos, gerando benefícios reais e que importam para o paciente. O sistema entregou resultados superiores sem onerar o sistema de saúde. Qualidade e eficiência de custos caminhando juntos — exatamente o que Porter propôs em 2006.

Em cinco anos, a iniciativa projeta impactar ao menos 7.000 pacientes, com uma economia estimada de € 2,5 milhões em custos evitados por meio da redução de cirurgias desnecessárias e intervenções de baixo valor clínico.

marcio pizzato UNIMED POA

Para o presidente do Conselho de Administração da Unimed Porto Alegre, Márcio Pizzato (foto acima), o prêmio reflete a estratégia de atuação em rede da cooperativa. “Queremos oferecer as melhores soluções em saúde, crescer de forma sustentável e valorizar o trabalho do médico cooperado. É nosso compromisso, estamos colhendo esses resultados”, afirma.

O diretor médico do Hospital Mãe de Deus e líder do Escritório de Valor da instituição, Tiago Ramos, destacou o significado do reconhecimento. “Como um dos pioneiros em Porto Alegre na implementação de um serviço completo de VBHC, entendemos que fazer parte desta iniciativa reforça o compromisso do Hospital Mãe de Deus com a inovação e a construção de um cuidado cada vez mais integrado, oferecendo uma experiência mais qualificada aos pacientes”, disse.

O diretor-geral do Hospital São Lucas da PUCRS, Evandro Luis Moraes, ressaltou a dimensão coletiva da conquista. “Receber este reconhecimento em saúde baseada em valor ao lado de parceiros tão importantes para a Saúde no Rio Grande do Sul nos traz um sentimento de maturidade institucional e construção coletiva”, afirmou.

O coordenador do Centro do Movimento, Pedro Henrique Deon, também celebrou o resultado. “O Prize é um reconhecimento de todos os envolvidos na rede de dor lombar liderada pela Unimed. Estamos muito orgulhosos, pois ele representa um selo que atesta tanto a qualidade assistencial quanto a consistência do modelo proposto”, declarou.

Um marco para o Brasil

A conquista representa também um avanço significativo para o sistema de saúde brasileiro no cenário internacional. O Brasil possui histórico ainda limitado de reconhecimento no VBHC Prize — uma das competições mais exigentes do mundo em cuidado baseado em valor —, e a vitória da Unimed Porto Alegre sinaliza que o país é capaz de desenvolver soluções inovadoras alinhadas às melhores práticas globais. Para CEOs e gestores do setor, o resultado é um indicativo concreto de que o modelo VBHC não é apenas teoria importada: ele pode ser implementado, mensurado e premiado internacionalmente dentro da realidade do sistema de saúde brasileiro.

Uma trajetória construída passo a passo

O VBHC Prize 2026 é o ponto mais recente de uma jornada que a Unimed Porto Alegre vem construindo sistematicamente desde 2023. Naquele ano, a cooperativa inaugurou seu Escritório de Valor — tornando-se a primeira operadora do Sul do Brasil a estruturar internamente um núcleo dedicado à implementação do VBHC em toda a sua extensão, com grupos de experiência com pacientes, novos modelos de interação e redesenho de redes de cuidado.

Em novembro de 2024, como o Setor Saúde registrou na ocasião, a Unimed Porto Alegre promoveu o 1º Summit Internacional de Valor em Saúde, no Instituto Ling, em Porto Alegre. No evento — que contou com a presença de Sir Muir Gray, referência mundial em saúde baseada em valor —, foi lançada oficialmente a primeira Linha de Cuidado da cooperativa, voltada à dor lombar, e criada a Aliança de Valor em Saúde. Hospitais parceiros também receberam distinções pelo engajamento com a nova lógica assistencial.

LEANDRO FIRME UNIMED POA

Na ocasião, o CEO da Unimed Porto Alegre, Leandro Firme (foto acima), descreveu o significado da mudança para o setor. Segundo ele, a adoção do VBHC altera o relacionamento da operadora como fonte pagadora com sua rede prestadora e, principalmente, com o próprio beneficiário — e os desperdícios nas jornadas dos pacientes, tanto assistenciais quanto de sustentabilidade, precisavam ser enfrentados com uma lógica mais inteligente.

A inclusão de pacientes começou em janeiro de 2025. Menos de 18 meses depois, o projeto estava em Amsterdã, sendo reconhecido entre os 16 melhores do mundo.

Unimed Porto Alegre

A Unimed Porto Alegre é uma das maiores cooperativas médicas do Sistema Unimed e uma das maiores operadoras de saúde do Brasil. Conta com mais de 6.800 médicos cooperados distribuídos em diversas especialidades, com área de atuação que abrange 46 municípios — incluindo Porto Alegre, região metropolitana, Litoral Norte e Costa Doce. A cooperativa mantém ampla rede credenciada de hospitais, clínicas, laboratórios e serviços especializados, além de estrutura própria com Pronto Atendimento Adulto e Infantil, Centro de Diagnóstico por Imagem, Laboratório Unimed, SOS Unimed e programas de promoção à saúde.

Matéria elaborada com base em release da Unimed Porto Alegre, na descrição oficial do projeto no site do VBHC Prize e cobertura anterior do Setor Saúde.

VEJA TAMBÉM