Pacientes do SUS têm cinco vezes menos chance de acessar uma UTI do que beneficiários de planos de saúde
Levantamento da AMIB revela que, apesar da expansão de 67% nos leitos de terapia intensiva na última década, a desigualdade no acesso ao cuidado intensivo permanece estrutural
O Brasil ampliou em 67% sua oferta de leitos de Unidade de Terapia Intensiva (UTI) entre 2016 e 2025 — passando de 28 mil para mais de 47 mil leitos adultos — e hoje supera a média global de disponibilidade. Ainda assim, o acesso ao cuidado intensivo segue profundamente desigual. É o que aponta levantamento da Associação de Medicina Intensiva Brasileira (AMIB): um beneficiário de plano de saúde tem até cinco vezes mais chance de conseguir um leito de UTI do que quem depende exclusivamente do Sistema Único de Saúde (SUS).
Os números que explicam a desigualdade
A disparidade tem raiz estrutural. Em 2025, os 35,5 milhões de brasileiros cobertos por planos de saúde — 16,6% da população — contam com 24.426 leitos de UTI adulto, o equivalente a 69 leitos por 100 mil habitantes, índice compatível com o de países desenvolvidos. Já os 177,9 milhões que dependem exclusivamente do SUS — 83,4% da população — compartilham 23.218 leitos, ou 13 por 100 mil habitantes.
Segmento
População
% da população
Leitos UTI adulto
Leitos por 100 mil hab.
Planos de saúde
35,5 milhões
16,6%
24.426
69
SUS
177,9 milhões
83,4%
23.218
13
Total Brasil
213,4 milhões
100%
47.644
22,3
Desigualdade regional: Norte abaixo do mínimo recomendado
A análise por região expõe um segundo nível de desigualdade — desta vez territorial. Em números absolutos, o Sudeste concentra a maior parte dos leitos de UTI do SUS, com 10.616 unidades, seguido do Nordeste (5.361), Sul (3.908), Centro-Oeste (1.886) e Norte (1.447). Quando a análise considera a oferta proporcional à população, o contraste se aprofunda: a região Norte registra apenas 8 leitos por 100 mil habitantes — abaixo do patamar mínimo de 10 recomendado internacionalmente pela Organização Mundial da Saúde (OMS).
Região
Leitos UTI SUS
Leitos por 100 mil hab.
Situação
Sudeste
10.616
15
✅ Acima do mínimo
Sul
3.908
14
✅ Acima do mínimo
Centro-Oeste
1.886
13
✅ Acima do mínimo
Nordeste
5.361
11
✅ Acima do mínimo
Norte
1.447
8
⚠️ Abaixo do mínimo
O contraste entre estados é ainda mais revelador. Um morador do Espírito Santo dependente do SUS conta com 22,8 leitos por 100 mil habitantes — enquanto um habitante do Amapá dispõe de apenas 3,6. A diferença entre os dois extremos representa uma razão de acesso seis vezes maior para quem vive no estado mais bem servido.
Gestão antes de expansão
Para o presidente da AMIB, Cristiano Franke, o caminho para a equidade passa menos pela criação de novos leitos e mais pelo aprimoramento da gestão dos recursos existentes. “Em muitos casos, é possível obter ganhos sem a necessidade imediata de expansão do número de leitos”, afirma.
O presidente do Conselho Consultivo da AMIB, Ederlon Rezende, reforça o diagnóstico: “O principal desafio está na distribuição e na capacidade de resposta do sistema. A forma como os leitos estão organizados e integrados à rede de atenção ainda limita o acesso em diversas regiões do país, sobretudo para a população que depende exclusivamente do SUS.” Para Rezende, o momento exige menos foco isolado na expansão e mais atenção à forma como os recursos existentes são distribuídos e utilizados — com redes regionais mais articuladas e maior capacidade de coordenação entre serviços.
Para lideranças do setor de saúde, o levantamento da AMIB reforça uma agenda que vai além da infraestrutura: a eficiência na alocação de recursos e a integração das redes assistenciais são hoje os principais determinantes do acesso ao cuidado intensivo no Brasil.