Estatísticas e Análises | 14 de abril de 2026

Ozempic e Mounjaro mudam consumo: 61% de bares e restaurantes já sentem impacto, aponta Abrasel

Pesquisa inédita revela queda no consumo de sobremesas, aumento de porções menores e mudança no padrão de bebidas no Brasil.
Ozempic e Mounjaro mudam consumo 61% de bares e restaurantes já sentem impacto, aponta Abrasel

O avanço do uso de medicamentos para emagrecimento como Ozempic e Mounjaro já começa a transformar o comportamento do consumidor em bares e restaurantes no Brasil. Uma pesquisa da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel) mostra que 61% dos empresários do setor já identificam mudanças no consumo associadas ao uso desses medicamentos.


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O movimento ainda ocorre de forma gradual, mas já indica uma mudança consistente no padrão de consumo fora do lar, com impactos diretos nos pedidos, no ticket médio e na estratégia dos estabelecimentos.


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Consumo mais moderado: menos sobremesas e pratos principais

Entre os principais efeitos observados está a redução no consumo de pratos principais e, principalmente, de sobremesas.

56% dos empresários perceberam mudanças no volume de pedidos dos pratos principais; 


65% notaram alterações no consumo de sobremesas; 


Em parte dos casos, há queda mais intensa na demanda por doces.

“A mudança já é percebida, mas ainda ocorre de forma gradual. O consumidor continua frequentando bares e restaurantes, porém com escolhas mais moderadas. Esse movimento tende a ganhar força nos próximos meses, especialmente após o fim da patente da semaglutida, em março deste ano, que já abriu caminho para a produção de versões genéricas e similares mais acessíveis”, afirma Paulo Solmucci, presidente-executivo da Abrasel.


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Porções menores e compartilhamento ganham força

A pesquisa também evidencia uma mudança relevante no comportamento do consumidor:

64% dos empresários observaram crescimento nos pedidos de miniporções;


Mais de 70% apontaram maior frequência de escolhas consideradas mais leves;


64% notaram aumento no compartilhamento de pratos principais.

O cenário reforça uma tendência de consumo mais racional e orientado ao equilíbrio alimentar.

Bebidas sem álcool avançam no consumo

As mudanças também atingem o consumo de bebidas:

65% dos empresários notaram alterações nos pedidos de bebidas alcoólicas;


53% perceberam crescimento no consumo de bebidas não alcoólicas.

A substituição por alternativas sem álcool ou com menor teor alcoólico cresce, especialmente em estabelecimentos de maior faturamento.

Setor vê adaptação, não crise

Apesar das mudanças, o setor não enxerga um cenário negativo, mas sim de transformação e adaptação.

“Não se trata de um cenário de preocupação, mas de adaptação. O setor sempre acompanhou as transformações no comportamento do consumidor, e este é mais um movimento nesse sentido. Há espaço para inovação, com cardápios mais flexíveis, porções adequadas e novas opções de bebidas. Essas estratégias podem, inclusive, contribuir para ampliar margens e atrair diferentes perfis de clientes”, conclui Solmucci.

Empresários de Campinas ainda monitoram impactos

Na região de Campinas, os empresários acompanham o movimento, mas ainda sem impactos mensurados de forma concreta.

“Estamos acompanhando e já vemos alguns sinais, mas nada ainda que tenha sido medido ou que tenha impacto diretamente relacionado com o medicamento”, diz Mauro Mason, Chef e sócio do Restaurante Benedito, de Campinas.

“Mas acredito que o maior impacto deverá ocorrer em restaurantes com público de maior poder aquisitivo em um primeiro momento”, afirma Sérgio De Simone, proprietário do Rancho Colonial Grill, também de Campinas.

Para a liderança regional da entidade, o movimento representa uma mudança no perfil de consumo.

“Não significa que as pessoas estejam deixando de consumir nos restaurantes, mas sim mudando a forma como consomem. Em muitos casos, o cliente reduz a quantidade do prato principal, mas opta por uma sobremesa, uma bebida de maior valor agregado ou uma experiência mais sofisticada”, avalia André Mandetta, presidente da Abrasel Regional Campinas.

Mudança de consumo pode melhorar margens

Do ponto de vista operacional, a transformação no comportamento do cliente pode trazer efeitos positivos para os estabelecimentos.

A redução no volume de insumos por prato, combinada com ajustes estratégicos de cardápio e precificação, pode contribuir para a preservação e até ampliação das margens, reforçando a capacidade de adaptação do setor.

Principais dados da pesquisa Abrasel

61% dos bares e restaurantes já identificam mudanças no consumo; 


Redução no consumo de sobremesas e pratos principais;


Crescimento da demanda por porções menores e pratos leves;


Aumento do compartilhamento de refeições;


Avanço das bebidas não alcoólicas; 


Tendência de intensificação com maior acesso aos medicamentos.

Nota do editor: e no setor de saúde pública e suplementar?

A disseminação de medicamentos como Ozempic e Mounjaro também começa a produzir efeitos relevantes sobre o sistema de saúde, tanto no segmento privado quanto no público. No curto prazo, há aumento da demanda por consultas, acompanhamento clínico e monitoramento ambulatorial, enquanto no médio e longo prazo a tendência é de mudança no perfil assistencial, com possível redução de complicações associadas à obesidade, como Diabetes Tipo 2 e doenças cardiovasculares.

Redução da sinistralidade e diminuição da incidência de doenças crônicas e da demanda por atendimentos de maior complexidade

Na saúde suplementar, o cenário combina pressão imediata de custos — pelo uso prolongado de terapias de alto valor e potencial judicialização — com a perspectiva de redução da sinistralidade futura, desde que haja gestão ativa, protocolos clínicos e adesão ao tratamento. Em alguns casas, as operadoras já estão cobrindo o valor das canetas – principalmente para pacientes com doenças crônicas e comorbidades.

Já no sistema público, o desafio envolve ampliar o acesso de forma sustentável, ao mesmo tempo em que se busca reduzir a carga de doenças crônicas e a demanda por atendimentos de maior complexidade. Em ambos os casos, o avanço dessas terapias reforça a necessidade de migrar de um modelo reativo para uma lógica de cuidado contínuo, preventivo e coordenado.

Para os hospitais, o avanço do uso de medicamentos como Ozempic e Mounjaro tende a produzir efeitos graduais no perfil assistencial, mais do que mudanças imediatas na demanda. No médio e longo prazo, especialistas apontam para uma possível redução de internações e complicações associadas à obesidade e à Diabetes Tipo 2, o que pode diminuir a ocorrência de eventos agudos evitáveis e alterar o mix de ocupação hospitalar. Em contrapartida, no curto prazo, observa-se um aumento da demanda ambulatorial, com mais consultas, exames e acompanhamento multidisciplinar de pacientes em tratamento, exigindo maior integração entre especialidades como endocrinologia, clínica médica e nutrição. Esse cenário reforça a necessidade de adaptação dos hospitais para um modelo mais preventivo e coordenado de cuidado, com novos protocolos clínicos e acompanhamento contínuo desses pacientes.

 

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