Clinical Research Summit: Hospital Moinhos de Vento avança rumo ao mapa global da pesquisa clínica
Evento promovido pelo Hospital Moinhos reúne pesquisadores, indústria farmacêutica, Embrapii e representantes do governo para discutir o presente e o futuro da pesquisa clínica no Brasil e na América Latina
Porto Alegre sediou nos dias 12 e 13 de maio de 2026 a segunda edição do Clinical Research Summit Latin America, evento promovido pelo Hospital Moinhos de Vento que reuniu pesquisadores, gestores hospitalares, representantes da Anvisa, do Ministério da Saúde, da indústria farmacêutica, da Embrapii e de universidades nacionais e internacionais. O objetivo é claro e ambicioso: transformar o Brasil — e Porto Alegre em particular — em um dos grandes hubs globais de pesquisa em saúde. O portal Setor Saúde esteve presente na abertura oficial do evento, realizada na noite do primeiro dia, que teve como palestrante principal o professor Jorge Almeida Guimarães, um dos nomes mais relevantes da ciência brasileira nas últimas décadas.
Na abertura oficial do evento, o CEO do Hospital Moinhos de Vento, Mohamed Parrini destacou: “Este evento reflete um movimento estratégico que o Hospital Moinhos de Vento vem construindo de forma consistente — integrando educação, com o lançamento do nosso curso de medicina, a novos e robustos investimentos e parcerias nas áreas de pesquisa e inovação. Não se trata apenas de crescimento institucional. O que nos move é algo maior: gerar qualidade de vida para a nossa população e contribuir concretamente para o desenvolvimento científico e tecnológico do Brasil. O futuro do país passa pela saúde — e a saúde passa pela pesquisa.”
Um evento que nasceu nacional e já mira a América Latina
A primeira edição do Clinical Research Summit teve foco doméstico — reunir os atores da pesquisa clínica brasileira em torno de uma agenda comum. A segunda deu um salto. “A ideia é expandir e trazer todos esses parceiros da América Latina e até internacionais para participarem com a gente”, explicou Eduardo Zimmer (foto abaixo), Head de Pesquisa do Hospital Moinhos de Vento e uma das lideranças que trabalho na escolha dos temas e palestrantes do evento. “Queremos colocar cada vez mais o Brasil, Porto Alegre e o Moinhos de Vento como um dos grandes hubs de pesquisa clínica a nível internacional.”
Realizado no Hotel Deville Prime, em Porto Alegre, o evento reuniu ao longo dos dois dias nomes como o professor Kaj Blennow, da Universidade de Gotemburgo (Suécia), pioneiro mundial em biomarcadores para doenças neurodegenerativas com mais de 1.000 publicações científicas e 250 mil citações; Cecilia Bahit, Diretora Sênior de Pesquisa Clínica do Instituto Baim, nos EUA, referência em cardiologia e neurologia; e representantes da Fiocruz, do INCA, da Anvisa e do Ministério da Saúde. A programação cobriu trilhas temáticas em cardiometabolismo, oncologia, imunobiológicos, neurologia, saúde mental, vacinas, inteligência artificial aplicada à pesquisa e regulamentação — além de painéis estratégicos sobre fontes de fomento, comunicação científica, dados de mundo real e medicina de precisão.
O desenho do evento reflete exatamente o diagnóstico que seus organizadores fazem do ecossistema de pesquisa clínica brasileiro: fragmentado, com atores que raramente se sentam à mesma mesa. “A pesquisa hoje tem muitos stakeholders. A gente lida semanalmente com o Ministério da Saúde, a Anvisa, a indústria farmacêutica, a Embrapii, a academia. E a gente via que, às vezes, não tem uma integração plena disso”, explicou Eduardo Dytz (à esquerda, foto abaixo), Coordenador Médico do Instituto de Pesquisa e cardiologista, também responsável pela programação do evento. “O Summit foi idealizado para trazer todo mundo para conversar, facilitar a comunicação entre as partes e criar um networking real entre todos.”
Entrevista exclusiva ao Setor Saúde: Guimarães, a Segunda Guerra e o tempo que o Brasil perdeu
O portal Setor Saúde entrevistou com exclusividade o professor Jorge Almeida Guimarães. Bioquímico e farmacologista, Guimarães possui doutorado em Ciências Biológicas pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) e pós-doutorado pelo National Institutes of Health (NIH), nos EUA. Foi presidente da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) por 11 anos, entre 2004 e 2015 — período em que elevou o orçamento da instituição de R$ 500 milhões para R$ 7,1 bilhões e colocou o Brasil em posição de destaque internacional na pós-graduação. Foi também presidente da Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (Embrapii) de 2015 a 2022. É membro titular da Academia Brasileira de Ciências (ABC), professor titular aposentado da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e detentor dos títulos de Doutor Honoris Causa pela Universidade de São Paulo (USP) e Professor Honoris Causa pela Universidade Federal de Lavras (UFLA). Atualmente integra o Conselho Superior da CAPES, os Conselhos de Administração do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM) e da Biotech Amazônia, e preside o Conselho do Centro de Inovação e Ensaios Pré-Clínicos (CIEnP). Foi ainda idealizador do programa MD-PhD e do Programa Nacional de Iniciação Científica — iniciativas que se consolidaram como referências de impacto na formação científica brasileira.
Na conversa com o Setor Saúde, Guimarães abriu sua fala com uma lição histórica que, segundo ele, é essencial para entender por que iniciativas como o Embrapii e eventos como o Clinical Research Summit importam. Franklin D. Roosevelt — 32º presidente dos Estados Unidos, que governou o país de 1933 a 1945, período que inclui toda a Segunda Guerra Mundial — estava diante de uma superioridade militar que parecia intransponível. “Os Estados Unidos estavam com medo de entrar na guerra. Não tinham o poderio da Alemanha e do Japão”, contou Guimarães. A virada veio quando Roosevelt convocou Vannevar Bush — engenheiro e cientista, então diretor do Escritório de Pesquisa e Desenvolvimento Científico dos EUA, o grande arquiteto da mobilização científica americana do século XX — e lhe deu carta branca para reorganizar a capacidade científica do país. Em parceria com o Reino Unido de Winston Churchill, aliança consolidada na Conferência de Quebec de 1943, Bush estruturou mais de 300 institutos reunindo universidades, militares e empresas privadas em torno de objetivos comuns. Na prática, ambos países também abriram seus segredos científicos entre si em prol do enfrentamento ao inimigo mais potente. Deu muito certo, impactando toda a sociedade no pós-Guerra e em décadas seguintes.
Os resultados foram rápidos e decisivos. O radar — princípio já conhecido desde os anos 1930, mas que Bush e seus institutos aperfeiçoaram e militarizaram em escala operacional para uso em combate — tornou-se o primeiro grande produto dessa mobilização. “Você vê que poder tem essas ideias todas juntas”, disse Guimarães.
Os avanços se espalharam para a saúde — como o desenvolvimento industrial da liofilização do plasma sanguíneo, que transformou o atendimento a feridos no campo de batalha — e em quatro anos os aliados saíram na frente tecnologicamente. Ao fim da guerra, Bush entregou ao governo americano o relatório Science, The Endless Frontier, de 1945, defendendo que o modelo de cooperação entre Estado, universidade e empresa se tornasse política permanente. “O presidente perguntou pra ele: e agora? Ele disse: agora é continuar o modelo. Governo, empresa, universidade. Isso virou padrão pra eles.” O resultado foi o maior boom científico da história moderna — as bases da era digital foram lançadas, a Big Science ganhou forma institucional e Estados Unidos e Reino Unido consolidaram sua supremacia tecnológica por décadas.
O contraste com o Brasil é doloroso. “Os Tigres Asiáticos seguiram no mesmo caminhos de EUA-Reino Unido. Vários países da Europa também. E se aproveitaram do sucesso. O Brasil não fez isso no século passado, quando poderia ter feito. Já tínhamos o BNDES e a FINEP. Não fez.”
Décadas depois, o país colhe as consequências: dependência tecnológica e vulnerabilidade crítica na produção de medicamentos — escancarada durante a pandemia com a falta de Insumos Farmacêuticos Ativos (IFAs), os ingredientes essenciais para a fabricação de fármacos dos quais o Brasil importa a maior parte. “É uma questão de soberania, meu caro. Não desenvolver novos medicamentos ou outras inovações é um perigo enorme para o nosso país. Este é um dos principais motivos da criação da Embrapii, para correr atrás deste tempo perdido.”
A Embrapii conecta instituições científicas e tecnológicas — públicas e privadas — à indústria por meio de um modelo ágil, flexível e de baixa burocracia, aportando recursos não reembolsáveis para compartilhar o risco na fase pré-competitiva da inovação. O objetivo é estimular o setor industrial brasileiro a inovar com maior intensidade tecnológica, potencializando sua competitividade nos mercados nacional e internacional.
Sobre os benefícios do modelo da Embrapii, Guimarães foi direto. A organização social, criada em 2013 e operando desde 2014, retoma a lógica da hélice tríplice — Estado, empresa e academia — com agilidade e previsibilidade financeira que os modelos tradicionais de editais não costumam oferecer – até em função da sua estrutura de ordem estatal e que depende muitas vezes de orçamentos escassos. “A FINEP e as FAPs — Fundações de Amparo à Pesquisa estaduais, como a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio Grande do Sul (FAPERGS) e suas equivalentes nos demais estados — trabalham com editais que correm de uma forma mais burocrática. Fica meses aberto, o dinheiro às vezes demora seis, oito meses para ser liberado — e alguns nem recebem. Na Embrapii, a empresa sabe quando vai ter retorno. A previsibilidade é o que atrai.”
“O financiamento é tripartite: a Embrapii entra com até um terço dos recursos, a empresa com outro terço e a unidade de pesquisa com o restante.” Como exemplo de sucesso, Guimarães citou a parceria da LifeMed — empresa gaúcha fundada por Franco Pallamolla — com uma unidade Embrapii em Pelotas. “Fizeram um trabalho excelente. O Pallamolla é fantástico. É ágil, é uma liderança do setor. É o tipo de parceria que o modelo foi feito para gerar.”
Os números apresentados por Guimarães durante a palestra traduzem em dados concretos o que o modelo Embrapii representa para o Brasil. Desde sua criação em 2014 até 2026, a organização contratou 4.001 projetos de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (PD&I), movimentando um valor total de R$ 7,91 bilhões — sendo R$ 3,34 bilhões ainda em execução. Ao todo, 2.723 empresas já utilizaram o modelo, das quais 65,2% são micro e pequenas empresas. Foram gerados ainda 1.570 pedidos de propriedade intelectual (PI). O crescimento entre 2020 e 2025 foi expressivo: o valor investido cresceu em média 37% ao ano, enquanto o número de projetos avançou 28% ao ano no mesmo período. “Saímos de 9 projetos e R$ 20 milhões em 2014 para 816 projetos e R$ 1,6 bilhão em 2025. Isso é escala. Isso é o que acontece quando você tira a burocracia do caminho e coloca academia e indústria para trabalhar juntas com previsibilidade”, afirmou Guimarães durante a apresentação
O diferencial competitivo para as empresas que aderem ao modelo é claro e foi apresentado pelo próprio Guimarães no palco: redução significativa nos custos de desenvolvimento, menor exposição ao risco com apoio técnico contínuo, agilidade na contratação e início do projeto, acesso a pesquisadores e laboratórios de ponta, infraestrutura de P&D pronta para uso e maior previsibilidade na entrega dos resultados. “O diferencial está na contratação direta, sem edital ou chamada pública, o que torna o processo mais rápido e menos burocrático”, destacou em um dos slides da apresentação.
Do ponto de vista estrutural, a Embrapii mantém contratos de gestão com quatro ministérios: o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI), supervisor desde 2013; o Ministério da Educação (MEC), interveniente desde 2013; o Ministério da Saúde (MS), interveniente desde 2018; e o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), interveniente desde 2021 — demonstrando a progressiva expansão do modelo para além da indústria tradicional, chegando agora com força à área da saúde.
Para 2025 e 2026, estão abertas chamadas para novas unidades e centros de competência em áreas estratégicas. Na saúde, o Ministério da Saúde abriu chamada para até 6 novas unidades Embrapii, com R$ 5 milhões por unidade, focadas em dispositivos médicos, química medicinal, biofármacos e saúde digital — com 38 candidatas inscritas. Para os Centros de Competência, dois editais de destaque na área da saúde: RNA Mensageiro (R$ 60 milhões por centro, 4 candidatos, resultado previsto para março de 2026) e IFA a partir da Biodiversidade Brasileira (R$ 60 milhões por centro, 5 candidatos, resultado previsto para julho de 2026) — ambos pelo Ministério da Saúde. Ao apresentar esses dados, Guimarães reforçou o tema que atravessou toda a sua fala: soberania. Desenvolver IFAs a partir da biodiversidade brasileira é, segundo ele, transformar em medicamento o que a natureza do país tem de mais valioso — e colocar o Brasil no lugar que lhe cabe no cenário global da saúde.
Guimarães falou sobre o caminho que o Hospital Moinhos pode seguir
Para o Moinhos de Vento, a visão de Guimarães é abrangente e parte de uma experiência concreta que ele mesmo ajudou a construir. Quando o Hospital Israelita Albert Einstein cogitava criar seu curso de medicina, foi Guimarães — então à frente da CAPES e com intensa atuação em cooperação internacional — quem articulou uma visita à West University, nos Estados Unidos, apresentando ao Einstein o modelo MD-PhD da instituição americana, um dos maiores centros do mundo nesse formato. “Lá surgiu uma conversa. Falei: aqui tem um dos melhores centros de MD-PhD do mundo, está aberto à colaboração.” O resultado foi uma parceria concreta que culminou na criação da Faculdade de Medicina do Einstein, integrada desde o início a um centro de pesquisa de excelência e a programas de pós-graduação. “No dia da primeira aula, me chamaram de volta, em agradecimento. Fui eu que orientei esse caminho.”
É exatamente esse modelo que Guimarães recomenda ao Moinhos de Vento, que recentemente lançou seu próprio Curso de Medicina. “Eu vejo o mesmo caminho. A parceria com uma universidade americana forte, no modelo MD-PhD. Os alunos chegam num certo ano, vão para os Estados Unidos, voltam. É uma coisa integrada.”
Mas a recomendação vai além da formação: há um pré-requisito que considera inegociável para que o Moinhos dê o salto qualitativo que almeja — o investimento em pesquisa básica. “Sem a pesquisa básica, você está sempre usando o que outros descobriram. Com ela, você entende os mecanismos, desenvolve novos medicamentos, gera patentes, gera recursos. Entra em outro nível.” Enquanto a pesquisa clínica aplica conhecimento já existente para testar tratamentos em pacientes, a pesquisa básica investiga mecanismos biológicos na origem — e é dela que nascem os novos fármacos, as patentes e, em última instância, a soberania tecnológica. “Tem patentes que valem fortunas. É outro patamar.”
Guimarães lança agenda nacional para a pesquisa em saúde
Além da conversa exclusiva com o Setor Saúde, Guimarães subiu ao palco do Clinical Research Summit com uma agenda ainda mais ampla — e lançou ali uma proposta que pode mudar os rumos da pesquisa em saúde no Brasil.
O ponto de partida foi contextualizar a dimensão da ruptura científica das últimas décadas. Nas últimas duas décadas, a ciência básica finalmente se integrou de forma estruturada à pesquisa translacional — aquela que transforma descobertas laboratoriais em produtos terapêuticos reais. O resultado foi uma geração inteiramente nova de tratamentos: terapias gênicas, terapia celular e as vacinas baseadas em RNA mensageiro que revolucionaram a resposta global à Covid-19. “Doenças até então consideradas incuráveis passaram a ser tratadas através de novos processos e procedimentos médico-terapêuticos.”
Mas esse avanço tem um custo que o Brasil ainda não equacionou. “O sucesso do desenvolvimento da biotecnologia voltado à criação de medicamentos de maior complexidade demanda investimentos substanciais, políticas públicas de longo prazo e recursos humanos altamente qualificados em toda a longa cadeia de desenvolvimento.” Essa cadeia vai da pesquisa básica, passa pela translacional e pré-clínica, avança pelas fases clínicas e chega ao domínio dos processos regulatórios nacionais e internacionais. Cada elo exige competências específicas — e o Brasil tem lacunas em praticamente todos eles.
Tempo necessário para a pesquisa em saúde e métricas inadequadas
“Muitos programas que não envolvem o Embrapii foram prejudicados por uma visão de curto prazo — dois, três, quatro anos — e pelo uso de métricas inadequadas. Nessa área, isso não se aplica.” Em meio a esse diagnóstico, destacou uma exceção: uma iniciativa recente do Ministério da Saúde, por meio da Secretaria de Ciência e Tecnologia, com horizonte de dez anos de política de Estado. Para operá-la, o Ministério selecionou o Centro Nacional de Pesquisa em Materiais (CNPEM) — instituição que já atua como unidade Embrapii e que possui competências raras no Brasil em nanotecnologia e definição de estruturas moleculares, ferramentas essenciais para o drug discovery, a etapa de identificação e desenvolvimento de novas moléculas com potencial terapêutico.
De forma geral, na pesquisa com fins a se descobrir novos medicamentos, é necessário de um tempo de maturação adequado. “Estamos falando de 10, 15 e 20 anos. Mesmo com a ajuda da inteligência artificial e aumento do uso de modelos de Deep Research, o tempo certo precisa existir para que os projetos tenham confiabilidade e segurança.”
Formação de pesquisadores
“Recursos humanos é a palavra-chave desse contexto. Esse tema tem sido negligenciado por falta de adequadas políticas públicas de longo prazo.” Nas universidades e instituições de pesquisa brasileiras, ainda são raros os grupos plenamente qualificados para atuar em toda a extensão da cadeia de inovação. “Mesmo entre os existentes, observa-se de forma frequente a falta de competências integradas, incluindo as exigências regulatórias.”
Diante dessa lacuna, Guimarães lançou no evento uma proposta concreta: a criação de um Programa Nacional de Formação Avançada de Caráter Clínico Anual, voltado ao desenvolvimento de competências estratégicas ao longo de toda a cadeia de inovação farmacêutica. O programa financiaria estágios de pós-doutorado orientados à inovação, com duração de um a dois anos. A implementação exige parceria ampla: CAPES, Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP), Embrapii, Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), com os Ministérios da Ciência e Tecnologia, da Saúde e da Indústria e Comércio — além do setor empresarial. “Precisamos nos qualificar para o futuro. Tratamos muito da fase clínica, mas para chegar lá é preciso percorrer toda a cadeia antes.”
Guimarães encerrou o bloco sobre a Embrapii apresentando o que chamou de “A Revolução Silenciosa da Embrapii” — um modelo que opera em seis frentes simultâneas: qualificação das próprias unidades por meio de mentorias (foram 155 mentorias individuais e coletivas desde junho de 2024); efetiva interação entre Instituições de Ciência e Tecnologia (ICT) e empresas, com 17 mil pesquisadores à serviço da indústria brasileira; descentralização das competências em inovação, fortalecendo unidades no Nordeste, Centro-Oeste e Norte do país; apoio às próprias ICTs por meio da experiência dos grupos credenciados; educação com “mão na massa”, com aprendizagem ligada diretamente à prática nos projetos de PD&I; e atendimento a todos os perfis de empresa — desde as gigantes, com 80% das 20 empresas mais inovadoras do Brasil já no modelo, até as micro e pequenas, que representaram 68% das empresas apoiadas em 2025. “É ágil, sem burocracia, a qualquer momento, sob demanda das empresas. É assim que a inovação precisa funcionar”, sintetizou ao apresentar o slide.
Moinhos de Vento: do ecossistema ao centro de competência Embrapii
É nesse contexto que o Hospital Moinhos de Vento — fundado em 1927, segundo hospital do Brasil acreditado pela Joint Commission International (JCI) com oito ciclos consecutivos de certificação, eleito o melhor da Região Sul e quarto do país pela Newsweek e terceiro melhor da América Latina pela Latam Business Conference — surge como protagonista natural do próximo passo.
Eduardo Dytz (foto acima) confirmou que o movimento em direção à Embrapii já está em curso. “Se a gente trouxe o Dr. Jorge Guimarães aqui, é porque a gente já está pensando.” O objetivo é criar uma ou mais unidades Embrapii no Moinhos de Vento e consolidar a instituição como centro de competência na região Sul — enquanto as unidades Embrapii atuam em áreas específicas de pesquisa aplicada, os centros de competência têm escopo mais amplo, maior capacidade instalada e atuação estratégica de médio e longo prazo, funcionando como polos de referência nacional e internacional.
Os números do Instituto de Pesquisa sustentam essa ambição. “Estamos com 246 protocolos de pesquisa ativos, incluindo estudos de novas moléculas — medicamentos que estão na fronteira do conhecimento”, revelou Dytz. O Hospital possui ainda uma Academic Research Organization (ARO) própria — estrutura dedicada ao desenvolvimento de ensaios clínicos desde a concepção do protocolo, ainda rara no Brasil —, que posiciona a instituição não apenas como executora de estudos patrocinados pela indústria farmacêutica, mas como geradora de agenda científica própria. “Nós somos o protagonista intelectual que escreve todo o protocolo do estudo e coordena centros no país.”
A integração com o Curso de Medicina recém-inaugurado do Moinhos é peça central dessa estratégia. “É ampliar a nossa integração com a faculdade que acabou de iniciar. A gente já tem projetos de iniciação científica para que os alunos estejam integrados desde o início — para criar um ambiente que seja do início ao fim da carreira, dentro da instituição, com esse DNA de pesquisa”, explicou Dytz. A barreira que Guimarães identificou — a falta de pesquisadores formados para toda a cadeia de inovação — é exatamente o que o Moinhos quer enfrentar de dentro para fora. “A gente bate muito na tecla de fomentar que as pessoas deixem de sair do país para fazer pesquisa, de tornar isso daqui um local fértil.” Programas MD-PhD, nos moldes já existentes em outras instituições de referência, também estão no radar. “Isso está no nosso planejamento. A faculdade, certamente, vai ser parte fundamental desse processo.”
O Moinhos também tem no horizonte o avanço em pesquisa translacional — modelo que conecta diretamente as descobertas do laboratório à prática clínica, transformando conhecimento científico em benefício concreto para o paciente. É a ponte entre a bancada e a beira do leito, e representa o próximo passo natural para uma instituição que já integra assistência, ensino e pesquisa em um mesmo ecossistema. Linhas de pesquisa em saúde mental e Alzheimer, lideradas pelos doutores Eduardo Zimmer e Christian Kieling, e projetos no âmbito do Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do Sistema Único de Saúde (PROADI-SUS) já pavimentam esse caminho.
Para Zimmer, a estratégia passa por construir esse ecossistema desde a base. “Esse aluno da Faculdade de Medicina do Moinhos vai ser exposto à pesquisa de excelência desde o primeiro semestre. É muito difícil dissociar uma boa faculdade de medicina da pesquisa acadêmica.” No horizonte, parcerias para programas MD-PhD com universidades internacionais, o envio de fellows para aperfeiçoamento em instituições como a Mayo Clinic e Johns Hopkins (dois dos melhores hospitais do mundo e parceiros do Moinhos), com retorno programado para fortalecer o ambiente local. “A carreira do médico é indissociável da pesquisa.”
O que sustenta tudo isso, segundo Dytz, é algo que não aparece em nenhum relatório, mas que permeia cada projeto: a cultura interna e o ambiente próprio do DNA do Hospital Moinhos. “O ambiente que a gente está construindo aqui é absolutamente colaborativo. Não tem egos. A gente tem cuidado para que as pessoas consigam interagir — porque aí a gente consegue construir pesquisas diferentes.”
Grant histórico, novos fomentos e o sonho de reverter o efluxo de talentos
O reconhecimento internacional já chegou. O Moinhos conquistou em edital competitivo um grant de R$ 35 milhões da Wellcome Trust — uma das maiores e mais prestigiadas fundações independentes de fomento à pesquisa biomédica do mundo, sediada no Reino Unido — para uma pesquisa em saúde mental focada na adolescência, liderada pelos doutores Eduardo Zimmer e Christian Kieling. A dimensão do feito fica clara no contexto: a última vez que a Wellcome Trust havia financiado uma pesquisa de grande porte no Brasil foi na Coorte de Nascimentos de Pelotas — um dos mais longos e relevantes estudos longitudinais do mundo, iniciado em 1982 pelo epidemiologista César Victora na Universidade Federal de Pelotas (UFPel), que acompanha gerações de nascidos na cidade para investigar como as condições de nascimento e o ambiente social impactam a saúde ao longo da vida, tendo embasado políticas globais da Organização Mundial da Saúde (OMS) e do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef). “O César Victora é inclusive um associado do Moinhos”, destacou Dytz.
A diversificação das fontes de fomento é parte central da estratégia. Além da Wellcome Trust, o hospital está captando recursos do Instituto Serrapilheira, da Ciência Pioneira e da Alzheimer’s Association — agências que financiam pesquisa acadêmica independente, fora do modelo de pesquisa patrocinada pela indústria farmacêutica. Isso se soma aos fomentos nacionais via CAPES, CNPq e Ministério da Saúde, Embrapii e à participação no PROADI-SUS, que permite a hospitais de excelência acreditados desenvolverem projetos de pesquisa, capacitação e gestão em parceria com o Ministério da Saúde, com financiamento federal de longo prazo. “Esse programa permite que redes sejam formadas em parceria com o Ministério da Saúde para o desenvolvimento de grandes projetos de longo prazo. É um grande diferencial”, destacou Zimmer.
Por trás de toda essa estrutura, há também um objetivo estratégico para a região inteira: reverter o efluxo de talentos. “A gente quer tornar isso daqui um local fértil, para que as pessoas capacitadas enxerguem a nossa região como um lugar bom para ficar. O sonho daqui a cinco anos é que sejamos um polo com influxo de pessoas de outros locais — não o contrário.”
Para Guimarães, o recado final ao setor é direto — e vale para qualquer instituição que ainda não acordou para essa agenda: “Essa iniciativa vai dar continuidade, qualquer que seja o quadro político. É uma questão de soberania nacional. O Brasil tem biodiversidade, tem potencial humano. Tem tudo para liderar a ciência e a saúde na América do Sul. Agora precisa fazer.”
O Clinical Research Summit Latin America 2026 teve patrocínio de AbbVie, epHealth, Gilead Kite, GSK, Lilly, Pfizer e TriNetX, com realização do Instituto de Pesquisa Moinhos de Vento e apoio do Hospital Moinhos de Vento, Atrion Moinhos e Faculdade Moinhos de Vento.
Entrevistas realizadas durante o Clinical Research Summit — Hotel Deville Prime, Porto Alegre (RS), 12 e 13 de maio de 2026, com Jorge Almeida Guimarães (entrevista exclusiva ao Setor Saúde + palestra de abertura), Eduardo Zimmer e Eduardo Dytz (ambos entrevistas exclusivas), do Hospital Moinhos de Vento. Fotos LeonardoLenskij e apoio da assessoria de imprensa do Hospital Moinhos (Critério – Resultado em Opinião Pública),.