Mudanças climáticas na saúde: Ministério detalha AdaptaSUS em summit do Hospital Moinhos de Vento
Coordenadora-geral Helen Gurgel classifica crise climática como emergência sanitária e apresenta plano de adaptação do SUS com metas até 2035.
As mudanças climáticas na saúde deixaram de ser uma ameaça futura e já configuram uma emergência sanitária. O alerta foi feito pela coordenadora-geral de Mudanças Climáticas e Equidade em Saúde do Ministério da Saúde, Helen Gurgel, durante o 6º Summit Ambiental do Hospital Moinhos de Vento, realizado na terça-feira (9), em Porto Alegre. O impacto da crise climática na saúde pública e na infraestrutura hospitalar foi o tema central de um dos painéis do evento.
Na apresentação, a coordenadora traçou um panorama do aquecimento global: 2024 foi o ano mais quente dos últimos 175 anos de registro, e os últimos 11 anos representam os mais quentes da história recente do planeta. No Brasil, a exposição ao “calor extremo” — termo agora adotado oficialmente pelo Ministério da Saúde para desfazer a associação automática entre calor tropical e lazer — saltou de uma média de sete dias atípicos ao ano, no período de 1961 a 1990, para 52 dias anuais na década de 2011 a 2020. Segundo Helen, o calor é um evento extremo de alto impacto e pouco visível, muitas vezes mais letal do que outras tragédias mais evidentes.
Para o setor da saúde, as consequências dos eventos climáticos extremos vão além do aumento de doenças: elas ameaçam diretamente as operações assistenciais. A palestrante citou as inundações recentes no Rio Grande do Sul, nas quais 566 unidades de saúde chegaram a ser desativadas, e as secas históricas na Amazônia, que isolaram populações ribeirinhas e impediram a chegada de insumos e assistência médica.
Diante desses cenários, a coordenadora-geral defendeu a preparação estrutural das instituições de saúde. Hospitais e clínicas precisam de resiliência energética e logística para garantir a continuidade dos serviços, suportando desde quedas de energia até ventos e ciclones. “A infraestrutura da saúde tem que estar preparada para lidar com isso”, afirmou.
AdaptaSUS: plano nacional com metas até 2035
Com a previsão de um El Niño de forte intensidade entre 2026 e 2027, Helen detalhou as ações do governo federal, com destaque para o AdaptaSUS. O programa consiste em um plano nacional de adaptação focado na saúde, com horizonte de metas até 2035 e pautado pela justiça climática e pela equidade.
A coordenadora também anunciou inovações tecnológicas e parcerias durante o Summit. Entre elas, o iminente lançamento de um painel de previsão de calor extremo, capaz de emitir alertas aos municípios com cinco dias de antecedência para organizar ações de mitigação. Porto Alegre foi confirmada como uma das cidades que receberão apoio federal para a implementação de um Centro de Informações em Clima e Saúde, voltado ao enfrentamento local de picos de calor, eventos severos de frio e inundações.
“As mudanças climáticas já são uma emergência sanitária. Fortalecer a saúde ambiental e preparar para os riscos climáticos não é apenas estratégia de adaptação, mas uma condição essencial para salvar vidas, reduzir desigualdades e garantir direitos à saúde das atuais e das futuras gerações”, destaca Helen Gurgel.
Recomeçar RS atua no trauma pós-enchente e no preparo da população
O coordenador da Unidade de Pesquisa em Saúde Mental e psiquiatria do Hospital Moinhos de Vento, Christian Kieling, relembrou as enchentes históricas que afetaram milhões de gaúchos em 2024 para apresentar o projeto Recomeçar RS, iniciativa do hospital em parceria com o Ministério da Saúde por meio do Proadi-SUS.
“Não existe saúde sem saúde mental”, enfatizou o médico, citando estudos internacionais que demonstram que o impacto psicológico de uma grande inundação chega a se equiparar ao de um tsunami, com altas taxas de ansiedade, depressão e transtorno de estresse pós-traumático (TEPT). Para enfrentar esse cenário e ir além da mensuração do impacto, o Recomeçar RS estruturou uma rede de cuidado baseada em metodologia da Organização Mundial da Saúde (OMS), adaptada ao contexto local.
O programa oferece cuidado psicológico breve e de baixa intensidade, focado na resolução de problemas práticos do dia a dia e no alívio do sofrimento emocional. São sete sessões remotas e gratuitas, conduzidas por facilitadores especialmente treinados e com supervisão de especialistas. O objetivo é triar até 10 mil gaúchos afetados pelas águas e oferecer o protocolo completo de atendimento a mais de mil pessoas acima de 16 anos. Segundo Kieling, observou-se redução de quase 50% nos sintomas de ansiedade e depressão, além de queda de quase 30% nos sintomas de estresse pós-traumático entre os pacientes que finalizaram o ciclo.
Com a certeza de que a pergunta não é mais se um novo evento climático extremo ocorrerá, mas quando, o psiquiatra anunciou o foco do projeto na resiliência comunitária. O Hospital Moinhos de Vento acaba de lançar um curso autoinstrucional, gratuito e aberto ao público geral, voltado para os primeiros cuidados em saúde mental em desastres.
“Se a gente puder ter um mínimo de preparo de organização para quando um evento desafiador como as enchentes acontecer, a gente tem convicção de que o cuidado vai ser mais efetivo”, concluiu o especialista, reforçando a necessidade de uma adaptação ampla da sociedade à nova realidade climática.