Santa Casa identifica aumento significativo de complicações em pacientes não Covid-19 em função de procura tardia
Ricardo Kroef concedeu entrevista ao Setor Saúde
A pandemia da Covid-19 (doença causada pelo novo coronavírus) fez com que diversas rotinas fossem alteradas em todo o mundo. Na área da saúde, uma das consequências mais visíveis e preocupantes foi a suspensão das cirurgias, exames de diagnóstico e consultas eletivas, com impactos impróprios para a sustentabilidade econômico-financeira dos hospitais e demais estabelecimentos prestadores de serviços de saúde, mas também para a própria saúde dos pacientes. A Federação dos Hospitais e Estabelecimentos de Saúde do RS (FEHOSUL), que representa esses estabelecimentos, alerta para a necessidade de se ter um outro olhar: o da saúde da população não Covid-19. Ricardo Kroef, da Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre, destaca como a instituição vem lidando com este novo paradigma.
Por isso, em parceria com o Portal Setor Saúde, foi lançada uma série especial de entrevistas com gestores das instituições de saúde, destacando dados e informações sobre esta nova realidade. “É importante abordarmos a necessidade de não negligenciarmos os demais pacientes que não contraíram Covid. E demonstrar as boas práticas implementadas no setor hospitalar, na qual os pacientes podem confiar”, explica o presidente da FEHOSUL, médico Cláudio Allgayer.
Confira a entrevsta com o diretor-técnico do Complexo Hospitalar Santa Casa, dr. Ricardo Kroef. O médico é Chefe do Serviço de Cirurgia de Cabeça e Pescoço da Santa Casa, Supervisor da Residência Médica e Cirurgia de Cabeça e Pescoço da UFCSPA/Santa Casa e Fellow do Memorial Sloan Kettering Cancer Center, de Nova Iorque (EUA).
Agravamento pela ida tardia ao hospital
O diretor-técnico aponta que, na Santa Casa, houve queda bastante significativa nos atendimentos, tanto em emergências quanto nas consultas e cirurgias eletivas. Kroef cita uma série de casos de pacientes que deixaram de procurar a instituição e tiveram o agravamento dos seus quadros clínicos em casa.
“Podemos citar pacientes diabéticos, que apresentaram uma descompensação da sua diabete, que nos procuraram em mal estado e tiveram que ir para a UTI”, afirma.
O diretor-técnico também aponta que foram observados alguns quadros infecciosos importantes, e cita como exemplo uma criança que chegou no Hospital Dom João Becker, de Gravataí, integrante do complexo hospitalar Santa Casa, com uma complicação de uma otite e que foi à óbito por meningite. “A família, quando questionada do motivo de não terem levado ela ao hospital prontamente, disse que tinha medo de ir ao hospital”, relata. O risco de a otite se transformar em meningite gera alerta, sempre quando são sentidos dor e febre, sinais que podem estar associados a uma infecção grave.
Ainda ocorreu um caso com uma mulher, que chegou com uma infecção venosa (flebite) profunda na perna, que evoluiu para um quadro muito grave de septicemia e correu risco de morte.
Conforme Kroef, foi verificado que alguns pacientes que infartaram em casa – e chegaram tardiamente na Santa Casa, por medo de irem ao hospital – vieram a óbito, devido à demora em procurar ajuda médica.
Consequências na qualidade de vida futura
Para Kroef, as consequências dos atendimentos tardios não serão apenas sentidas no momento atual, com quadros agravados e mortes evitáveis registradas. Para ele, muitos dos casos terão seu impacto observado daqui a alguns meses.
“São impactos muito importantes, e o mais importante disso é que lá por novembro ou dezembro, nós vamos ver casos avançados de câncer que vão nos procurar, com sintomatologia que merecia ser investigada para câncer e que não foi investigada, e que vão nos procurar com a doença já em evolução. Isso nós vamos ver lá para frente. Este impacto é e será bastante importante”, avalia.
Forte impacto nos atendimentos
De acordo com o diretor-técnico, houve queda de 60% na Emergência de atendimentos por convênios [saúde suplementar] – “já nos atendimentos pelo SUS, houve uma queda menor”.
“Nas consultas eletivas, em fevereiro, quase não se notou, até março em torno do dia 19 estavam indo muito bem. A partir do bloqueio imposto pela autoridade sanitária, aí sim, as consultas caíram em torno de 90% e as cirurgias eletivas foram suspensas”, ressalta Kroef.
Kroeff salienta que, na Santa Casa, continuaram disponíveis somente as cirurgias graves, como os casos de câncer, procedimentos de cardiologia, de neurocirurgia – já algumas especialidades tiveram 100% de bloqueio nos atendimentos, pois eram essencialmente eletivas, como cirurgias plásticas, bariátrica, etc.
Retomada de cirurgias eletivas e das consultas
De acordo com Kroef, após a liberação das cirurgias eletivas [ocorrida no dia 23 de abril], pelo Governo do RS, a Santa Casa já registra uma recuperação no número de procedimentos, na média de 180 a 200 cirurgias por dia.
“Tínhamos caído para uma média de 30% no auge do bloqueio. Então, a recuperação está na faixa de 300 a 400%, mais ou menos. Nas consultas, tivemos um aumento bastante importante também. Hoje já estamos com um média de três mil consultas por dia, que é bastante interessante pois a meta da Santa Casa é em torno de quatro mil consultas por dia”, detalha o diretor-técnico da Santa Casa.
Novos protocolos garantem maior segurança aos pacientes
Kroef explica que as agendas foram intercaladas na instituição, com a organização de um intervalo maior entre as consultas, para evitar aglomerações entre os pacientes. E o uso de máscara passou a ser obrigatório para todas as pessoas que frequentam as dependências da Santa Casa.
“Além disso, é feita uma triagem na porta de todos os hospitais em que os pacientes são inquiridos quanto à existência de sintomas respiratórios, e também é medida a temperatura para a verificação de febre. Além de outras medidas físicas, com o bloqueio de assentos entre um e outro paciente, garantindo uma distância segura entre eles”, explica Kroef.
O diretor-técnico diz que o exame chamado PCR tem sido disponibilizado aos pacientes das cirurgias eletivas. O teste é considerado padrão ouro no diagnóstico da Covid-19, com níveis de acerto superiores aos testes rápidos (IgM/IgG).
Comunicação fortalecida nas redes sociais
De acordo com Kroef, a Santa Casa, principalmente através das suas redes sociais, “fornece toda a educação de como se portar em relação a sintomas de Covid-19 ou algum familiar que tenha sentido sintoma, qual é o tempo que [deve] ficar em casa, para onde se dirigir, etc, para evitar contágio e possibilitar maior diagnóstico dessas pessoas”.
Contato telefônico para os pacientes
A instituição também realiza telefonemas para pacientes que tinham sua consulta desmarcada e que potencialmente estão no grupo de risco. “Hoje, ligamos para este paciente oferecendo consulta, dentro dos nossos critérios de segurança”, diz.
Poucos casos diagnosticados de coronavírus
“A Santa Casa é um hospital que teve o cuidado de reservar algumas áreas exclusivas para Covid-19. Entretanto, tivemos, até o momento, poucos casos diagnosticados.” explica. No dia 25 de maio (data da entrevista), haviam apenas seis pacientes internados.
“Para o que estávamos esperando e preparados, é muito baixo. A Santa Casa é um hospital seguro, onde são tomadas todas as precauções para que o paciente possa vir com segurança evitando o agravamento do seu quadro clínico e evitando a falta de diagnósticos em doenças agudas e, principalmente, também o agravamento de casos já diagnosticados”, enfatiza Kroef.
Todo Cuidado
A Santa Casa possui um programa de saúde denominado Todo Cuidado, na qual não é necessário o paciente sair de casa para alguns procedimentos. O atendimento é realizado por uma equipe qualificada e que oferece toda a segurança nos seus cuidados de saúde. O Todo Cuidado também leva até você o Programa de Assistência Domiciliar, com assistência hospitalar de alta complexidade customizada conforme a necessidade de cada paciente. O serviço está disponível para particulares e convênios (conforme a cobertura do plano de saúde e valores especiais para pacotes). Para mais informações, entre em contato pelo telefone (51) 3213-7900, de segunda a sexta-feira, das 8h às 18h.
Série especial: leia as entrevistas já publicadas
Hospital Mãe de Deus estabelece novas rotinas para garantir atendimento seguro a todos os seus pacientes (27/05): Rafael Cremonese
Hospital de Caridade de Erechim vive nova realidade em meio à pandemia do coronavírus (28/05): Claudiomiro Carus
O perigo em não procurar o atendimento adequado no momento certo (Hospital Moinhos de Vento, 29/05): Luiz Antonio Nasi