Observatório Anahp 2026: aperto no caixa dos hospitais
Observatório Anahp 2026 mostra custos acima da receita, prazo de recebimento de 77 dias e glosa de 15,93% que pressionam o caixa dos hospitais privados
O cuidado acontece todos os dias dentro dos hospitais. A previsibilidade financeira, nem sempre. É esse contraste que o Observatório Anahp 2026 coloca no centro do debate: manter a operação funcionando, absorver custos crescentes e conviver com prazos mais longos de recebimento formam uma equação cada vez mais desafiadora para a sustentabilidade do setor. A publicação anual da Associação Nacional de Hospitais Privados (Anahp) reúne indicadores de 138 hospitais associados e confirma o avanço da eficiência assistencial — sem que ele, sozinho, resolva a pressão sobre o caixa.
O custo de cuidar subiu mais que a receita
O que entra por paciente cresce menos do que o que sai. Em 2025, a despesa total por paciente-dia avançou 15,60% (10,88% já descontada a inflação pelo IPCA), enquanto a receita líquida por paciente-dia subiu 6,86% (2,49% em termos reais). Na métrica por saída hospitalar o descompasso se inverte de forma mais dura: a receita líquida caiu 1,51% nominal — recuo real de 5,54% —, e a despesa total por saída cresceu 2,51%. O reflexo aparece na margem EBITDA média, que recuou de 11,68% em 2024 para 11,05% em 2025.
Na prática: mais pressão para manter equipes, insumos, tecnologia e estrutura assistencial, com menos folga na margem que financia investimento e renovação.
O hospital paga antes de receber
A conta de resultado é só parte do problema; a outra é o momento em que o dinheiro entra. O prazo médio de recebimento dos hospitais Anahp subiu para 77,35 dias em 2025, cerca de sete dias a mais que no ano anterior. No sentido oposto, o prazo médio de pagamento a fornecedores caiu para 48,30 dias. O hospital quita seus insumos em 48 dias e recebe das operadoras em 77 — quase um mês de diferença que o caixa precisa sustentar sozinho.
Na prática: com a Selic a 15% ao final de 2025, financiar esse intervalo entre pagar e receber ficou caro, e o custo do capital de giro passou a corroer o resultado antes mesmo da margem operacional.
A receita nem sempre entra de forma previsível
Faturar não é o mesmo que receber. A glosa inicial gerencial — parcela do que é cobrado das operadoras e fica retida em negociação — atingiu 15,93% em 2025. O índice de recebimento gerencial, que mede quanto do faturado efetivamente entra, caiu de 88,61% para 85,80%: a cada R$ 100 cobrados dos planos, cerca de R$ 14 não retornam no prazo esperado. A glosa aceita, valor que o hospital assume como perda definitiva, representou 1,72% da receita bruta de convênios.
Na prática: parte relevante do que já foi prestado ao paciente depende de negociação, análise e recuperação antes de se transformar em caixa — e o próprio Observatório classifica esses movimentos como sinal de desequilíbrio na relação entre prestadores e operadoras.
Pessoas: custo alto e rotatividade em alta
Mão de obra — pessoal celetista mais contratos técnicos — respondeu por cerca de 50% da despesa total dos hospitais Anahp em 2025, o maior item da conta. A composição mudou: a participação do custo de pessoal caiu de 39,03% para 33,66%, enquanto os contratos técnicos e operacionais subiram de 13,05% para 14,08%, indício de migração de vínculos diretos para terceirização.
A retenção piorou em todas as frentes. O índice de rotatividade geral chegou a 2,83% e o da enfermagem, ligada diretamente ao cuidado, subiu para 2,29%. A taxa de retenção em 12 meses caiu para 58,84%, a menor da série histórica, e a efetivação após o período de experiência recuou para 77,96%. As faltas não justificadas atingiram 0,77%, recorde da série.
Na prática: rotatividade alta eleva custo de contratação e treinamento e desafia a continuidade assistencial, num setor em que a equipe é o próprio cuidado.
O pano de fundo: juros, envelhecimento e concentração
Três forças ampliam o desafio no médio prazo. O custo do dinheiro, com a Selic a 15%, encarece investimento num setor intensivo em capital. A demografia empurra a demanda: a fatia de brasileiros com 65 anos ou mais deve saltar de 11,97% em 2026 para 23,21% em 2050, elevando volume e complexidade do cuidado. E a concentração define quem tem poder de barganha — 76,47% da receita dos hospitais Anahp vieram de recursos administrados por operadoras de planos de saúde. A inflação setorial reforça a tesoura: serviços médicos subiram 7,68% e planos de saúde 6,42% em 2025, contra IPCA geral de 4,26%.
Custo, prazo e glosa convergem para uma palavra: previsibilidade
As três dores expostas pelo Observatório 2026 apontam para o mesmo ponto. Previsibilidade é o que permite manter qualidade, sustentar alta complexidade e preservar capacidade de investimento.
Para a diretoria hospitalar, a leitura é direta: capital de giro deixa de ser tema de tesouraria e vira pauta de conselho; o combate à glosa migra da negociação para a origem, na qualidade do faturamento e da auditoria de contas; e a diversificação de fontes pagadoras e de modelos de remuneração ganha peso estratégico. O recado do Observatório 2026 é que o cuidado continua acontecendo todos os dias — e que garantir a previsibilidade de quem o sustenta é a próxima meta de gestão.