Gestão e Qualidade | 23 de junho de 2026

Liderança feminina na saúde: Dra. Sheila Paiva defende a liderança como estilo de vida

No Seminários de Gestão da FEHOSUL e do Sistema FECOMÉRCIO-RS | Sesc | Senac | IFEP, a médica Sheila Paiva uniu performance e humanização e relatou sua superação do burnout.
Liderança feminina na saúde Dra. Sheila Paiva defende a liderança como estilo de vida

A liderança feminina na saúde e a defesa de um modelo de gestão capaz de unir resultado e humanização foram o centro de um dos painéis do Seminários de Gestão, realizado pela FEHOSUL e pelo Sistema FECOMÉRCIO-RS | Sesc | Senac | IFEP em 19 de junho, no Hotel Sesc Porto Alegre. O tema intitulado “O Olhar Feminino no Cuidado e na Gestão” reuniu a médica infectologista Sheila Paiva — gestora, executiva e Responsável Técnico (RT) pelo Serviço de Epidemiologia e Controle de Infecção Hospitalar do Hospital Mater Dei Goiânia —, com mediação de Cleciane Doncatto Simsen, diretora da FEHOSUL e CEO do Hospital Virvi Ramos, de Caxias do Sul. A matéria integra a série especial produzida pelo portal Setor Saúde, media partner do evento.


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O patrocínio Ouro do evento é do Banrisul, o Bronze é Unimed Porto Alegre e o patrocinador institucional é o Grupo São Pietro Hospitais e Clínicas. O apoio é do SINDIHOSPA, Confederação Nacional de Saúde (CNSaúde), CBEXS, Colégio Brasileiro de Executivos em Saúde (CBEXs), Health Meeting Brasil/SINDIHOSPA, SEBRAE RS, Conselho Regional de Administração do RS (CRA-RS), IAHCS Acreditação, Universidade do Vale do Rio dos Sinos e eventize!. Media Partner: Setor Saúde.


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Liderança como estilo de vida, não como cargo

Sheila Paiva abriu a apresentação com uma definição que orientaria toda a sua fala: “O verdadeiro líder não veste um cargo, ele incorpora valores.” Para a médica, liderar não é uma posição nem um título, mas uma escolha que se manifesta tanto na vida pessoal quanto na profissional. Ela retomou um ponto do painel anterior, sobre saúde mental no trabalho, para reforçar que não é possível separar a pessoa do profissional: “Somos seres únicos, inteiros, na nossa integralidade.”


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A executiva sustentou que “a grande crise das organizações hoje não é uma crise de estratégia”, e sim de liderança. Em um ambiente acelerado, hiperconectado e saturado de informação — o chamado mundo BANI* —, descreveu profissionais exaustos e desconectados do próprio propósito, quadro que, para ela, está adoecendo as equipes. A resposta que propôs é a liderança como estilo de vida, estruturada em cinco pilares: autoconhecimento, propósito, servir, desenvolvimento de pessoas e entrega de resultados. Sobre o último, foi direta ao afirmar que resultados são a característica primordial da liderança, mas que precisam ser sustentáveis e associados à humanização — um líder que entrega números adoecendo as pessoas, defendeu, não se sustenta.


* O que é o mundo BANI: acrônimo cunhado em 2018 pelo antropólogo e futurista norte-americano Jamais Cascio, evolução do VUCA, com as quatro características (frágil, ansioso, não linear e incompreensível) e a ressalva de que ele ganhou força após a pandemia, valorizando competências como resiliência, empatia, adaptabilidade e escuta.


O que diferencia a liderança feminina

Convidada a falar sobre o tema, Sheila descreveu a liderança feminina madura como colaborativa, e não competitiva: “A liderança feminina madura, que também sabe quem é, o que quer e para onde vai, ela não compete, ela apenas colabora.” A executiva associou a esse perfil o equilíbrio entre razão e emoção, firmeza e sensibilidade, e a escuta ativa como habilidade central para conhecer, conectar e desenvolver equipes. Recorreu a uma frase de Michelle Obama sobre a ausência de limites para o que as mulheres podem realizar e fez questão de delimitar o debate: não se tratava de feminismo ou ativismo, mas de inclusão e respeito às competências femininas, somadas às masculinas.

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Para dimensionar o cenário, apresentou dados sobre a presença feminina na alta gestão. Segundo os números expostos na palestra, mulheres ocupam 28,3% dos assentos em conselhos de administração; 7% das empresas têm uma mulher como CEO e 9% têm uma mulher presidindo o conselho de administração; e cerca de 22% dos cargos executivos no mundo são ocupados por mulheres. No setor de saúde, ponderou, mesmo com as mulheres representando perto de metade da força de trabalho, a participação em cargos de liderança fica entre 20% e 22%.

Do burnout à reconstrução do próprio caminho

O trecho mais pessoal da apresentação foi o relato do próprio adoecimento. Sheila contou que, por acreditar que precisaria abrir mão da sua essência e da sua feminilidade para ocupar uma cadeira estratégica, chegou ao burnout: “Perdi totalmente a minha essência e, consequentemente, adoeci.” Descreveu como a exaustão se instala de forma silenciosa — insônia, irritabilidade, cansaço crônico — justamente quando acreditava estar no auge profissional, e resumiu o aprendizado: nenhum cargo justifica o adoecimento do corpo, da mente e da alma.

dra sheila paiva lideranca feminina

A partir dessa virada, a médica afirmou ter construído uma metodologia apoiada em quatro dimensões que se reforçam — propósito, humanidade, ciência e resultado — e ter reorganizado a sua atuação em torno do que considera o seu propósito. Hoje, disse, divide o trabalho entre a medicina, a gestão, a comunicação e a mentoria de líderes: “hoje eu faço só aquilo que eu gosto, só aquilo que me dá prazer.” Encerrou a fala com a própria definição: “a comunicadora que cura, que cuida, inspira e transforma.”

Formação, escolhas e o desafio das gerações

Na mediação, Cleciane Doncatto Simsen ampliou o debate a partir da rotina de quem dirige instituições de saúde. Ela apontou a dificuldade de encontrar profissionais preparados para assumir cargos de gestão e localizou parte do problema na formação: na saúde, boa parte das lideranças é composta por mulheres — farmacêuticas, nutricionistas, enfermeiras e psicólogas — que não tiveram, na graduação, disciplinas de gestão de pessoas ou de normas regulamentadoras. Sobre o peso das escolhas na carreira, foi pessoal: “Eu fui mãe com 40 anos”, contou, lembrando que “a gente abre mão de muitas coisas em função da nossa atividade”.

dra sheila paiva e cleciane doncatto simsen lideranca feminina

A diretora da FEHOSUL relacionou a discussão ao tema do painel anterior, sobre saúde mental no trabalho, com uma constatação sobre o papel do líder: “as pessoas normalmente não se demitem das empresas, elas se demitem dos seus chefes”. A partir das perguntas enviadas pelo público, gestora e mediadora convergiram sobre a convivência entre gerações — pela primeira vez, cinco delas coexistem no ambiente corporativo — e defenderam a troca de conhecimento entre profissionais mais jovens e mais experientes como caminho para equipes mais colaborativas e resultados mais consistentes. Para Sheila, o ponto de partida é sempre o mesmo: conhecer cada pessoa da equipe para identificar suas forças e desenvolvê-las.

cleciane simsen dra sheila paiva

O painel encerrou com a mensagem de que performance e cuidado não se opõem — e de que o olhar feminino, somado ao masculino, tende a potencializar resultados sustentáveis nas instituições de saúde, desde que apoiado em respeito, escuta e propósito.

dra sheila paiva e cleciane doncatto simsen

 Série especial Setor Saúde

Veículo oficial do evento, o Setor Saúde segue com a cobertura do Seminários de Gestão nos próximos dias. As próximas matérias trarão a abertura conduzida por Cláudio José Allgayer, presidente da FEHOSUL, e Luiz Carlos Bohn, presidente da Fecomércio-RS; o painel “Saúde em Transformação: Obstáculos e Oportunidades”, com Francisco Balestrin, presidente da FeSaúde e fundador do Colégio Brasileiro de Executivos em Saúde (CBEXs); o debate sobre aspectos regulatórios na relação entre operadoras e prestadores na saúde suplementar, com Maurício Nunes da Silva, diretor de Assuntos Regulatórios da CNSaúde, sob mediação de Daniel Giaccheri, sócio-fundador do Grupo São Pietro Hospitais e Clínicas e vice-presidente do SINDIHOSPA; e a discussão “Supply Chain na Saúde: Eficiência, Controle e Qualidade Assistencial”, com Simone Mahmud, do Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA), Luiz Henrique Lodi, do Hospital São Vicente de Paulo (HSVP), e Evandro Luís Moraes, diretor-geral do Hospital São Lucas da PUCRS, com mediação de Danieli Ciotti, do Senac Ijuí. Acompanhe as publicações no portal.

FOTOS: Gabriel Berlesi (Fecomércio-RS)

 

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