Ociosidade de 61% em salas cirúrgicas drena R$ 3,1 bilhões do sistema de saúde
Análise da Planisa aponta que otimizar a ociosidade no centro cirúrgico liberaria quase 2 milhões de cirurgias mensais no país.
A estrutura física mais cara de um hospital permanece vazia na maior parte do tempo. Levantamento da Planisa, consultoria com 37 anos de atuação especializada em gestão de custos na saúde e que gerenciou R$ 41,3 bilhões em custos hospitalares nos últimos 12 meses, com uma carteira de 385 clientes, aponta que os blocos cirúrgicos brasileiros operam com ociosidade média de 61% — um desperdício que drena R$ 3,1 bilhões por ano do sistema e represa cerca de 2 milhões de procedimentos por mês.
Por que isso importa
O centro cirúrgico (CC) é o coração econômico da instituição hospitalar. As admissões cirúrgicas respondem por 60% das admissões de um hospital geral e direcionam mais de 40% de todos os custos com internações. Sozinho, o CC concentra cerca de 15% de todo o custo hospitalar. Qualquer oscilação em sua produtividade chega rápido à última linha do resultado.
O peso financeiro cresce justamente quando o modelo de remuneração migra do fee-for-service para arranjos baseados em valor e a inflação médica segue em alta. A ineficiência do bloco operatório deixou de ser uma questão administrativa para se tornar uma ameaça à viabilidade da própria assistência.
O paradoxo da produtividade estagnada
A Planisa acompanhou a evolução do indicador de cirurgias por sala por dia e encontrou um número que não se move: foram 2,6 procedimentos por sala/dia em 2019 e seguem os mesmos 2,6 em 2025. No mesmo período, o custo da hora do centro cirúrgico subiu mais de 50%. Manter a sala aberta ficou muito mais caro, mas o volume de cirurgias dentro dela continua o mesmo.
“Como preconizava o guru da administração moderna, Peter Drucker: ‘A eficiência não é fazer as coisas mais rápido, mas fazer as coisas certas’. Trazer a filosofia de Drucker para o ambiente perioperatório exige que gestores e lideranças médicas abandonem o empirismo e passem a governar o centro cirúrgico com base em dados de alta acurácia, transformando a variabilidade descontrolada em previsibilidade operacional”, afirma o diretor de Serviços da Planisa, Marcelo Carnielo.
A conta da ociosidade
Nos hospitais avaliados, o custo fixo mensal de operação de uma única sala chega a R$ 202.377, dos quais R$ 123.652 representam o custo direto da ociosidade por mês. Levada à escala do país, a conta se torna bilionária.
– Custo Fixo Mensal de Operação (por Sala): R$ 202.377 (1)
“Quando expandimos essa ótica micro para a escala macroeconômica brasileira — considerando o censo de 25.293 salas cirúrgicas ativas no país em 2024, excluindo salas cirúrgicas de pequenos procedimentos ambulatoriais, o impacto se mostra devastador: o custo acumulado da ociosidade nos blocos operatórios drena R$ 3,1 bilhões anuais do sistema de saúde. Esse montante bilionário se traduz no represamento de cirurgias eletivas, o que agrava o quadro clínico de milhares de pacientes nas filas de espera. Otimizar a atual ociosidade de 61% dessas salas permitiria injetar um potencial de 1,97 milhões por mês de novos procedimentos ao sistema”, explica Carnielo.
Os custos invisíveis fora da sala
A ineficiência reverbera para os setores que antecedem e sucedem o ato cirúrgico. Por segurança, as equipes reservam leitos de UTI no pré-operatório, mas 25,6% dessas vagas antecipadas não chegam a ser usadas, segundo o Observatório Anestesia de Valor, da Anestech. Com a diária de UTI adulto em torno de R$ 2.692, cada leito de alta complexidade bloqueado sem necessidade gera prejuízo e ainda impede a internação de pacientes críticos vindos do pronto-socorro.
O mesmo comportamento preventivo aparece nas bolsas de sangue: a reserva ocorre em 5,0% dos casos, mas o uso real fica em 1,1%. Ainda que as bolsas retornem ao banco, a tipagem, o transporte, os testes de compatibilidade e o bloqueio temporário custam cerca de R$ 431 por bolsa processada.
O caminho da mudança
Carnielo defende um ciclo estruturado de melhoria contínua em quatro passos: analisar os dados atuais, definir metas claras, priorizar iniciativas de alto impacto e monitorar para ajustar rotas. A modernização do bloco operatório já aparece em movimentos recentes do setor, como a operação integral de novos centros cirúrgicos desenhados em torno de eficiência e jornada do paciente.
“A excelência operacional nasce do ponto de convergência entre a precisão milimétrica dos algoritmos preditivos e a coordenação relacional das equipes assistenciais. A implantação de ferramentas consagradas, como o uso sistemático e obrigatório do checklist de cirurgia segura da Organização Mundial da Saúde (OMS), melhora de forma documentada a consciência situacional da equipe, minimizando erros e mitigando atrasos de fluxo”, afirma o executivo.
A estruturação de comitês formais de governança perioperatória e a adoção de protocolos como o ERAS (Enhanced Recovery After Surgery) completam o roteiro para romper com o desperdício oculto.
O que esperar
Para gestores pressionados por margem e por filas, o centro cirúrgico deixa de ser apenas o ambiente de maior custo e passa a ser a maior alavanca de recuperação de resultado e de acesso. “O resultado desta transformação transcende a otimização de custos e a recuperação de margens financeiras: trata-se da construção de um sistema de saúde mais seguro, sustentável, eficiente e focado em seu propósito maior: salvar vidas com o máximo de dignidade e o menor desperdício de recursos”, conclui Marcelo Carnielo.
A Planisa gerenciou R$ 41,3 bilhões em custos hospitalares nos últimos 12 meses e mantém uma carteira de 385 clientes no Brasil e em outros países da América do Sul e da África.
(1) Planisa. Indicadores por classificação – BIP Hospitais Ano 2025. Boletim Indicadores Planisa: Unidades hospitalares – indicadores econômicos e de produtividade. São Paulo: Planisa; 2025. (2) Anestech. Observatório Anestesia de Valor 2024 / 2026. Florianópolis: Anestech; 2026.