O dragão de sete bocas: a sabedoria antiga por trás da longevidade
Em artigo, Fernando Neubarth, chefe do Serviço de Reumatologia do Hospital Moinhos de Vento, fala sobre como uma parábola de 1810 antecipa os pilares da Medicina de Estilo de Vida (MEV) e o novo olhar sobre a longevidade saudável.
Na parábola “O Paciente Curado”, publicada em 1810 no seu famoso almanaque, o pastor e teólogo luterano Johann Peter Hebel (1760-1826) apresenta um homem extraordinariamente rico em Amsterdã que sofria de “365 doenças” — uma para cada dia do ano. Seu cotidiano era um monumento ao sedentarismo e aos excessos: passava as manhãs na poltrona fumando tabaco, quando não estava com preguiça até de encher o cachimbo; almoçava como um camponês recém-chegado do campo; e gastava as tardes beliscando pratos frios e quentes, não por fome, mas para preencher o tempo até o jantar. À noite, desabava na cama exausto, como se tivesse passado o dia carregando pedras e cortando lenha.
Com o tempo, seu corpo tornou-se disforme como um saco de milho. Comer e dormir viraram tribulações, e ele buscava a salvação na polimedicação: engolia potes inteiros de misturas, pós às pás e comprimidos do tamanho de ovos de codorna, até ficar conhecido como uma “farmácia ambulante”. Nada funcionava — recusava-se a seguir qualquer prescrição, esbravejando contra a incompetência dos médicos que não conseguiam curá-lo, apesar de toda a sua fortuna. Queria comprar com dinheiro a saúde que suas próprias escolhas diárias destruíam.
A reviravolta veio quando ele ouviu falar de um médico que morava no campo, a cem horas de caminhada dali. Sabendo que o mal do paciente vinha da falta de moderação e movimento, o sábio doutor lhe enviou uma carta com um diagnóstico cirúrgico para a mentalidade daquele homem — um engano lúdico transformado em ferramenta terapêutica:
“Você está realmente em mau estado, mas ainda pode ser ajudado. Você tem uma criatura desagradável no estômago, um verme-da-índia com sete bocas. Preciso lidar com ele pessoalmente, mas há condições: não venha de carruagem ou a cavalo, mas sim com solas de couro, caso contrário o movimento perturbará o verme e ele roerá suas entranhas. E coma no máximo um prato de legumes duas vezes ao dia, com uma linguiça ao meio-dia e um ovo à noite.”
O terrível parasita invocado pelo doutor — que na imaginação popular flertava com as lendas de um lindworm, o mítico dragão serpentino — despertou no homem o medo ancestral de uma possessão. Movido pelo pavor da morte, o paciente mandou encerar as botas e partiu a pé. No primeiro dia, moveu-se mais devagar que um caracol, ignorando quem o cumprimentava. Mas ao longo da jornada de dezoito dias, o exercício ao ar livre e a restrição calórica foram operando o milagre: na metade do caminho, já achava o canto dos pássaros mais doce e o orvalho mais fresco. Caminhava com vigor. Ao chegar ao consultório, sentia-se perfeitamente saudável.
O médico rural validou a própria história para garantir que ela durasse: “O verme se foi. Mas os ovos dele ainda estão dentro de você. Por isso, deve voltar para casa a pé e, quando chegar, precisa serrar muita lenha onde ninguém o veja, comendo apenas o suficiente para saciar a fome — assim os ovos não eclodirão, e você poderá viver até uma idade avançada.” O paciente entendeu o espírito da lição, mudou sua rotina e viveu com saúde de ferro até os 87 anos, quatro meses e dez dias.
Essa parábola bem que poderia figurar como o “caso clínico” fundador de uma iniciativa contemporânea: o Ambulatório de Medicina de Estilo de Vida e Longevidade Saudável do Hospital Moinhos de Vento. Ali, integrado a um centro de alta complexidade, o foco se desloca da simples remissão de sintomas para prevenir doenças crônicas e promover bem-estar. A longevidade real vai além de viver mais anos — o que a ciência chama de lifespan. Ela é uma existência plena e qualitativa, com a autonomia do indivíduo preservada por escolhas conscientes: o healthspan, nossa expectativa de vida saudável.
Há uma ironia nisso: a busca pelo que há de mais inovador acaba nos conduzindo, sutilmente, de volta às raízes. O próprio Hospital Moinhos de Vento nasceu em 1927 como o Deutsches Krankenhaus, o Hospital Alemão, fruto do esforço de uma comunidade porto-alegrense de forte matriz luterana e do trabalho vocacionado das Schwesters — as irmãs diaconisas que trouxeram da Alemanha a base do cuidado e do acolhimento hospitalar. É justamente nessa Alemanha protestante que Hebel, hoje reconhecido como um dos maiores contadores de histórias da língua alemã, escrevia em sua Baden natal com um paternalismo afetuoso, voltado para a educação de um público amplo — uma sabedoria bem-humorada que mais tarde despertaria a admiração de gigantes como Tolstói e Kafka.
Hoje, a abordagem integral e personalizada do novo ambulatório dá embasamento científico ao “verme de sete bocas” do teólogo alemão. O que o médico do conto fez de forma empírica e intuitiva foi antecipar os pilares da Medicina de Estilo de Vida (MEV) que hoje orientam o serviço moderno: mexeu na alimentação e impôs atividade física com as solas de couro e o cortar lenha, cuidou do sono, manejou o estresse e o tédio, cortou os excessos e trouxe o paciente de volta ao convívio social ao fazê-lo interagir de novo com o mundo exterior.
O Deutsches Krankenhaus do passado, sustentado pelo zelo das Schwesters, e o Moinhos de Vento do presente se encontram na mesma sabedoria secular: o cuidado com a longevidade é inovador e clássico ao mesmo tempo. Para viver muito e melhor, o segredo não está em pílulas mágicas que patrocinem nossos excessos, mas em gastar as solas de couro, redescobrir a moderação no prato e manter sob vigilância os ovos daquele dragão de sete bocas que a rotina insiste em despertar.
* Para Alexander Welaussen Daudt, idealizador do ambulatório, e em memória do exemplo terno e inspirador de sua jovial e centenária avó, D. Cecy.
Fernando Neubarth é médico reumatologista, chefe do Serviço de Reumatologia do Hospital Moinhos de Vento. Formado pela FAMED/UFRGS, foi presidente da Sociedade Brasileira de Reumatologia (2006-2008) e da Sociedade de Reumatologia do RS. Também é escritor, autor de contos e crônicas, premiado com o Açorianos e o Prêmio Nacional para Médicos.