Gestão e Qualidade | 28 de junho de 2026

Supply chain na saúde: o “coração invisível” que conecta gestão de suprimentos a desfechos clínicos

Painel dos Seminários de Gestão reuniu especialistas do HCPA, Hospital São Vicente de Paulo e Hospital São Lucas da PUCRS para discutir eficiência, controle e qualidade assistencial.
Supply chain na saúde o coração invisível que conecta gestão de suprimentos a desfechos clínicos

A cadeia de suprimentos como o “coração” silencioso de um hospital — que precisa funcionar 24 horas por dia, sete dias por semana, sem jamais ser percebido. Foi com essa imagem que o painel “Supply Chain na Saúde: Eficiência, Controle e Qualidade Assistencial” encerrou os Seminários de Gestão, realizado em 19 de junho, no Hotel Sesc Porto Alegre, pela FEHOSUL e pelo Sistema Fecomércio-RS/Sesc/Senac/IFEP. O debate reuniu Simone Mahmud, coordenadora de suprimentos do Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA); Luiz Henrique Lodi, coordenador de suprimentos do Hospital São Vicente de Paulo (HSVP), de Passo Fundo; e Evandro Luís Moraes, diretor-geral do Hospital São Lucas da PUCRS, com mediação de Danieli Ciotti, enfermeira e coordenadora dos cursos da área da saúde do Senac Ijuí. Esta matéria integra a série especial produzida pelo portal Setor Saúde, media partner do evento.


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O patrocínio Ouro do evento é do Banrisul, o Bronze é Unimed Porto Alegre e o patrocinador institucional é o Grupo São Pietro Hospitais e Clínicas. O apoio é do SINDIHOSPA, Confederação Nacional de Saúde (CNSaúde), CBEXS, Colégio Brasileiro de Executivos em Saúde (CBEXs), Health Meeting Brasil/SINDIHOSPA, SEBRAE RS, Conselho Regional de Administração do RS (CRA-RS), IAHCS Acreditação, Universidade do Vale do Rio dos Sinos e eventize!.


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HCPA: estratégia de compras dentro das amarras do setor público

Coordenadora de suprimentos do HCPA — hospital público vinculado à Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), com mais de 900 leitos e perfil de alta complexidade —, Simone Mahmud abriu o painel explicando como faz gestão de suprimentos sob as limitações da administração pública, em que a licitação é a única ferramenta de aquisição. “Nós temos que licitar, mas licitar produtos de qualidade”, afirmou, lembrando que o hospital há anos não compra apenas pelo menor preço, apoiando-se em uma área de análise técnica que avalia a qualidade dos itens.


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A executiva contou que reestruturou a gerência de suprimentos, que antes operava em silos, incorporando a farmácia e a análise técnica à cadeia. A mudança permitiu enxergar o consumo de ponta a ponta. Um exemplo prático foi o manejo de um antibiótico de altíssimo custo, a ceftazidima-avibactam, que isoladamente consome 30% do orçamento de medicamentos do hospital: ao passar a diluí-lo na central de misturas intravenosas, em doses unitárias por paciente, o HCPA economizou R$ 2 milhões em 2025 apenas na manipulação.

Simone Mahmud

Mahmud apresentou ainda dois casos de aplicação da metodologia strategic sourcing. No primeiro, a equipe mapeou toda a cadeia de abastecimento em uma matriz para identificar gargalos e itens estratégicos, chegando aos gêneros alimentícios — 410 itens, com R$ 14 milhões em compras, dos quais 68 itens concentravam 80% do valor. A busca ativa por novos fornecedores credenciados gerou economia de mais de R$ 2 milhões, mesmo num momento de alta no preço da carne. O segundo caso, ainda em curso, trata das OPMEs de cardiologia. A coordenadora destacou também o papel do Núcleo de Avaliação de Tecnologias (NATS), responsável por filtrar o benefício clínico real frente ao custo de cada incorporação — estrutura que, segundo ela, pode ser reproduzida em hospitais menores com um profissional que entenda de evidência científica.

Simone Mahmud hcpa

Ao encerrar, Mahmud resumiu sua visão sobre a área: “A cadeia de suprimentos, ela é o coração da instituição, porque ela tem que estar 24 horas, 7 dias na semana funcionante.” Para ela, quando a cadeia é percebida na ponta, é sinal de que houve uma quebra — daí a defesa de uma “eficiência silenciosa”.

HSVP de Passo Fundo: visão de processo e o uso da inteligência artificial

Coordenador de suprimentos do Hospital São Vicente de Paulo, instituição filantrópica centenária de Passo Fundo com mais de 700 leitos, Luiz Henrique Lodi trouxe a perspectiva de um hospital de alta complexidade no interior, onde o lead time dos fornecedores é mais longo e o risco de ruptura, maior. Ele relatou o caso que o marcou ao assumir o almoxarifado: faltas que estouravam na farmácia interna às sextas-feiras e geravam estresse e busca por culpados. A virada, contou, veio quando a equipe parou de apontar o dedo e passou a olhar para o processo. “Nós temos que enxergar que o processo favorece o erro, não elimina o erro”, afirmou.

Luiz Henrique Lodi

A solução foi simples: um relatório de faltas entregue à farmácia antes do último pedido do dia, dando tempo para providências. “Se tem uma coisa que eu aprendi no hospital é a falta não é o problema, o problema é a surpresa da falta”, resumiu. Lodi mostrou indicadores reais — o nível de serviço dos almoxarifados, que era de 85% em 2019, alcançou a meta de 95% em 2025, enquanto os dias de estoque caíram de 55 para cerca de 26, equilibrando atendimento e saúde financeira.

Luiz Henrique Lodi HSVP Passo Fundo

O coordenador dedicou a parte final de sua fala à inteligência artificial, que classificou como um “consultor de TI, um programador e um consultor de negócio” à disposição da equipe. Relatou ter criado, sem saber programar, ferramentas que montam e analisam indicadores automaticamente, liberando tempo para o que importa: estabelecer e executar planos de ação. Fez, porém, a ressalva sobre segurança de dados: “não compartilhe dados sensíveis, sigilosos, LGPD, jamais joguem, em qualquer rede que seja, esses dados”, e reforçou que o olhar humano segue necessário. Para ele, a IA “não vai tirar o trabalho do gestor de suprimentos, mas talvez ela tire o trabalho do gestor de suprimentos que não sabe usar a IA para aprimorar o seu trabalho”.

Hospital São Lucas da PUCRS: inovar para continuar cuidando

Diretor-geral do Hospital São Lucas da PUCRS — primeiro hospital marista do mundo, fundado em 1976 e que celebra 50 anos de atuação em Porto Alegre e no Rio Grande do Sul —, Evandro Luís Moraes conduziu sua apresentação sob o mote “Inovar para continuar cuidando: supply chain, sustentabilidade e qualidade assistencial na saúde filantrópica”. A instituição soma 61 mil m² de área construída, 3,5 mil colaboradores, mais de 2,5 mil médicos no corpo clínico, 400 leitos operacionais, 70 de UTI, 13 salas cirúrgicas e um fluxo diário de mais de 18 mil pessoas.

evandro luis moraes

Moraes partiu dos conceitos de filantropia, sustentabilidade e eficiência para defender que o setor vive uma transformação estrutural — população envelhecendo, doenças crônicas crescendo, tratamentos mais complexos e expectativa cada vez maior da sociedade, com a superlotação das emergências como face mais visível da pressão sobre o sistema. Essa pressão, mostrou, também chega à cadeia de suprimentos, na forma de consumo muitas vezes imprevisível, risco de desabastecimento e custos crescentes.

evandro luis moraes hospital sao lucas da pucrs

As enchentes no Rio Grande do Sul trouxeram aprendizados inéditos, como a dificuldade de acesso à água diante dos danos na rede de abastecimento, episódio que ele reviveu à frente do Hospital Moinhos de Vento. “Como um hospital atende sem água? Contratamos caminhões pipas que nos abasteciam diariamente”, relatou. A pandemia impôs uma pressão igualmente severa, sobretudo quando a indústria chinesa foi obrigada a interromper a produção de insumos essenciais, como máscaras e equipamentos de proteção para os colaboradores. Ele recordou novamente o período em que era superintendente administrativo no Hospital Moinhos de Vento: “Tínhamos um estoque bem controlado, estávamos tranquilos no início da pandemia. Mas quando a China parou de produzir nos preocupamos e tivemos que agir rapidamente.” Para ele, as parcerias são essenciais tanto em tempos de crise quanto no dia a dia das organizações, já que microcrises ocorrem a todo momento, mesmo com a melhor gestão e governança. “Em Porto Alegre e no Estado todo é muito comum hospitais emprestarem insumos uns aos outros. Afinal, é o paciente que espera.”

supply chain hospital

O diretor-geral sustentou que o supply chain não é bastidor: na saúde, a cadeia de suprimentos conecta decisões administrativas a desfechos assistenciais, garantindo material certo, medicamento certo, equipamento disponível, tempo adequado, custo controlado e rastreabilidade. Apresentou o desafio financeiro de um hospital híbrido, que atende 60% pelo SUS e 40% pela saúde suplementar e pelo setor privado, e propôs a transição de uma cadeia operacional para uma cadeia estratégica: de compras reativas para planejadas, de estoque isolado para inteligência de consumo, de negociação por preço para análise de valor, de processos fragmentados para integração assistencial, financeira e logística, e de controle manual para dados, rastreabilidade e governança. Para Moraes, o futuro da saúde brasileira dependerá cada vez mais da capacidade de construir pontes — entre o público e o privado, entre assistência, ensino e pesquisa, e entre responsabilidade social e eficiência de gestão.


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Cooperação entre os players e o encerramento

Mediadora do painel, Danieli Ciotti elogiou os palestrantes e a profundidade das apresentações, conduzindo um debate que percorreu a sustentabilidade econômico-financeira das instituições e os entraves à colaboração no setor.

Danieli Ciotti

Entre os pontos discutidos, ganharam destaque as parcerias que avançam até certo ponto – como em momentos de crise -, mas que poderiam ir além se não esbarrassem em uma visão equivocada de concorrência — em um setor que, segundo os painelistas, não deveria raciocinar como os demais setores. A saúde, defenderam, precisa crescer como um sistema, em que todos avançam juntos; quem ganha é o paciente e a sociedade como um todo.

Evandro Luís Moraes citou as compras conjuntas como exemplo de iniciativa de grande potencial para ganhos de escala e redução de custos, mas que ainda esbarra na dificuldade de articulação entre as instituições — um caminho que, no entendimento do painel, precisa amadurecer para fortalecer a sustentabilidade do setor. O uso de operadores logísticos que mantêm centros de distribuição próximos aos hospitais, realidade já presente em Porto Alegre, mas que, se compartilhada entre instituições, geraria benefícios ainda maiores. O modelo permitiria liberar área física — recurso caro, medido em custo por metro quadrado — para a atividade-fim, a assistência, em vez de destiná-la à manutenção de grandes estoques dentro das estruturas dos hospitais.

O painel encerrou a programação dos Seminários de Gestão reforçando a mensagem comum às três apresentações: uma cadeia de suprimentos eficiente, integrada e orientada ao valor é condição para unir sustentabilidade econômica e segurança do paciente.

Série especial Setor Saúde

Veículo oficial do evento, o Setor Saúde publicou a cobertura completa dos Seminários de Gestão. Entre as matérias já no ar estão o painel “NR-1 Atualizada: o novo olhar sobre a saúde mental no trabalho“, com o auditor fiscal do trabalho Rudy Allan da Silva e Augusto Amaral, gestor de pessoas do Hospital Mãe de Deus e da AESC, sob mediação de José Pedro Pedrassani; a palestra de abertura de Francisco Balestrin, presidente da FESAÚDE e fundador do CBEXs; e o painel “O Olhar Feminino no Cuidado e na Gestão“, com a médica infectologista Sheila Paiva, mediado por Cleciane Doncatto Simsen. Acompanhe as publicações no portal.

FOTOS: Gabriel Berlesi (Fecomércio-RS)

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