Francisco Balestrin abre Seminários de Gestão com raio-X dos desafios do setor de saúde brasileiro
Antes da palestra, na abertura do evento, FEHOSUL e FECOMÉRCIO-RS assinaram parceria institucional inédita.
O Seminários de Gestão, realizado em 19 de junho, no Hotel Sesc Porto Alegre, começou com a formalização de uma parceria institucional entre a Federação dos Hospitais e Estabelecimentos de Saúde do Rio Grande do Sul (FEHOSUL) e o Sistema Fecomércio-RS/Sesc/Senac/IFEP. O contrato foi assinado no palco pelos presidentes das duas entidades, Cláudio José Allgayer (FEHOSUL) e Luiz Carlos Bohn (Fecomércio-RS), e selou uma aliança que une saúde, comércio, serviços e educação em torno da qualificação da gestão no estado. O deputado federal Pedro Westphalen (PP), um dos fundadores da FEHOSUL e da Confederação Nacional de Saúde (CNSaúde), foi convidado a subir ao palco e assinou o documento como testemunha. Esta matéria integra a série especial produzida pelo portal Setor Saúde, media partner do evento.
O patrocínio Ouro do evento é do Banrisul, o Bronze é Unimed Porto Alegre e o patrocinador institucional é o Grupo São Pietro Hospitais e Clínicas. O apoio é do SINDIHOSPA, Confederação Nacional de Saúde (CNSaúde), CBEXS, Colégio Brasileiro de Executivos em Saúde (CBEXs), Health Meeting Brasil/SINDIHOSPA, SEBRAE RS, Conselho Regional de Administração do RS (CRA-RS), IAHCS Acreditação, Universidade do Vale do Rio dos Sinos e eventize!. Media Partner: Setor Saúde.
Uma parceria construída ao longo de décadas
Ao apresentar o acordo, Cláudio José Allgayer recordou a trajetória de aproximação entre as duas entidades, que remonta ao período em que Luiz Carlos Bohn atuava como diretor financeiro da Fecomércio-RS, antes de assumir a vice-presidência e, depois, a presidência. “Somos parceiros. Sempre fomos parceiros. Continuaremos sendo parceiros”, afirmou o presidente da FEHOSUL, ao agradecer o apoio recebido para desenvolver as atividades do setor. Allgayer destacou que o entendimento atual é desdobramento de uma visita feita à nova sede da Fecomércio-RS cerca de três meses antes do evento. Entre os eventos que já atestam a parceria de duas décadas — ampliada agora com o Seminários de Gestão — estão os Jogos da Saúde (este ano será realizada a 19ª edição) e o Rainha da Saúde, iniciativas voltadas à saúde e ao bem-estar dos colaboradores de hospitais, clínicas e laboratórios.
Luiz Carlos Bohn retribuiu o reconhecimento e exaltou a atuação do presidente da FEHOSUL à frente do setor. “Quero cumprimentar de forma especial o presidente Cláudio Allgayer, liderança respeitada, pela sua dedicação, visão e forte atuação em defesa dos interesses dos segmentos”, declarou. O dirigente do Sistema Fecomércio-RS ressaltou o papel da FEHOSUL na promoção do diálogo, na qualificação da gestão e no fortalecimento das instituições de saúde no estado, e classificou a iniciativa como mais um passo em favor do desenvolvimento econômico, social e humano do Brasil. Bohn também enalteceu o papel de Pedro Westphalen e o classificou como um importante parceiro dos segmentos econômicos do comércio, não apenas da saúde.
Balestrin assume o palco com um diagnóstico do setor
Após a abertura, Allgayer permaneceu no palco como mediador da primeira palestra, “Saúde em Transformação: Obstáculos e Oportunidades”, conduzida por Francisco Balestrin, presidente do Conselho de Administração da FESAÚDE — Federação dos Hospitais e Estabelecimentos de Saúde do Estado de São Paulo — e do SINDHOSP, além de fundador e presidente do Colégio Brasileiro de Executivos em Saúde (CBEXs). Vice-presidente da CNSaúde, Balestrin presidiu também a Federação Internacional de Hospitais no biênio 2018-2020, para o qual foi eleito por unanimidade.
Antes de iniciar, Balestrin homenageou Pedro Westphalen, a quem definiu como deputado federal da saúde do país, citando projetos voltados à pesquisa clínica, à organização dos laboratórios e à interoperabilidade do setor. O palestrante explicou a estrutura do sistema de representatividade patronal — sindicatos, federações e confederação — e apresentou dados do SINDHOSP, considerado o maior sindicato patronal da América Latina, que reúne mais de 77 mil CNPJs, 1,05 milhão de postos formais de trabalho, 430 hospitais, 73 mil clínicas e consultórios, e movimenta cerca de R$ 81 bilhões por ano no estado de São Paulo.
Um trilhão de reais e a iniquidade do financiamento
Para situar o cenário, Balestrin relembrou os três modelos clássicos de sistemas de saúde universais: o inglês (Beveridge), financiado por impostos, com prestadores públicos complementados por privados, modelo no qual o SUS se inspirou; o alemão (Bismarck), marcado pela obrigatoriedade do seguro de saúde, com subsídios do Estado para quem não pode pagar e prestadores privados; e o canadense (seguro nacional), baseado em uma seguradora estatal financiada por impostos e/ou contribuições, também com prestadores privados. Em seguida, apresentou o tamanho do gasto brasileiro: R$ 1,08 trilhão em 2024, equivalente a 9,25% do PIB. O dado que chamou atenção foi a distribuição: os gastos públicos representaram 42,34% da despesa, enquanto os privados somaram 57,66%. “Em um país como o nosso, o setor público gasta menos que o setor privado, algo que não seria de se esperar”, observou, lembrando que na maior parte da Europa a relação é inversa.
O palestrante detalhou ainda o peso dos gastos particulares (out-of-pocket), que chegaram a R$ 317,39 bilhões — valor superior aos R$ 309,18 bilhões da saúde suplementar. “Quem sustenta o sistema de saúde brasileiro somos nós, brasileiros, pagando ou impostos, ou planos de saúde, ou tirando dinheiro direto do bolso”, resumiu. Balestrin chamou atenção também para um fenômeno em expansão: os cartões de desconto, que já alcançam cerca de 60 milhões de brasileiros — mais do que os 53 milhões de beneficiários de planos de saúde — e que, segundo ele, operam sem regulação e sem checagem de qualidade ou de desfecho assistencial.
Acesso, envelhecimento e escassez profissional
Balestrin percorreu os oito grandes desafios do setor: acesso, envelhecimento populacional, escassez profissional, desperdício, avanços tecnológicos, doenças crônicas, qualidade e acreditação, e demografia médica. Sobre o acesso, foi enfático ao diferenciá-lo do mero acolhimento: “Acesso é quando o cidadão entra no sistema, é atendido com qualidade e com resultado assistencial.” Citou que o SUS realizou 14 milhões de internações no último ano, das quais cerca de 1,6 milhão não teriam ocorrido se a atenção primária funcionasse de forma adequada — um indicativo, segundo ele, de fragmentação e descontinuidade do cuidado.
No tema do envelhecimento, o palestrante levou descontração à plateia ao projetar uma manchete de jornal de 1904 que se referia como “velhinha” a uma mulher de 42 anos. A partir dela, brincou com a percepção de velhice de outros tempos e comparou as expectativas de vida da época: no Brasil, a média girava em torno de 34 anos; nos Estados Unidos, chegava a 48; e na China era ainda menor, cerca de 32. Lembrou que a expectativa de vida no país saltou daquela média para os atuais 76 a 77 anos, impulsionada por vacinação, saneamento e avanços como os antibióticos. Hoje, a cada 21 segundos ‘nasce’ um brasileiro com mais de 50 anos, enquanto a taxa de natalidade caiu para 1,7 a 1,8 filho por mulher, abaixo do necessário para a reposição populacional. Sobre a escassez profissional, apontou o problema global de enfermagem e os índices de burnout entre os trabalhadores da saúde, ressaltando a necessidade de equilibrar a proteção das equipes com a manutenção das instituições em funcionamento.
Tripla carga de doenças e o hospital do futuro
Ao tratar das doenças crônicas, Balestrin lembrou que o Brasil é o único país do mundo a conviver com a chamada tripla carga epidemiológica: doenças infecciosas, como dengue e chikungunya, ainda relevantes na mortalidade; doenças crônicas, como cardiovasculares, diabetes e hipertensão; e as causas externas. Sobre estas, foi enfático ao dimensionar o problema — o país registra de 35 mil a 40 mil óbitos por ano em acidentes de trânsito, número que, segundo ele, supera o de muitos conflitos armados, além de 20 mil a 25 mil mortes por homicídios.
No campo da tecnologia, o palestrante projetou o que chamou de hospital do futuro: instituições que funcionarão como hubs, com pacientes cada vez mais atendidos na periferia ou na própria casa, exceto em casos específicos. Citou tendências como o “hospital em casa”, a supervisão 24 por 7 por sensores, as visitas de equipes de enfermagem especializadas e a telemedicina, sustentadas pela troca de dados entre todas as partes — daí, em sua avaliação, a centralidade do debate sobre interoperabilidade. Sobre a demografia médica, apontou que as vagas de residência não acompanham a expansão da graduação, que há desigualdade na distribuição geográfica dos profissionais e um contingente crescente de médicos jovens, mulheres e generalistas.
Desperdício e a defesa da acreditação
No tema do desperdício, o palestrante apontou que de 25% a 30% de tudo o que se gasta em saúde é perdido — o que, no caso brasileiro, equivaleria a cerca de R$ 250 bilhões — em razão de falhas de governança, ausência de protocolos, prescrições inadequadas e processos mal estruturados. Foi a partir desse ponto que defendeu a acreditação hospitalar como instrumento de qualidade, recorrendo à analogia do pão francês: enquanto o consumidor avalia preço, sabor e frescor de imediato, a qualidade de um hospital é difícil de medir a olho nu, daí a necessidade de uma certificação que ateste estrutura, processos e resultados.
Balestrin lamentou que apenas 8% dos cerca de 6.500 hospitais brasileiros sejam acreditados, contra praticamente 100% em países como Estados Unidos e França, onde a certificação é exigida para contratar com os sistemas públicos. “Se o SUS exigisse acreditação, com certeza a maior parte das instituições teriam acreditação”, afirmou, sugerindo que as autoridades sanitárias condicionem contratações à certificação — um caminho que, em sua avaliação, deveria ser iniciado ou ao menos discutido com maior ênfase.
Nesse ponto, o palestrante fez questão de reconhecer a trajetória do mediador. Allgayer presidiu a Organização Nacional de Acreditação (ONA) e participou ativamente do movimento que levou à sua fundação, em 1999, tendo liderado as iniciativas sobre o tema em Porto Alegre ainda no início da década de 1990. Balestrin destacou ainda a presença, na plateia, de Antônio Quinto Neto, autor do primeiro livro sobre acreditação hospitalar no país e responsável, no Instituto de Acreditação Hospitalar e Certificação em Saúde (IAHCS Acreditação), pela estruturação de um dos primeiros programas de qualidade e segurança do paciente do Brasil. Allgayer complementou ao informar que, como diretor médico do Instituto de Previdência do Estado do Rio Grande do Sul (IPE Saúde), Quinto Neto vem reformulando os mecanismos de categorização de hospitais e clínicas, com a inclusão da acreditação hospitalar entre os critérios de pontuação.
Os cinco inegociáveis da saúde
Balestrin apresentou a proposta dos “5 Inegociáveis da Saúde”, um conjunto de prioridades que pretende levar ao debate eleitoral deste ano. O primeiro é o paciente único: “Não tem paciente do SUS, o paciente da saúde pública, o paciente da saúde privada, ele é único”, defendeu, ao afirmar que cada pessoa deve ser tratada e olhada como indivíduo único, ponto de partida para todo o resto. O segundo são os dados, traduzidos na interoperabilidade — para ele, não se trata de prontuário, mas das informações operacionais e estratégicas de cada paciente em todas as suas passagens pelo sistema, do atendimento à vacinação, esteja ele no setor público ou no privado. O terceiro é o acesso, que precisa ser qualificado, retomando a diferença que fez entre acolher e de fato atender com resultado. O quarto é o padrão de cuidado, focado nos desfechos clínicos e na observação do paciente ao longo de toda a sua trajetória, da unidade básica ao serviço terciário; sem isso, advertiu, “a gente vai perder oportunidades”. O quinto é o combate ao desperdício, tema que havia desenvolvido ao longo da apresentação. “Ou nós vamos botar o cidadão no centro, ou esqueçam”, concluiu, defendendo que o modelo assistencial seja redesenhado antes de qualquer discussão sobre formas de remuneração.
Governança, valor e formação no debate
Encerrada a apresentação, teve início a rodada de perguntas mediada por Allgayer, na qual Balestrin aprofundou alguns dos temas. Sobre governança, defendeu o equilíbrio entre a governança corporativa, que busca eficiência e resultado, e a governança clínica, voltada à eficácia e ao desfecho assistencial. “As governanças adequadas são aquelas onde você tem um equilíbrio entre a governança corporativa e a governança clínica, fazendo com que a instituição tenha uma governança integrativa”, explicou, ressaltando que o princípio vale tanto para o setor público quanto para o privado.
Questionado sobre a migração da saúde suplementar para a remuneração baseada em valor, foi cauteloso. Afirmou não acreditar que todo o sistema caminhará nessa direção no curto prazo, embora considere o modelo desejável, e ponderou que sua adoção exige estruturas robustas, indicadores de desfecho e instrumentos como os DRGs, ainda pouco disseminados no país. Sobre o fee-for-service, ponderou: “Não tem nada de mais você ter o fee-for-service, desde que ele seja bem estruturado, bem organizado e bem gerenciado”, criticando apenas o formato atual, que estimula produção sem foco em resultado.
A qualidade da formação dos profissionais foi outro ponto sensível. Balestrin classificou como dramática a multiplicação de faculdades de medicina sem hospital universitário e a ausência de reavaliação periódica dos médicos formados, defendendo uma ação conjunta entre Ministério da Educação, Conselho Federal de Medicina e Associação Médica Brasileira. Como mediador, Allgayer conduziu o debate destacando a relevância dos múltiplos tópicos abordados e reforçando a importância da pauta da acreditação e da qualidade assistencial para os gestores presentes.
Série especial Setor Saúde
Veículo oficial do evento, o Setor Saúde segue com a cobertura do Seminários de Gestão. Já estão publicadas a matéria sobre o painel “NR-1 Atualizada: o novo olhar sobre a saúde mental no trabalho“, com o auditor fiscal do trabalho Rudy Allan da Silva, do Ministério do Trabalho e Emprego, e Augusto Amaral, gestor de pessoas do Hospital Mãe de Deus e da AESC, sob mediação de José Pedro Pedrassani, consultor jurídico da FEHOSUL; e o painel “O Olhar Feminino no Cuidado e na Gestão“, com a médica infectologista Sheila Paiva, gestora e executiva do Hospital Mater Dei Goiânia, mediado por Cleciane Doncatto Simsen, diretora da FEHOSUL e CEO do Hospital Virvi Ramos, de Caxias do Sul.
Nos próximos dias, o portal publica ainda o debate sobre aspectos regulatórios na relação entre operadoras e prestadores na saúde suplementar, com Maurício Nunes da Silva, diretor de Assuntos Regulatórios da CNSaúde, sob mediação de Daniel Giaccheri, sócio-fundador do Grupo São Pietro Hospitais e Clínicas e vice-presidente do SINDIHOSPA; e a discussão “Supply Chain na Saúde: Eficiência, Controle e Qualidade Assistencial”, com Simone Mahmud, do Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA), Luiz Henrique Lodi, do Hospital São Vicente de Paulo (HSVP), e Evandro Luís Moraes, diretor-geral do Hospital São Lucas da PUCRS, com mediação de Danieli Ciotti, do Senac Ijuí. Acompanhe as publicações no portal.