Estatísticas e Análises | 18 de agosto de 2026

Semaglutida amplia uso na hepatologia e desponta como aliada contra a dependência alcoólica

Estudos com a plataforma TriNetX apontam menos complicações hepáticas e reforçam a segurança do fármaco em doenças autoimunes do fígado.
Semaglutida amplia uso na hepatologia e desponta como aliada contra a dependência alcoólica

Amplamente utilizada no tratamento da obesidade e do diabetes tipo 2, a semaglutida vem ampliando seu campo de aplicação. Além da nova indicação aprovada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para uma doença hepática associada ao acúmulo de gordura no fígado, pesquisas recentes investigam seus efeitos sobre a dependência alcoólica e apontam segurança para pacientes com doenças hepáticas autoimunes.


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Um estudo publicado em 2025 na revista científica JAMA Psychiatry trouxe resultados promissores para o tratamento do transtorno por uso de álcool ao demonstrar que a semaglutida reduziu o desejo de beber, os episódios de consumo excessivo e a quantidade ingerida em comparação ao placebo. Os pesquisadores acreditam que esse efeito esteja relacionado à ação do medicamento em áreas do cérebro ligadas à sensação de saciedade e aos mecanismos de recompensa envolvidos nos comportamentos de dependência.


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Os achados observados nos estudos clínicos também começam a aparecer no dia a dia da assistência. Uma análise baseada na plataforma internacional TriNetX, que reúne dados anonimizados de prontuários eletrônicos de 111 organizações de saúde, acompanhou mais de 9 mil pessoas com doença hepática relacionada ao consumo alcoólico. As conclusões indicaram redução de 30% a 50% em complicações, como recaídas, episódios de hepatite alcoólica, evolução para cirrose e agravamento da doença hepática.


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Os dados também apontaram maior tempo de abstinência e menor ocorrência de intoxicação alcoólica entre os pacientes que utilizaram esses medicamentos, sugerindo um potencial benefício também na diminuição dos danos causados pelo consumo crônico de álcool ao fígado. Segundo o gastroenterologista do Hospital Moinhos de Vento Alexandre de Araújo, os resultados chamam atenção por surgirem em uma área que conta com poucas opções terapêuticas.


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“Há décadas dispomos de poucas alternativas medicamentosas para ajudar pacientes com transtorno por uso de álcool. Os estudos mostram redução da fissura e do consumo abusivo, assim como menor ocorrência de complicações hepáticas graves e progressão para cirrose. Ainda precisamos de análises maiores para confirmar esses achados, mas os números obtidos até agora são bastante consistentes e animadores”, afirma.

O avanço das pesquisas ocorre em paralelo à ampliação das indicações da semaglutida na hepatologia. Em dezembro de 2025, a Anvisa aprovou uma nova indicação do Wegovy® para o tratamento da esteato-hepatite associada à disfunção metabólica (MASH), uma forma mais grave da chamada gordura no fígado. A doença é caracterizada pelo acúmulo de gordura e inflamação no órgão e pode evoluir para fibrose, cirrose e câncer hepático. A decisão foi baseada nos resultados do estudo internacional de fase 3 ESSENCE, que demonstrou melhora da inflamação hepática e da fibrose em uma parcela significativa dos pacientes.

Segurança em pacientes com doenças autoimunes do fígado

Outra frente de investigação busca responder uma dúvida frequente entre especialistas: a segurança do uso desses medicamentos em pacientes com doenças hepáticas autoimunes, como hepatite autoimune e colangite biliar primária. Análises retrospectivas com grandes bases de dados, incluindo a plataforma internacional TriNetX, não identificaram aumento do risco de piora da doença nem de outras complicações graves entre os usuários.

Os levantamentos também apontaram redução da mortalidade, de eventos cardiovasculares e da necessidade de transplante hepático. Para o chefe do Serviço de Gastroenterologia do Hospital Moinhos de Vento, Fernando Wolff, a principal contribuição dessas pesquisas é preencher uma importante lacuna de conhecimento.

“Pacientes com hepatite autoimune e colangite biliar primária costumam ser excluídos dos grandes estudos com essas medicações. Os dados disponíveis mostram que é possível tratar obesidade e diabetes nessa população sem aumento do agravamento da doença ou de complicações graves, o que traz mais segurança para médicos e pacientes”, explica.

Novas possibilidades terapêuticas

Embora ainda sejam necessárias maiores investigações para confirmar parte dessas aplicações, esses achados sugerem que a semaglutida pode ter um papel cada vez mais amplo na medicina. O avanço é particularmente relevante do ponto de vista da saúde pública. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o consumo nocivo de álcool está associado a cerca de 2,6 milhões de mortes por ano em todo o mundo e contribui para mais de 200 doenças e agravos à saúde, incluindo cirrose e outras doenças hepáticas crônicas.

“Nos últimos anos, esses medicamentos transformaram o tratamento da obesidade. Agora começamos a enxergar possíveis impactos em doenças hepáticas e até em comportamentos relacionados à dependência. Ainda precisamos de mais estudos, mas os resultados mostram um caminho muito promissor para pacientes que hoje têm poucas alternativas terapêuticas”, conclui o Dr. Alexandre de Araújo.

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