Saúde suplementar: novo livro de Antonio Quinto Neto disseca as tensões do “ambiente híbrido” brasileiro
Em entrevista ao Setor Saúde, autor defende que o equilíbrio do sistema depende de diálogo, cooperação e confiança mútua.
Todo sistema de saúde é uma construção coletiva e histórica — e entendê-lo exige ir além das estruturas formais. É dessa premissa que parte “Sistema de Saúde Suplementar: Tensões, Dilemas e Escolhas em um Ambiente Híbrido”, novo livro de Antonio Quinto Neto, lançado pela Editora Dialética em 2026.
Médico com mais de 20 anos de prática clínica, Quinto Neto acumulou funções de gestão no setor público e no privado, liderou programas de qualidade e processos de certificação e atuou na Diretoria de Provimento de Saúde do IPE Saúde. Foi dessa convivência cotidiana com operadoras, prestadores e fornecedores que nasceram as inquietações reunidas nas 208 páginas da obra.
Em entrevista ao Setor Saúde, o autor explica por que considera o hibridismo uma condição estrutural — e não apenas a coexistência entre o Sistema Único de Saúde (SUS) e a saúde suplementar —, analisa as raízes da judicialização, trata as glosas como um problema de coordenação e governança e defende que o futuro do sistema dependerá menos da tecnologia disponível do que da qualidade das escolhas coletivas. Leia a seguir.
Setor Saúde — Para começar, o que motivou este livro e como ele se conecta com a sua trajetória no setor de saúde? Que inquietações acumuladas ao longo da sua experiência o senhor procurou organizar e enfrentar nestas páginas?
A motivação nasceu da convivência cotidiana com prestadores de serviços a partir da minha atuação na Diretoria de Provimento de Saúde do IPE Saúde. Exerci, exclusivamente, a prática médica por mais de 20 anos, assumi funções de gestão tanto no setor público quanto no setor privado. Liderei programas de qualidade e processos de certificação. Ao longo desse percurso, algumas questões passaram a me inquietar: Por que relações tão interdependentes entre fontes pagadoras, prestadores e fornecedores produzem tantos conflitos e desconfianças? Por que objetivos que, em princípio, deveriam convergir, como a qualidade do cuidado e a sustentabilidade do sistema, se opõem com tanta frequência e intensidade? E, sobretudo, o que seria necessário para construir arranjos institucionais capazes de promover maior cooperação, alinhamento de incentivos e efetividade na geração de valor para todos os envolvidos? Essas questões me inspiraram e orientaram as reflexões desenvolvidas neste livro.
Setor Saúde — O subtítulo fala em “ambiente híbrido”. Como o senhor define esse hibridismo do caso brasileiro, e por que ele é mais do que a simples coexistência entre SUS e Saúde Suplementar?
Quando utilizo a expressão “ambiente híbrido”, não me refiro simplesmente à coexistência entre o SUS e a Saúde Suplementar. Considero o hibridismo uma condição estrutural do sistema de saúde brasileiro. Manifesta-se na convivência permanente entre lógicas, racionalidades e atores distintos: hospitais atendem, simultaneamente, pacientes do SUS, de planos e particulares; médicos transitam entre diferentes vínculos; instituições filantrópicas exercem funções públicas e privadas. Torna-se difícil identificar com clareza o que fazer e o que não fazer quando o público e privado interpenetram-se continuamente e de forma muito intensa. Compreender o ambiente híbrido brasileiro significa, portanto, reconhecer que a realidade da saúde é um misto de público e privado, e isso torna a gestão e a regulação do sistema tão desafiadoras quanto fascinantes.
Setor Saúde — O livro sustenta que as questões da saúde não são apenas técnicas e econômicas, mas também institucionais, culturais e simbólicas. Pode dar um exemplo concreto em que a dimensão cultural ou simbólica pesa tanto quanto a financeira numa decisão de gestão?
Dizer que as questões da saúde não são apenas técnicas e econômicas, mas também institucionais, culturais e simbólicas significa reconhecer que os desfechos em saúde não dependem exclusivamente da ciência médica, tecnologia disponível ou do aporte financeiro. Também são influenciados pelas dinâmicas institucionais, valores culturais da sociedade e interpretações que os indivíduos conferem ao adoecimento, cuidado e serviços recebidos. É por essa razão que determinados grupos resistem à vacinação ou a tratamentos específicos, motivados por convicções religiosas, tradições locais ou ceticismo em relação às autoridades sanitárias. Essa dimensão simbólica reflete representações sociais atribuídas às patologias, profissionais, hospitais e as próprias políticas públicas. Sabe-se, no caso da reorganização da rede assistencial, que a concentração de serviços de alta complexidade em alguns centros traz ganhos expressivos de qualidade e racionalidade. Essa diretriz, contudo, frequentemente esbarra na resistência de profissionais, notadamente médicos, gestores e da própria comunidade. Isso evidencia que a gestão em saúde não opera em um ambiente puramente tecnocrático: significados e valores coletivos exercem um peso tão determinante quanto custos e indicadores de desempenho.
Setor Saúde — A judicialização crescente é sintoma de quê, na sua leitura: falha regulatória, lacuna de cobertura, descompasso entre incorporação tecnológica e financiamento, ou tudo isso somado? Há outros fatores?
A crescente judicialização da saúde é, a meu ver, a manifestação visível de múltiplos desequilíbrios sistêmicos. Atribuí-la exclusivamente a falhas regulatórias, lacunas de cobertura ou ao descompasso entre inovação tecnológica e financiamento seria reducionista. Ela, em sua essência, emerge da permanente tensão entre expectativas individuais e limitações coletivas. A medicina amplia continuamente as possibilidades diagnósticas e terapêuticas e alimenta a legítima aspiração ao acesso às melhores tecnologias disponíveis. Os recursos, contudo, permanecem finitos e impõem escolhas difíceis e inevitáveis. Há também uma dimensão institucional: os mecanismos de incorporação tecnológica e definição de cobertura não acompanham a velocidade da evolução científica. Quando os canais administrativos são percebidos como insuficientes, os indivíduos acionam o Judiciário como uma instância alternativa de acesso. Além disso, há uma dimensão cultural incontornável. A saúde encontra-se associada à vida, ao alívio do sofrimento e à dignidade humana. Decisões fundadas exclusivamente em critérios econômicos encontram resistência quando confrontadas com necessidades individuais concretas, deslocando o debate para o campo dos valores éticos e das percepções de justiça. A judicialização é um sintoma das dificuldades de harmonizar inovação, financiamento, equidade e legitimidade social. Consequentemente, revela os desafios de governar a escassez em um sistema cujas demandas crescem mais rapidamente do que a capacidade de as financiar.
Setor Saúde — As glosas e os impasses de pagamento entre operadoras e prestadores são tratados no livro como problema de coordenação. Há caminho institucional para resolvê-los, ou a tensão é estrutural ao modelo?
Glosas e impasses de pagamento entre operadoras e prestadores costumam ser entendidos como conflitos financeiros. Minha visão, porém, é outra. Representam, antes de tudo, problemas de coordenação e governança em um ambiente marcado pela interdependência entre organizações com interesses e racionalidades distintas. A tensão é, em certa medida, inerente ao modelo. Operadoras buscam controlar custos e garantir sustentabilidade; prestadores institucionais, remuneração adequada e capacidade de investimento; médicos, autonomia, melhor remuneração e reconhecimento profissional. É necessário desenvolver esforços no sentido de alinhar incentivos e, principalmente, fortalecer a confiança entre as partes. Contratos mais claros, protocolos assistenciais compartilhados, critérios transparentes de auditoria, mecanismos consensuais de resolução de controvérsias e novos modelos de remuneração auxiliam na relação entre as diversas partes envolvidas. Quanto mais desenvolvidos forem os mecanismos de governança e transparência, menor a probabilidade de que divergências legítimas se transformem em conflitos permanentes, e maior a chance de se converterem em fatores de aperfeiçoamento das relações contratuais e da própria prestação do cuidado.
Setor Saúde — O livro se propõe a contribuir para o amadurecimento do sistema assistencial brasileiro. Na sua avaliação, ele está amadurecendo ou apenas acumulando tensões não resolvidas — e o que o senhor gostaria de acrescentar para quem vai ler esta entrevista?
O sistema de saúde brasileiro amadureceu em regulação, governança, qualificação profissional e acesso. Como a evolução é lenta e não linear, poucos percebem que na atualidade as instituições, na média, estão mais estruturadas, ao mesmo tempo que se observa que existe uma compreensão mais abrangente da complexidade que caracteriza a assistência à saúde. O amadurecimento, porém, trouxe à superfície tensões antes menos visíveis. Tanto o aumento da expectativa de vida quanto a transição epidemiológica, a incorporação contínua de tecnologias, a judicialização e as dificuldades de financiamento tornaram mais evidentes os limites e as contradições do sistema. Não vejo o momento atual como uma crise de esgotamento, mas como uma etapa de lenta, e às vezes contraditória, transformação. O desafio não é escolher entre sustentabilidade, qualidade e acesso, mas instituir mecanismos institucionais capazes de equilibrá-los. O futuro do sistema não será determinado apenas pela tecnologia ou recursos disponíveis, mas pela qualidade das escolhas coletivas.
Setor Saúde — Para quem é este livro e qual o impacto que o senhor espera causar no leitor ao finalizar a leitura?
O livro dirige-se a gestores de hospitais, clínicas e operadoras, médicos e demais profissionais de saúde, formuladores de políticas, pesquisadores e estudantes, mas também a todo leitor que deseje compreender os desafios e contradições que moldam a assistência à saúde nos dias de hoje. Espero estar contribuindo para uma visão mais sistêmica do setor: que gestores de planos de saúde compreendam melhor os prestadores, prestadores entendam os desafios das operadoras, médicos concorram para a sustentabilidade do sistema e que todos reconheçam que o equilíbrio do sistema de saúde brasileiro, ainda que instável, depende, fundamentalmente, da capacidade de diálogo, cooperação e, sobretudo, confiança mútua.
SERVIÇO
“Sistema de Saúde Suplementar: Tensões, Dilemas e Escolhas em um Ambiente Híbrido”