Gestão e Qualidade | 30 de junho de 2026

Saúde suplementar: novo livro de Antonio Quinto Neto disseca as tensões do “ambiente híbrido” brasileiro

Em entrevista ao Setor Saúde, autor defende que o equilíbrio do sistema depende de diálogo, cooperação e confiança mútua.
novo livro de Antonio Quinto Neto disseca as tensões do ambiente híbrido brasileiro

Todo sistema de saúde é uma construção coletiva e histórica — e entendê-lo exige ir além das estruturas formais. É dessa premissa que parte “Sistema de Saúde Suplementar: Tensões, Dilemas e Escolhas em um Ambiente Híbrido”, novo livro de Antonio Quinto Neto, lançado pela Editora Dialética em 2026.


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Médico com mais de 20 anos de prática clínica, Quinto Neto acumulou funções de gestão no setor público e no privado, liderou programas de qualidade e processos de certificação e atuou na Diretoria de Provimento de Saúde do IPE Saúde. Foi dessa convivência cotidiana com operadoras, prestadores e fornecedores que nasceram as inquietações reunidas nas 208 páginas da obra.


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Em entrevista ao Setor Saúde, o autor explica por que considera o hibridismo uma condição estrutural — e não apenas a coexistência entre o Sistema Único de Saúde (SUS) e a saúde suplementar —, analisa as raízes da judicialização, trata as glosas como um problema de coordenação e governança e defende que o futuro do sistema dependerá menos da tecnologia disponível do que da qualidade das escolhas coletivas. Leia a seguir.


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Setor Saúde — Para começar, o que motivou este livro e como ele se conecta com a sua trajetória no setor de saúde? Que inquietações acumuladas ao longo da sua experiência o senhor procurou organizar e enfrentar nestas páginas?

A motivação nasceu da convivência cotidiana com prestadores de serviços a partir da minha atuação na Diretoria de Provimento de Saúde do IPE Saúde. Exerci, exclusivamente, a prática médica por mais de 20 anos, assumi funções de gestão tanto no setor público quanto no setor privado. Liderei programas de qualidade e processos de certificação. Ao longo desse percurso, algumas questões passaram a me inquietar: Por que relações tão interdependentes entre fontes pagadoras, prestadores e fornecedores produzem tantos conflitos e desconfianças? Por que objetivos que, em princípio, deveriam convergir, como a qualidade do cuidado e a sustentabilidade do sistema, se opõem com tanta frequência e intensidade? E, sobretudo, o que seria necessário para construir arranjos institucionais capazes de promover maior cooperação, alinhamento de incentivos e efetividade na geração de valor para todos os envolvidos? Essas questões me inspiraram e orientaram as reflexões desenvolvidas neste livro.


Setor Saúde — O subtítulo fala em “ambiente híbrido”. Como o senhor define esse hibridismo do caso brasileiro, e por que ele é mais do que a simples coexistência entre SUS e Saúde Suplementar?

Quando utilizo a expressão “ambiente híbrido”, não me refiro simplesmente à coexistência entre o SUS e a Saúde Suplementar. Considero o hibridismo uma condição estrutural do sistema de saúde brasileiro. Manifesta-se na convivência permanente entre lógicas, racionalidades e atores distintos: hospitais atendem, simultaneamente, pacientes do SUS, de planos e particulares; médicos transitam entre diferentes vínculos; instituições filantrópicas exercem funções públicas e privadas. Torna-se difícil identificar com clareza o que fazer e o que não fazer quando o público e privado interpenetram-se continuamente e de forma muito intensa. Compreender o ambiente híbrido brasileiro significa, portanto, reconhecer que a realidade da saúde é um misto de público e privado, e isso torna a gestão e a regulação do sistema tão desafiadoras quanto fascinantes.


Setor Saúde — O livro sustenta que as questões da saúde não são apenas técnicas e econômicas, mas também institucionais, culturais e simbólicas. Pode dar um exemplo concreto em que a dimensão cultural ou simbólica pesa tanto quanto a financeira numa decisão de gestão?

Dizer que as questões da saúde não são apenas técnicas e econômicas, mas também institucionais, culturais e simbólicas significa reconhecer que os desfechos em saúde não dependem exclusivamente da ciência médica, tecnologia disponível ou do aporte financeiro. Também são influenciados pelas dinâmicas institucionais, valores culturais da sociedade e interpretações que os indivíduos conferem ao adoecimento, cuidado e serviços recebidos. É por essa razão que determinados grupos resistem à vacinação ou a tratamentos específicos, motivados por convicções religiosas, tradições locais ou ceticismo em relação às autoridades sanitárias. Essa dimensão simbólica reflete representações sociais atribuídas às patologias, profissionais, hospitais e as próprias políticas públicas. Sabe-se, no caso da reorganização da rede assistencial, que a concentração de serviços de alta complexidade em alguns centros traz ganhos expressivos de qualidade e racionalidade. Essa diretriz, contudo, frequentemente esbarra na resistência de profissionais, notadamente médicos, gestores e da própria comunidade. Isso evidencia que a gestão em saúde não opera em um ambiente puramente tecnocrático: significados e valores coletivos exercem um peso tão determinante quanto custos e indicadores de desempenho.


Setor Saúde — A judicialização crescente é sintoma de quê, na sua leitura: falha regulatória, lacuna de cobertura, descompasso entre incorporação tecnológica e financiamento, ou tudo isso somado? Há outros fatores?

A crescente judicialização da saúde é, a meu ver, a manifestação visível de múltiplos desequilíbrios sistêmicos. Atribuí-la exclusivamente a falhas regulatórias, lacunas de cobertura ou ao descompasso entre inovação tecnológica e financiamento seria reducionista. Ela, em sua essência, emerge da permanente tensão entre expectativas individuais e limitações coletivas. A medicina amplia continuamente as possibilidades diagnósticas e terapêuticas e alimenta a legítima aspiração ao acesso às melhores tecnologias disponíveis. Os recursos, contudo, permanecem finitos e impõem escolhas difíceis e inevitáveis. Há também uma dimensão institucional: os mecanismos de incorporação tecnológica e definição de cobertura não acompanham a velocidade da evolução científica. Quando os canais administrativos são percebidos como insuficientes, os indivíduos acionam o Judiciário como uma instância alternativa de acesso. Além disso, há uma dimensão cultural incontornável. A saúde encontra-se associada à vida, ao alívio do sofrimento e à dignidade humana. Decisões fundadas exclusivamente em critérios econômicos encontram resistência quando confrontadas com necessidades individuais concretas, deslocando o debate para o campo dos valores éticos e das percepções de justiça. A judicialização é um sintoma das dificuldades de harmonizar inovação, financiamento, equidade e legitimidade social. Consequentemente, revela os desafios de governar a escassez em um sistema cujas demandas crescem mais rapidamente do que a capacidade de as financiar.


Setor Saúde — As glosas e os impasses de pagamento entre operadoras e prestadores são tratados no livro como problema de coordenação. Há caminho institucional para resolvê-los, ou a tensão é estrutural ao modelo?

Glosas e impasses de pagamento entre operadoras e prestadores costumam ser entendidos como conflitos financeiros. Minha visão, porém, é outra. Representam, antes de tudo, problemas de coordenação e governança em um ambiente marcado pela interdependência entre organizações com interesses e racionalidades distintas. A tensão é, em certa medida, inerente ao modelo. Operadoras buscam controlar custos e garantir sustentabilidade; prestadores institucionais, remuneração adequada e capacidade de investimento; médicos, autonomia, melhor remuneração e reconhecimento profissional. É necessário desenvolver esforços no sentido de alinhar incentivos e, principalmente, fortalecer a confiança entre as partes. Contratos mais claros, protocolos assistenciais compartilhados, critérios transparentes de auditoria, mecanismos consensuais de resolução de controvérsias e novos modelos de remuneração auxiliam na relação entre as diversas partes envolvidas. Quanto mais desenvolvidos forem os mecanismos de governança e transparência, menor a probabilidade de que divergências legítimas se transformem em conflitos permanentes, e maior a chance de se converterem em fatores de aperfeiçoamento das relações contratuais e da própria prestação do cuidado.


Setor Saúde — O livro se propõe a contribuir para o amadurecimento do sistema assistencial brasileiro. Na sua avaliação, ele está amadurecendo ou apenas acumulando tensões não resolvidas — e o que o senhor gostaria de acrescentar para quem vai ler esta entrevista?

O sistema de saúde brasileiro amadureceu em regulação, governança, qualificação profissional e acesso. Como a evolução é lenta e não linear, poucos percebem que na atualidade as instituições, na média, estão mais estruturadas, ao mesmo tempo que se observa que existe uma compreensão mais abrangente da complexidade que caracteriza a assistência à saúde. O amadurecimento, porém, trouxe à superfície tensões antes menos visíveis. Tanto o aumento da expectativa de vida quanto a transição epidemiológica, a incorporação contínua de tecnologias, a judicialização e as dificuldades de financiamento tornaram mais evidentes os limites e as contradições do sistema. Não vejo o momento atual como uma crise de esgotamento, mas como uma etapa de lenta, e às vezes contraditória, transformação. O desafio não é escolher entre sustentabilidade, qualidade e acesso, mas instituir mecanismos institucionais capazes de equilibrá-los. O futuro do sistema não será determinado apenas pela tecnologia ou recursos disponíveis, mas pela qualidade das escolhas coletivas.


Setor Saúde — Para quem é este livro e qual o impacto que o senhor espera causar no leitor ao finalizar a leitura?

O livro dirige-se a gestores de hospitais, clínicas e operadoras, médicos e demais profissionais de saúde, formuladores de políticas, pesquisadores e estudantes, mas também a todo leitor que deseje compreender os desafios e contradições que moldam a assistência à saúde nos dias de hoje. Espero estar contribuindo para uma visão mais sistêmica do setor: que gestores de planos de saúde compreendam melhor os prestadores, prestadores entendam os desafios das operadoras, médicos concorram para a sustentabilidade do sistema e que todos reconheçam que o equilíbrio do sistema de saúde brasileiro, ainda que instável, depende, fundamentalmente, da capacidade de diálogo, cooperação e, sobretudo, confiança mútua.

SERVIÇO

“Sistema de Saúde Suplementar: Tensões, Dilemas e Escolhas em um Ambiente Híbrido”


Autor: Antonio Quinto Neto


Editora Dialética — 2026 — 208 páginas — Capa flexível


ISBN: 9786528803118


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