Gigante chinesa de US$ 3 bilhões entra no mercado oftalmológico brasileiro
Quem é a Aier, apontada como a maior rede de oftalmologia do mundo, que iniciou processo para assumir o controle da Opty em operação de R$ 530 milhões.
Uma das maiores empresas de saúde do planeta na sua especialidade desembarcou no Brasil sem que a maior parte do mercado reconheça o seu nome. A chinesa Aier Eye Hospital Group — apontada pela imprensa setorial e pela própria empresa como a maior rede de oftalmologia do mundo — fechou a compra do controle da Opty, descrita pela companhia como a maior plataforma de oftalmologia da América Latina, em uma operação de R$ 530 milhões anunciada em 11 de junho. O negócio marca a entrada de um grupo global no mercado oftalmológico brasileiro e transforma o Pátria Investimentos, criador da rede em 2016, em sócio minoritário.
A transação mudou de natureza entre o vazamento e o anúncio oficial. As primeiras informações, reveladas pelo Brazil Journal no início de junho, davam conta de uma fatia minoritária: cerca de US$ 120 milhões por 35% da empresa, com o Pátria mantendo o controle. O acordo formalizado foi mais profundo. A Aier passa a ser a acionista controladora, e o Fundo V de private equity do Pátria fica como sócio minoritário, com opção de saída prevista para 2029.
Os recursos não vão apenas para expansão. Segundo as empresas, o aporte será direcionado ao fortalecimento da estrutura de capital, à redução do endividamento e ao financiamento dos planos de crescimento da Opty. A ênfase em desalavancagem sinaliza que a estratégia de aquisições em série deixou a companhia com dívida relevante — e que parte do cheque chinês servirá para sanear o balanço antes de acelerar.
A conclusão do negócio ainda depende do cumprimento de condições precedentes e da aprovação dos órgãos reguladores. Por se tratar de troca de controle envolvendo capital chinês em um setor sensível, a análise do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (CADE) será o ponto a acompanhar nos próximos meses.
Quem é a compradora
Fundada em 2001, listada na bolsa de Shenzhen desde 2009 e com braços abertos em Madri e Singapura, a Aier fechou 2025 com cerca de US$ 3 bilhões de receita — 22,3 bilhões de yuans, alta de 6,53% no ano. O lucro líquido atribuível, porém, caiu 8,88%, para 3,24 bilhões de yuans, pressionado pela depreciação dos muitos hospitais novos que entraram em operação. A rede chegou ao fim do ano com 842 instituições oftalmológicas em três continentes, sendo 663 na China e 179 no exterior, na Europa, no Sudeste Asiático e nos Estados Unidos. Em volume, foram 18,89 milhões de consultas e mais de 1,68 milhão de cirurgias em 2025, números que, segundo a publicação setorial VCBeat e a própria empresa, colocam o grupo em primeiro lugar global em consultas, cirurgias, receita e valor de mercado.
A expansão internacional começou em 2017, com a compra da Clínica Baviera, na Espanha, hoje a maior rede do país e modelo de referência do grupo. Reino Unido e Estados Unidos vieram na sequência. Em 24 de abril de 2026, a Aier anunciou um IPO em Hong Kong para financiar essa globalização. Para Chen Bang, presidente do conselho de administração da Aier Eye Hospital Group, a operação no Brasil vai além do aspecto societário. “Este é o ponto de partida e o objetivo final da nossa cooperação”, afirmou o executivo, ao citar a convergência de valores entre as duas organizações. Do lado vendedor, Luis Felipe Cruz, sócio responsável pela área de private equity do Pátria Investimentos, avaliou que a entrada da Aier reforça a qualidade do ativo construído e cria condições para acelerar o desenvolvimento da companhia.
Quem domina o mercado oftalmológico brasileiro
A oftalmologia se tornou uma das fronteiras mais ativas de fusões e aquisições na saúde brasileira, depois de laboratórios e operadoras. O movimento é puxado por plataformas patrocinadas por fundos, que consolidam clínicas e hospitais independentes em modelo de roll-up — preservando marcas locais e mantendo médicos fundadores como sócios.
A Opty, em processo de passagem de controle para a Aier (ainda pendente de aprovação do CADE), reúne 81 centros especializados em oito estados, com mais de 880 médicos e cerca de 2.700 colaboradores, e faturamento próximo de R$ 1,2 bilhão em 2025, crescendo perto de 15% ao ano. Desde 2016, foram cerca de 15 aquisições sob diferentes marcas regionais.
Seu principal concorrente é a Vision One, plataforma controlada pelo fundo de private equity da XP. Nascida em 2020 da combinação do hospital CBV, de Brasília, com o Grupo H.Olhos, de São Paulo, a rede informa operar mais de 60 unidades em 13 estados e segue executando aquisições em diversas praças. O CEO Rafael Mendes tem associado o crescimento à profissionalização da gestão hospitalar, à acreditação de qualidade e ao protagonismo do médico no negócio, com a perspectiva de uma futura abertura de capital.
Um terceiro polo é o Grupo Fleury, companhia de capital aberto que entrou na especialidade com a aquisição da tradicional Clínica de Olhos Dr. Moacir Cunha, em São Paulo, integrando a saúde ocular ao seu portfólio de diagnósticos. Em paralelo, healthtechs como a Eyecare apostam na consolidação digital, conectando clínicas de pequeno e médio porte fora dos grandes grupos. Mesmo com o avanço, os dois maiores players somados ainda detêm fatia minoritária do mercado — o que mantém um amplo espaço para novas aquisições.
A demanda que sustenta a tese: o mapa das doenças oculares
O apetite dos investidores tem lastro epidemiológico. O Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO), no estudo “As Condições da Saúde Ocular no Brasil”, estima que a cegueira atinja mais de 1,5 milhão de brasileiros, enquanto o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) aponta cerca de 6,6 milhões de pessoas com algum grau de deficiência visual. O dado mais relevante para o setor é outro: o CBO calcula que aproximadamente 75% dos casos de cegueira no país teriam prevenção ou cura, o que indica uma demanda reprimida expressiva por diagnóstico e cirurgia.
As quatro doenças que concentram a perda de visão são a catarata, o glaucoma, a retinopatia diabética e a degeneração macular relacionada à idade (DMRI). A catarata é a principal causa de cegueira evitável e tem na cirurgia — alta em volume e padronizável — o procedimento que sustenta boa parte da rentabilidade das redes. O glaucoma é a segunda causa de cegueira e a principal causa de perda visual irreversível no mundo, segundo o Ministério da Saúde, o que reforça o peso do diagnóstico precoce.
A retinopatia diabética é o elo mais direto com a transição demográfica e o avanço do diabetes. Conforme o CBO, cerca de metade dos pacientes diabéticos desenvolve algum grau da doença ao longo da vida, e o risco de cegueira nesse grupo é muito superior ao da população geral. Somada ao envelhecimento — que eleva catarata, glaucoma e DMRI —, essa curva sustenta a previsão de uma demanda estrutural crescente, tanto na saúde suplementar quanto no mercado particular.
O que esperar
A consolidação deve continuar, porém mais seletiva, concentrada em ativos com forte pipeline cirúrgico, boa penetração em convênios e centros cirúrgicos próprios. O principal contrapeso é o custo de capital, com a taxa Selic elevada, ao lado dos limites de reajuste impostos pela Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) e do desafio de integrar operações em múltiplas praças. Para o gestor de saúde, o recado é claro: a oftalmologia deixou de ser um mosaico de clínicas independentes para se tornar um tabuleiro de plataformas profissionalizadas e, agora, internacionalizadas — com a aprovação do CADE como próximo marco a observar.