Oncoclínicas amplia prejuízo para R$ 475 milhões, mas ação dispara 30% com reversão do caixa
Em recuperação extrajudicial e sob alerta de continuidade da PwC, rede de oncologia vê mercado apostar na geração de caixa enquanto analistas mantêm cautela.
A Oncoclínicas – grupo Oncoclínicas&Co (ONCO3) -, rede nacional de oncologia com 136 unidades em 47 cidades, fechou o segundo trimestre de 2026 com prejuízo consolidado de R$ 475,7 milhões — mais de três vezes a perda de R$ 142,3 milhões de um ano antes — e uma receita líquida de R$ 1,047 bilhão, queda de 28,5%. Ainda assim, no primeiro pregão após o balanço, divulgado na sexta-feira (14), a ação disparou: os papéis chegaram a subir quase 20% na abertura, entraram em leilão por oscilação máxima na B3 e fecharam a segunda-feira (17) em alta de 29,87%, a R$ 1,00. No ano, a ONCO3 ainda acumula queda superior a 60%.
O aparente paradoxo — prejuízo maior, ação em alta — tem uma explicação que está no centro da leitura do mercado e que vai além das linhas finais do balanço: a geração de caixa.
O que animou o mercado
O fluxo de caixa operacional gerencial reverteu de um consumo de R$ 153,1 milhões no primeiro trimestre para uma geração positiva de R$ 158,4 milhões no segundo — uma variação de cerca de R$ 311 milhões entre os dois períodos. Foi esse movimento, e não o resultado contábil, que sustentou a valorização. Segundo a companhia e a leitura de analistas, a melhora decorreu principalmente da renegociação dos prazos de pagamento com o principal fornecedor de medicamentos e da normalização dos recebíveis após antecipações feitas em trimestres anteriores.
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O EBITDA ajustado — o lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização, expurgado de itens não recorrentes e das operações hospitalares — ficou positivo em R$ 34,3 milhões, com margem de 3,3%. A companhia destaca a melhora sequencial de R$ 83,5 milhões (alta de 169,7% sobre o 1T26) e afirma que, normalizada a PCLD — a provisão para perda de crédito esperada e glosas, valor reservado para recebíveis de difícil recuperação —, a margem teria sido de 9,5%.
Receita cai com desabastecimento de medicamentos
A queda de 28,5% na receita líquida tem três causas combinadas, segundo a Oncoclínicas: o desabastecimento de medicamentos nas clínicas, iniciado em março; o aumento da PCLD por ajustes contábeis; e a manutenção de uma política comercial mais seletiva. O impacto no volume foi expressivo: os procedimentos caíram 32,6% na comparação anual, de 169,1 mil para cerca de 114 mil — 55,1 mil atendimentos a menos. O ticket médio, na contramão, subiu 9,5%.
Para não interromper o tratamento dos pacientes, a companhia estruturou no trimestre uma operação de aquisição de medicamentos de até R$ 150 milhões com o fundo LCM Osíris, gerido pela Lumina Capital Management, garantindo o fornecimento pela OncoProd, sua principal distribuidora. A operação usa recebíveis de contratos com operadoras como garantia. O lucro bruto caiu 47,9%, para R$ 229,3 milhões, com margem recuando de 30,1% para 21,9%.
Recuperação extrajudicial de R$ 5,1 bilhões e alerta da auditoria
O trimestre é lido à luz da recuperação extrajudicial — instrumento que permite renegociar dívidas com credores sem passar por uma recuperação judicial completa. O pedido foi protocolado em 13 de julho e abrange aproximadamente R$ 5,1 bilhões em dívidas financeiras quirografárias e créditos intercompany. Em 4 de agosto, a 3ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais de São Paulo deferiu o processamento, com suspensão por 180 dias de ações e execuções (o stay period) e liminar barrando, por 90 dias, cláusulas de vencimento antecipado motivadas pelo pedido.
No relatório de revisão, a auditoria independente da PwC registrou incerteza relevante que pode levantar dúvida significativa sobre a continuidade operacional da companhia. O balanço dá a dimensão da pressão: o patrimônio líquido consolidado caiu de R$ 1,062 bilhão, em dezembro de 2025, para R$ 98,2 milhões em junho de 2026; a dívida líquida — endividamento total menos caixa e aplicações — somou R$ 3,557 bilhões, ante uma posição de caixa e títulos de apenas R$ 129 milhões.
“A decisão de protocolar a Recuperação Extrajudicial foi tomada após uma avaliação criteriosa das alternativas disponíveis”, afirmou Carlos Gil Ferreira, CEO da Oncoclínicas, em comunicado, ao classificá-la como “o caminho mais adequado para reorganizar nossa estrutura financeira de forma ordenada e responsável”. O oncologista assumiu o comando executivo, de forma interina, em março, após a saída do fundador Bruno Ferrari — hoje no conselho — em meio à reestruturação.
Um ponto sensível para o setor: a Justiça determinou que as operadoras de planos de saúde se abstenham de descredenciamento, rescisão, suspensão de atendimentos e retenção de pagamentos com base na recuperação. No caso da Porto Saúde, a liminar foi deferida em parte — impede a rescisão fundada no pedido, mas não afasta a rescisão que a operadora alega ter feito em maio por descumprimento de SLA, tema remetido à arbitragem. O descumprimento de SLA (Acordo de Nível de Serviço) na saúde suplementar envolve o não atendimento aos prazos máximos de atendimento, autorização de procedimentos ou entrega de serviços estabelecidos pela Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) ou contratados entre operadoras e prestadores.
O que o mercado enxerga adiante
A reação positiva da ação não silenciou a cautela do sell-side. Para o JPMorgan, o resultado veio abaixo do esperado — o EBITDA ajustado ficou próximo de zero, contra uma projeção de R$ 212 milhões —, e o banco manteve recomendação equivalente à venda, avaliando que as dificuldades para financiar a compra de medicamentos devem seguir pressionando os volumes e a participação de mercado diante de concorrentes mais capitalizados. O BTG Pactual descreveu mais um trimestre fraco, com nova deterioração operacional, e classifica a Oncoclínicas como um caso de investimento desafiador, diante da alavancagem — a relação entre dívida líquida e geração de caixa — e dos riscos de execução.
O contraste com o restante do setor reforça o desafio. Enquanto a Oncoclínicas encolhe, concorrentes como Rede D’Or (RDOR3) e Mater Dei (MATD3) registraram avanço no segmento de oncologia. Um levantamento do BTG Pactual estima que a Oncoclínicas emprega cerca de 18% dos oncologistas do país — vantagem competitiva que pode se erodir com a migração de médicos para rivais, movimento já observado em São Paulo, Minas Gerais e Bahia. Para homologar o plano de recuperação, a companhia precisa reunir mais da metade dos créditos de cada classe até 11 de outubro. O desfecho, reconhece a própria empresa, não depende integralmente dela.
* Nota metodológica: a dívida líquida de R$ 3,557 bilhões segue o critério das Informações Trimestrais (ITR) auditadas, que consideram o endividamento total (empréstimos, financiamentos e debêntures) descontado do caixa e das aplicações financeiras. A apresentação de resultados da companhia reporta R$ 3,404 bilhões ao adotar um recorte de dívida líquida financeira acrescida de aquisições a pagar. A diferença é de perímetro contábil, não de divergência entre os documentos; o Setor Saúde optou pelo número das demonstrações financeiras revisadas.
FONTES: Oncoclínicas– Divulgação Resultados; InfoMoney (alta da ação, JPMorgan e BTG); Seu Dinheiro (reação e fluxo de caixa): Moon BH (fluxo de caixa e procedimentos); Money Times (prejuízo +234% e ajustes); InvestNews(governança e 18% dos oncologistas); Mercado&Consumo / Estadão Conteúdo — Luísa Laval (deferimento da RE): Exame(pedido de RE de R$ 5,1 bi). Edição SS.