O fenômeno das Bets: a epidemia silenciosa que ameaça famílias, empresas e a saúde social do Brasil
Em artigo, Evandro Moraes (Diretor-Geral do Hospital São Lucas da PUCRS) analisa o impactos das apostas online, quando o entretenimento se transforma em pesadelo e problema de saúde pública
Nos últimos anos, as apostas esportivas passaram a fazer parte da rotina dos brasileiros. Estão nos intervalos dos jogos, nos uniformes dos clubes, nas redes sociais, nos aplicativos de celular e nas conversas do dia a dia. O que para muitos começou como uma forma de entretenimento, acabou se transformando em um fenômeno social de grandes proporções.
Os números impressionam. Bilhões de reais são movimentados todos os meses pelas plataformas de apostas e estima-se que R$ 35 bilhões tenham sido efetivamente perdidos pelos brasileiros apenas em 2025. Mas, para além das cifras, existe uma conta muito mais preocupante que ainda não aparece nos balanços econômicos: a conta social, familiar e humana desse fenômeno.
Como gestor da área da saúde, tenho acompanhado com atenção os efeitos silenciosos que começam a surgir em diferentes ambientes da sociedade. Eles aparecem nas famílias que enfrentam dificuldades financeiras inesperadas, nos relacionamentos abalados pela perda de confiança, nos trabalhadores que chegam ao limite emocional e nas empresas que observam o crescimento do absenteísmo, da queda de produtividade e da rotatividade de profissionais.
A lógica das apostas é simples. A promessa de ganho rápido cria a sensação de que sempre existe uma oportunidade de recuperar perdas ou conquistar uma renda extra. O problema é que a matemática do jogo não foi construída para favorecer quem aposta. Foi construída para garantir a sustentabilidade do negócio. Quanto mais tempo o indivíduo permanece jogando, maior a probabilidade de perder.
Quando esse comportamento deixa de ser eventual e passa a fazer parte da rotina, o impacto financeiro se torna inevitável. Recursos que deveriam ser destinados à alimentação, educação dos filhos, moradia, saúde ou formação de patrimônio acabam sendo consumidos por uma sequência interminável de apostas. Em muitos casos, o endividamento chega antes mesmo da percepção de que existe um problema.
O reflexo no ambiente de trabalho também merece atenção. Um colaborador que enfrenta dificuldades financeiras severas geralmente leva essa preocupação para dentro da organização. A ansiedade aumenta, a concentração diminui, a produtividade cai. Em situações mais graves, surgem faltas frequentes, afastamentos por questões de saúde mental e até desligamentos decorrentes da perda de desempenho ou da necessidade de buscar alternativas para compensar prejuízos financeiros.
Não estamos falando apenas de dinheiro. Estamos falando literalmente de saúde mental. A compulsão por jogos compartilha características semelhantes a outras dependências comportamentais já amplamente estudadas. O ciclo de expectativa, recompensa e frustração produz desgaste emocional, sensação de perda de controle e sofrimento crescente. Muitas vezes, o indivíduo tenta resolver o problema apostando ainda mais, aprofundando um círculo vicioso difícil de interromper.
É importante reconhecer que a legalidade de uma atividade não elimina seus riscos. O Brasil já aprendeu essa lição em outras áreas. Quando um comportamento passa a produzir impactos coletivos relevantes, a sociedade precisa discutir mecanismos de proteção. Isso vale para o trânsito, para o álcool, para o tabaco e também para as apostas.
A solução não passa pela demonização nem pela proibição sumária e simplista. Passa sim pela responsabilidade. Responsabilidade das empresas do setor, dos órgãos reguladores, dos meios de comunicação, dos influenciadores, das instituições de ensino, dos empregadores e de cada cidadão. Precisamos ampliar a educação financeira, fortalecer ações de prevenção, criar mecanismos efetivos de proteção aos usuários vulneráveis e, sobretudo, tratar a dependência em apostas como uma questão legítima de saúde.
Ainda há tempo para agir. Mas o primeiro passo é reconhecer que estamos diante de algo maior do que um novo mercado ou uma nova modalidade de entretenimento. Estamos diante de um fenômeno capaz de impactar a economia doméstica, a saúde mental, as relações familiares e a produtividade do país.
Toda sociedade paga pelas escolhas que faz. A pergunta que precisamos responder é simples: queremos esperar que essa conta se torne insustentável ou teremos coragem de enfrentá-la enquanto ainda é possível construir soluções?
Porque, no final das contas, a maior aposta que estamos fazendo hoje não está nas plataformas digitais. Está na nossa capacidade de proteger pessoas antes que elas se tornem estatísticas.
Por Evandro Luís Moraes, Diretor-Geral do Hospital São Lucas da PUCRS. Administrador com passagem de 11 anos pela superintendência administrativa do Hospital Moinhos de Vento, tem formação executiva pela Harvard Business School em Saúde Baseada em Valor, além de MBAs pela Fundação Getúlio Vargas — em Inteligência em Negócios, em Supply Chain Management e em Gestão Executiva Internacional — e MBA Internacional pela University of California em Gerenciamento de Negócios.