Estatísticas e Análises | 24 de março de 2021

Estudo identifica predominância da variante P.1 do SARS-CoV-2 a partir fevereiro de 2021 no RS

"A variante, muito possivelmente, está associada com o aumento de casos” diz pesquisador Afonso Luís Barth
Estudo identifica predominância da variante P.1 do SARS-CoV-2 a partir fevereiro de 2021

Um estudo realizado por nove pesquisadores no Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA) encontrou a prevalência da variante P.1 do SARS-CoV-2 (vírus que causa a Covid-19) a partir de fevereiro em pacientes internados. Em 2021, foram analisadas 42 amostras (15 em janeiro e 27 em fevereiro). Das amostras analisadas em janeiro, apenas uma era da variante P.1 (também conhecida como variante de Manaus). Em fevereiro, 24 das 27 amostras eram da P.1. O estudo não identificou a variante em 2020 – das 26 amostras analisadas no ano passado, nenhuma era da P.1.

O professor e pesquisador do HCPA, Afonso Luís Barth, um dos autores do estudo, comentou sobre o estudo. “Os dados são indicativos de que a variante P.1 não circulava entre os pacientes e funcionários do HCPA em 2020 sendo que essa variante foi encontrada com maior prevalência, na população estudada, em fevereiro de 2021”, diz.

O aumento de casos da variante P.1 nos sequenciamentos realizados no HCPA estaria relacionado ao aumento de casos de Covid-19, explica o pesquisador. “O que podemos falar sobre o nosso trabalho é que, tendo achado a alta prevalência nessa população pesquisada, podemos sugerir uma associação com o aumento exponencial do aumento de casos que ocorreu a partir de fevereiro de 2021 no HCPA e em Porto Alegre como um todo. Provavelmente o aumento não se dá somente por esse aspecto, mas a variante, muito possivelmente, está associada com o aumento de casos”, pontua.

Afonso Luís Barth

Pesquisa direcionada

Barth ressaltou que a pesquisa foi direcionada, ou seja, foram analisados um determinado grupo de pacientes infectados (mais jovens e com carga viral mais alta). Com isso, o pesquisador aponta que não é possível concluir que a variante seja predominante entre todos os internados e funcionários.

“Nós não nos propusemos a analisar uma amostra aleatória. Como tínhamos a intenção de identificar a  variante P.1, nós direcionamos a característica dos pacientes para encontrar essa variante. Por isso, selecionamos pacientes mais novos, com idade de 40 anos ou menos e com carga viral mais alta, sendo assim uma população direcionada”, explica.

O pesquisador explica que o direcionamento da pesquisa também pode ser analisado pelo total de amostras. “Em janeiro, tivemos 307 amostras positivas e, em fevereiro, 337. Estamos falando de quase 650 amostras e, destas, analisamos apenas 42, que foram direcionadas para identificarmos a variante P.1”, aponta.

Barth salienta que é importante seguir fazendo estudos de sequenciamento de todo o genoma do SARS-CoV-2 para avaliar prospectivamente as amostras positivas e, assim, analisar se essa variante vai realmente se tornar a mais prevalente, ou se surgirão novas variantes.

“Realmente, é necessário que se dê continuidade a esse tipo de estudo. É um estudo que requer verba e  pessoas especializadas para ser realizado”, afirma.

O estudo de sequenciamento do genoma é realizado desde 2020 no HCPA, graças ao financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio Grande do Sul (Fapergs).  “A Fapergs é um dos principais órgãos de fomento à pesquisa no nosso estado. Em abril de 2020, a Fapergs abriu um edital para que projetos relacionados à Covid-19 fossem apresentados, e a Fapergs escolheria projetos para financiar as pesquisas. Nós submetemos esse projeto de pesquisa, de diagnóstico laboratorial do SARS-CoV-2, com o desenvolvimento de técnicas, detecção e sequenciamento do vírus. Fomos contemplados e recebemos uma verba bem significativa e, com isso, conseguimos desenvolver esse estudo de sequenciamento. É um estudo complexo, tem um custo alto, pois precisa de pessoas especializadas, equipamentos sofisticados, como o sequenciador de  genoma. O estudo foi possível graças à verba da Fapergs e pela estrutura física do Hospital de Clínicas de Porto Alegre”, enfatiza.

Professor enfatiza a importância da vacinação e das medidas de proteção

Barth salienta a importância da ampla vacinação como medida importante contra o surgimento de novas variantes. “A vacinação é muito importante, porque por mais que a P.1 possa não responder a uma vacina, é preciso compreendermos que o vírus sofre mutações quando se multiplica. Então, quanto mais evitamos a transmissão do vírus e, consequentemente, a multiplicação dele, mais provavelmente ele não sofrerá mutações”, disse.

Para o pesquisador, caso tivesse sido possível que o Brasil imunizasse boa parte da população no final do ano passado, é possível que essa variante não tivesse surgido.

Ele finaliza ressaltando as duas principais armas contra a Covid-19: a vacinação e as medidas individuais de prevenção. “A vacinação é muito importante, além das medidas de proteção, como uso de máscara, álcool em gel, e o distanciamento social. Quem puder,  fique em casa, para diminuirmos a circulação do vírus”, enfatiza.

O estudo de sequenciamento do SARS-CoV-2 contou, além do Prof Barth, com a seguinte equipe de pesquisadores: Andreza F. Martins, Alexandre P. Zavascki, Priscila L. Wink, Fabiana Caroline Z. Volpato, Francielle Liz Monteiro, Clévia Rosset, Fernanda De-Paris e Álvaro K. Ramos.

A publicação do estudo na íntegra pode ser conferido neste link.


Predominância da variante P.1

Recentemente, o Setor Saúde entrevistou a biomédica Mellanie Fontes-Dutra, que fez um panorama geral da variante P.1. Confira:

Especialista analisa o momento atual da pandemia e o aumento da presença da variante P.1



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