Bradsaúde lucra R$ 1,1 bilhão no 2T26 e amplia base para 13,6 milhões de beneficiários
Sob os números de crescimento, a sinistralidade sobe a 83,8% e recoloca a pressão de custos no centro da operação de saúde.
A Bradsaúde — grupo que reúne Bradesco Saúde, Odontoprev, Atlântica Hospitais e demais ativos de saúde do Bradesco — reportou lucro líquido de R$ 1,1 bilhão no segundo trimestre de 2026 (2T26), alta de 25% na comparação anual, e receita de R$ 13,9 bilhões (+11%). Por trás dos números de crescimento, porém, o dado que mais interessa ao gestor de saúde aponta na direção oposta: a sinistralidade consolidada — proporção entre despesas assistenciais e prêmios ganhos — subiu para 83,8%, avanço de 1,7 ponto percentual sobre o mesmo período de 2025. É a pressão de custos, e não a expansão da receita, que define o trimestre.
Sinistralidade e a qualidade do lucro
O crescimento do resultado veio sustentado principalmente pelo resultado financeiro, que somou R$ 930 milhões (+28%), e pela equivalência patrimonial, nem tanto pelo ganho de eficiência assistencial. A leitura importa para quem administra uma operadora: o lucro subiu apesar da operação de saúde, não por causa dela. No acumulado de doze meses, a sinistralidade apresenta melhora de 1,0 ponto percentual, e no semestre manteve-se estável, em torno de 81% — recortes que a companhia usa para relativizar a piora pontual do trimestre.
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Para o presidente da Bradsaúde, Carlos Marinelli, a oscilação de um único trimestre não deve ser projetada para a frente. “Não dá para simplesmente assumir que a variação de um trimestre vai se repetir pelos próximos 12 meses. A saúde tem um consumo sazonal e é por isso que sempre analisamos os últimos 12 meses”, afirmou o executivo em conversa com jornalistas.
A pressão, contudo, não é isolada. As solicitações de reembolso nos planos de saúde do grupo cresceram 13,5% na comparação anual, ritmo superior ao avanço dos prêmios — sintoma de uma dinâmica de custos que atinge todo o setor. No pano de fundo está a inflação médica: medida pelo VCMH (Variação de Custos Médico-Hospitalares), ela atingiu 8,7% em 2025, contra um IPCA de 5,6% no mesmo período, segundo o Instituto de Estudos de Saúde Suplementar.
Disciplina de subscrição: crescer pelo preço, não pelo volume
A resposta da companhia à pressão de custos é comercial. Marinelli afirma que a expansão da carteira passou a priorizar rentabilidade em vez de volume, especialmente no segmento de pequenas e médias empresas (PMEs), que superou pela primeira vez a marca de 3 milhões de beneficiários. “Nós precisávamos estabelecer uma nova qualidade para as nossas carteiras empresariais. O crescimento vem porque conseguimos levar o produto certo, para o lugar certo e no preço certo”, disse.
Essa disciplina inclui recusar contratos quando a remuneração não cobre o risco. Em um mercado corporativo em que Hapvida, Amil e SulAmérica disputam com mais intensidade os clientes de maior renda, o executivo defende não entrar em guerra de preços: a companhia prefere abrir mão de determinadas carteiras a rebaixar a precificação. O diretor financeiro, Vinicius Cruz, sustenta que o crescimento da base ocorreu sem deterioração da qualidade dos contratos, o que, na sua avaliação, dá sustentabilidade à expansão.
A Bradsaúde encerrou junho com 13,6 milhões de beneficiários, sendo 4,1 milhões em planos médico-hospitalares e 9,5 milhões em odontológicos, com adição líquida de 229 mil vidas no trimestre.
Judicialização pressiona o cálculo atuarial
Depois da sinistralidade, a judicialização foi o tema que mais mobilizou o setor no trimestre. Marinelli classificou o avanço das ações judiciais como pressão estrutural, que reduz a previsibilidade financeira das operadoras. O problema, segundo ele, vai além do volume de processos: quando uma decisão determina a cobertura de procedimentos não previstos em contrato, o equilíbrio econômico da operação se desloca.
“Toda prática de seguros é baseada em cálculos atuariais feitos sobre aquilo que está previsto em contrato e na regulação. Quando surge uma demanda fora desse escopo, ela naturalmente não estava contemplada nesses cálculos”, afirmou. A observação sintetiza um dilema conhecido de qualquer gestor de operadora: precificação construída sobre premissas atuariais que decisões judiciais podem romper.
Odontoprev mais fraca e a aposta no ecossistema
No segmento odontológico, o trimestre foi mais fraco. O lucro líquido da Odontoprev caiu 21% na comparação anual, para R$ 116 milhões, com a sinistralidade dental em alta de 0,8 ponto percentual, a 37,5%. Parte do recuo foi atribuída a despesas não recorrentes ligadas à reorganização societária que criou a Bradsaúde.
O contraponto positivo veio dos hospitais. A Atlântica Hospitais, plataforma de investimentos hospitalares do grupo, mais que quadruplicou o lucro, para R$ 64 milhões (+312%), elevando sua participação no resultado consolidado de 2% para 6%. Diferentemente do modelo verticalizado adotado por concorrentes, a Atlântica opera em parcerias com Rede D’Or, Albert Einstein, Mater Dei e Grupo Santa, e a companhia trata o braço hospitalar como vetor de receita, não como ferramenta para reduzir custo médico. Cruz pondera que hospitais levam anos para amadurecer, e que a estratégia combina ativos maduros e novas unidades.
O que observar no 3T26
Para o gestor de saúde, a leitura do trimestre é menos sobre o lucro e mais sobre a mensagem de fundo: mesmo a líder em receita de planos médico-hospitalares cresce sob pressão de custos, aposta em disciplina de precificação e convive com a judicialização como variável estrutural. O terceiro trimestre será decisivo para verificar se a sinistralidade se estabiliza na comparação anual — indicador que, mais do que o resultado financeiro, mede a saúde real da operação.