Vacina de mRNA reduz em 42% risco de recidiva ou morte no melanoma
Feita a partir do tumor de cada paciente, a terapia personalizada ainda não tem dados maduros de sobrevida global.
Uma vacina de mRNA personalizada, desenvolvida pelas farmacêuticas MODERNA e MSD, reduziu em 42% o risco de recidiva ou morte em pacientes com melanoma de alto risco que tiveram o tumor retirado por cirurgia. O resultado é do estudo de fase 3 INTerpath-001, apresentado no sábado (24) no congresso da European Society for Medical Oncology (ESMO 2026), em Madri.
O estudo comparou o intismeran autogene (também chamado de V940 ou mRNA-4157) combinado ao imunoterápico pembrolizumabe (KEYTRUDA) com o pembrolizumabe associado a placebo. Participaram 1.137 pacientes com melanoma nos estágios IIB a IV, todos com o tumor completamente removido. Após acompanhamento mediano de 24,6 meses, 82,2% dos que receberam a combinação seguiam sem recidiva ou morte em dois anos. No grupo tratado só com pembrolizumabe, a taxa foi de 70%.
A combinação também reduziu em 38% o risco de metástase à distância. Em dois anos, 88,5% dos pacientes do braço combinado estavam livres desse tipo de metástase, contra 80,2% no grupo de comparação. Os dados de sobrevida global ainda não estão maduros, e o estudo segue em acompanhamento. Os resultados foram aceitos para publicação no The New England Journal of Medicine.
O melanoma se origina nos melanócitos, células que produzem a melanina, e pode ter comportamento agressivo quando se espalha para outros órgãos. Quando a doença está localizada, a cirurgia é o principal tratamento. Pacientes com tumores de maior risco podem receber terapia adicional depois da operação para reduzir a chance de o câncer voltar. É nesse ponto que o INTerpath-001 atua.
“Mesmo com a cirurgia e o tratamento adjuvante com pembrolizumabe, ainda existe um grupo de pacientes com melanoma de alto risco que apresenta recidiva. O INTerpath-001 investigou uma forma de ampliar essa proteção, combinando a imunoterapia com uma terapia desenvolvida a partir das características do tumor do próprio paciente. A redução do risco de recidiva e de metástases à distância é um resultado relevante para o tratamento desses pacientes”, afirma Rodrigo Perez Pereira, líder nacional da especialidade pele da ONCOCLÍNICAS, em nota enviada à imprensa.
O que mostram as análises adicionais
O desfecho principal do estudo é a redução de 42%. Duas análises complementares ajudam a entender como o efeito se distribui. Em uma análise previamente planejada, que considerou apenas os pacientes que receberam ao menos uma dose do tratamento previsto, a redução do risco de recidiva ou morte foi de 49%.
A outra avaliou o efeito ao longo do tempo. Nos primeiros seis meses, os dois grupos tiveram resultados semelhantes. Depois desse período, posterior ao esquema inicial de imunizações, a redução chegou a 58%. Nenhuma das duas análises substitui o resultado principal.
Para Raphael Parmeggiani, vice-presidente de Assuntos Científicos em Oncologia da América Latina da CENTOGENE, o resultado mostra que uma estratégia individualizada pode somar benefício à imunoterapia após a cirurgia. Ele aponta a pergunta que continua aberta. “Agora, uma questão importante é entender se essa redução no risco de recidiva se traduzirá também em ganhos de sobrevida ao longo do tempo. Esse acompanhamento será fundamental para dimensionar o impacto da abordagem na prática clínica”, afirma.
Como funciona a vacina de mRNA personalizada
Diferentemente das vacinas tradicionais, feitas para prevenir infecções, o intismeran autogene é uma terapia investigacional para quem já teve o melanoma removido. Cada tratamento é produzido a partir da análise molecular do tumor do paciente.
O processo começa com amostras do tumor e do sangue, que permitem separar as alterações genéticas próprias do câncer. Com ferramentas computacionais, os pesquisadores selecionam até 34 neoantígenos, proteínas alteradas com potencial de serem reconhecidas pelo sistema imunológico. O medicamento de RNA mensageiro carrega as instruções para produzir esses alvos.
A proposta é estimular as células de defesa, em especial os linfócitos T, a reconhecer e atacar células tumorais com as mesmas alterações. No estudo, a terapia de mRNA foi aplicada a cada três semanas, em até nove doses. O pembrolizumabe, que bloqueia a proteína PD-1 usada pelo tumor para escapar do sistema imunológico, foi mantido por cerca de um ano. Uma estratégia apresenta o alvo; a outra favorece a manutenção da resposta.
Fabricação individual em um estudo de grande porte
A terapia foi fabricada com sucesso para mais de 99% dos pacientes sorteados para recebê-la. Cada formulação passa por análise genética, seleção dos neoantígenos, produção e distribuição feitas para um único tumor.
“Estamos falando de uma abordagem em que cada medicamento precisa ser desenvolvido com base nas características de um tumor específico. Isso exige a integração entre sequenciamento genético, ferramentas computacionais e fabricação farmacêutica. O fato de a terapia ter sido produzida com sucesso para mais de 99% dos pacientes previstos no estudo é importante porque demonstra que essa personalização pode ser executada também em um ensaio clínico de grande porte”, explica Parmeggiani.
Pereira faz a mesma leitura. “Um aspecto importante desse estudo é mostrar que a personalização pode ser viabilizada em um ensaio clínico internacional de fase 3”, diz. Para ele, executar esse processo para mais de 99% dos pacientes previstos é um resultado relevante também do ponto de vista operacional. Cada vacina depende da identificação das mutações do tumor, da escolha dos alvos e de uma formulação própria.
O que ainda falta saber
O tratamento segue investigacional e não está disponível na rotina dos pacientes. MODERNA e MSD informaram que estão em diálogo com autoridades regulatórias com base nos resultados do estudo.
Os dados de segurança foram considerados consistentes com os observados antes para a combinação, sem novos sinais. Eventos adversos de grau 3 a 5 relacionados ao tratamento ocorreram em 14,2% dos pacientes do braço combinado e em 13,4% dos que receberam só pembrolizumabe. Febre, dor no local da aplicação e fadiga foram os efeitos mais frequentes no grupo da combinação.
“A diferença observada nas taxas de sobrevida livre de recidiva e de metástases à distância indica que a estratégia pode acrescentar benefícios ao tratamento adjuvante já utilizado nesse cenário. Ainda assim, o acompanhamento mais prolongado será importante para determinar a duração desse efeito e esclarecer se a combinação também proporciona ganho de sobrevida global”, complementa Pereira.
As empresas também avaliam a plataforma em outros tipos de câncer. A eficácia vista no melanoma não garante resultado igual em outras doenças.