Gestão e Qualidade | 26 de outubro de 2026

Segurança não se declara, se constrói

Diretora Assistencial do Hospital São Lucas da PUCRS defende que segurança do paciente depende de julgamento, comunicação e de lideranças que não naturalizam falhas.
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Na atenção em saúde, nunca se dispôs de tantos conhecimentos, tecnologias e capacidade de medir e analisar resultados. Ainda assim, permanece um desafio fundamental: transformar conhecimento em prática confiável, todos os dias e para todas as pessoas.


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Pensemos em uma situação possível em qualquer instituição de saúde. Um paciente apresenta alterações progressivas em seus sinais vitais. Os dados são registrados e diferentes profissionais participam do cuidado. Isoladamente, cada informação pode parecer pouco relevante. O que transforma essas informações em segurança no cuidado?


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A segurança está na capacidade de alguém perceber o conjunto, reconhecer que algo mudou e fazer a informação chegar a quem precisa decidir. Existe tecnologia capaz de antecipar alertas e há protocolos que orientam condutas, mas são necessários julgamento, comunicação e capacidade de resposta.


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Essa constatação nos leva também à formação. Talvez estejamos formando estudantes e profissionais muito para executar corretamente e ainda pouco para perceber, questionar e decidir diante da complexidade. O profissional que precisamos formar não é apenas aquele que conhece protocolos, mas aquele que compreende por que eles existem e reconhece quando a realidade exige atenção além do previsto.


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É necessário formar profissionais capazes de pensar criticamente, trabalhar de forma interdisciplinar e, acima de tudo, compreender o impacto de suas decisões. E formar lideranças assistenciais que criem as condições para que esse conhecimento se transforme em cuidado.

A liderança precisa ter clara a diferença entre resolver problemas e impedir que eles se tornem normais. Quando uma dificuldade se repete ou permanece por tempo suficiente, corremos o risco de incorporá-la à rotina. Por isso, a presença da liderança pode ser decisiva no que escolhe enxergar, no que aceita e no que decide não naturalizar.

É nesse espaço que a cultura se constrói: naquilo que a organização reforça, questiona ou tolera todos os dias. Em segurança do paciente, uma cultura de segurança existe quando reconhecer o risco gera ação; quando questionar uma prática é entendido como compromisso, e não como inconveniência; e, principalmente, quando aprender com o que não funcionou produz mudança real.

Ao celebrarmos os 50 anos do Hospital São Lucas da PUCRS, essa reflexão também nos aponta para o futuro. Em meio a tantas tecnologias, nem sempre acessíveis a todos, a inovação não está apenas na própria tecnologia, mas na nossa capacidade de combinar conhecimento, julgamento, comunicação e ação. Em saúde, segurança não se declara. Se constrói.


Profa. Dra. Janete de Souza Urbanetto – Diretora Assistencial do Hospital São Lucas da PUCRS, Professora da PUCRS.

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