Diretora Assistencial do Hospital São Lucas da PUCRS defende que segurança do paciente depende de julgamento, comunicação e de lideranças que não naturalizam falhas.
Na atenção em saúde, nunca se dispôs de tantos conhecimentos, tecnologias e capacidade de medir e analisar resultados. Ainda assim, permanece um desafio fundamental: transformar conhecimento em prática confiável, todos os dias e para todas as pessoas.
Pensemos em uma situação possível em qualquer instituição de saúde. Um paciente apresenta alterações progressivas em seus sinais vitais. Os dados são registrados e diferentes profissionais participam do cuidado. Isoladamente, cada informação pode parecer pouco relevante. O que transforma essas informações em segurança no cuidado?
A segurança está na capacidade de alguém perceber o conjunto, reconhecer que algo mudou e fazer a informação chegar a quem precisa decidir. Existe tecnologia capaz de antecipar alertas e há protocolos que orientam condutas, mas são necessários julgamento, comunicação e capacidade de resposta.
Essa constatação nos leva também à formação. Talvez estejamos formando estudantes e profissionais muito para executar corretamente e ainda pouco para perceber, questionar e decidir diante da complexidade. O profissional que precisamos formar não é apenas aquele que conhece protocolos, mas aquele que compreende por que eles existem e reconhece quando a realidade exige atenção além do previsto.
É necessário formar profissionais capazes de pensar criticamente, trabalhar de forma interdisciplinar e, acima de tudo, compreender o impacto de suas decisões. E formar lideranças assistenciais que criem as condições para que esse conhecimento se transforme em cuidado.
A liderança precisa ter clara a diferença entre resolver problemas e impedir que eles se tornem normais. Quando uma dificuldade se repete ou permanece por tempo suficiente, corremos o risco de incorporá-la à rotina. Por isso, a presença da liderança pode ser decisiva no que escolhe enxergar, no que aceita e no que decide não naturalizar.
É nesse espaço que a cultura se constrói: naquilo que a organização reforça, questiona ou tolera todos os dias. Em segurança do paciente, uma cultura de segurança existe quando reconhecer o risco gera ação; quando questionar uma prática é entendido como compromisso, e não como inconveniência; e, principalmente, quando aprender com o que não funcionou produz mudança real.
Ao celebrarmos os 50 anos do Hospital São Lucas da PUCRS, essa reflexão também nos aponta para o futuro. Em meio a tantas tecnologias, nem sempre acessíveis a todos, a inovação não está apenas na própria tecnologia, mas na nossa capacidade de combinar conhecimento, julgamento, comunicação e ação. Em saúde, segurança não se declara. Se constrói.
Profa. Dra. Janete de Souza Urbanetto – Diretora Assistencial do Hospital São Lucas da PUCRS, Professora da PUCRS.