Alliança Saúde, dona da rede CDB, pede recuperação extrajudicial de R$ 1,1 bilhão
Sob novo controle do fundo Geribá, o grupo quer transformar credores em acionistas para aliviar o passivo
A Alliança Saúde, grupo de clínicas de diagnóstico e imagem com mais de 120 laboratórios e dono de marcas como CDB, Cedimagem, Axial e Delfin, protocolou nesta quarta-feira (5) o pedido de homologação de um plano de recuperação extrajudicial para reestruturar R$ 1,138 bilhão em dívidas com credores quirografários. O processo tramita na 2ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais de São Paulo.
O plano chega à Justiça com o apoio de 83 credores, que detêm R$ 619,3 milhões do passivo — 54,38% dos créditos sujeitos à recuperação, acima do quórum exigido pela Lei de Recuperação e Falências. Mais de 92% do valor dos credores que já assinaram optou por converter a dívida em ações. Entre eles está o médico Sergio Tufik, fundador do laboratório CDB e presidente da Associação Fundo de Incentivo à Pesquisa (Afip), que aceitou transformar cerca de R$ 40 milhões em créditos em participação e volta a ser acionista da companhia. “A adesão dos médicos ao plano reflete os esforços da atual administração da Alliança para reconstruir e fortalecer essa relação”, afirmou a empresa em comunicado.
O que o plano de recuperação extrajudicial oferece
O documento enviado à Comissão de Valores Mobiliários (CVM) prevê três formas de pagamento. A primeira converte os créditos em ações ao preço de R$ 1,00 por papel; se todos os credores optarem por esse caminho, passarão a deter 80% da companhia. A segunda aplica deságio de 70% e paga o restante em 11 parcelas anuais, após 12 meses de carência, corrigidas pela Taxa Referencial (TR) mais 2% ao ano. A terceira quita créditos de até R$ 15 mil em parcela única, em 180 dias. Fornecedores estratégicos têm tratamento à parte — 60 parcelas mensais corrigidas pelo IPCA, sem deságio —, e entre os que apoiam o plano estão a General Electric e a Philips. Os aluguéis serão pagos em cinco parcelas mensais.
Juros altos e pressão das operadoras
Segundo a Alliança, a crise combina o encarecimento do endividamento provocado pelos juros altos com a pressão das operadoras de saúde sobre a medicina diagnóstica. A empresa aponta o aumento de valores retidos ou suspensos pelos planos (glosas), maior inadimplência, verticalização do mercado e alongamento dos prazos de recebimento. O quadro foi agravado pelo vencimento concentrado de dívidas e por medidas individuais de credores, como bloqueios de caixa e declarações de vencimento antecipado de contratos. Sem caixa, o grupo tomou R$ 126 milhões em empréstimos emergenciais com Prisma, Farallon e BTG, dando em garantia a alienação fiduciária de algumas clínicas e parte do equity — dívida que, segundo o plano, será paga com a venda de ativos ou da própria empresa. Na Justiça, a Alliança é assessorada pelo escritório Thomaz Bastos, Waisberg, Kurzweil (TWK).
Troca de controle e o embate com a Siemens
A reestruturação foi conduzida pela Geribá, gestora que assumiu o controle da Alliança no fim do primeiro trimestre. A Geribá ficou com as ações que pertenciam ao empresário Nelson Tanure, executadas como garantia por credores que haviam emprestado a ele na Ligga Telecom — entre eles Santander, BTG Pactual, Prisma e Farallon. A tensão com fornecedores, porém, persiste. A companhia acusa a Siemens de furar a fila de credores e afirma enfrentar bloqueios de caixa da Siemens Servicios Comerciales que somam R$ 60 milhões, além de uma transferência unilateral de R$ 11,8 milhões feita pela Siemens Healthineers de uma conta atrelada a contrato de financiamento, que atingiu o pagamento de fornecedores e do corpo clínico. Em petição, a Alliança sustenta que a estrutura de garantias montada pela fornecedora lhe permitiria interferir “em todo o fluxo financeiro do Grupo Alliança”.
Conversão de dívida — e uma venda no horizonte
Mais do que reperfilar o passivo, o plano abre caminho para uma mudança de dono. Depois da homologação, a companhia deve avaliar a necessidade de captar capital e uma eventual venda; entre os potenciais interessados estaria o Fleury, apurou o Pipeline, canal do site Valor. Outra alternativa em estudo seria sair de segmentos específicos, como o B2B. Procurada, a Alliança não comentou; o Fleury afirmou que não comenta rumores de mercado. O plano também autoriza o grupo a alienar ativos por Unidades Produtivas Isoladas (UPIs), livres de sucessão de dívidas.
A companhia sustenta que o escopo da recuperação é estritamente financeiro e não afeta obrigações com pacientes, colaboradores, operadoras e seguradoras. As ações da Alliança (AALR3), negociadas na B3, acumulam forte desvalorização em 2026.
Aprovado por unanimidade pelo conselho de administração, o plano ainda passará por assembleia geral extraordinária, e o próximo passo cabe ao juiz, que deve abrir prazo para a manifestação dos credores antes de decidir sobre a homologação.