Câncer de pulmão ALK+: estudos do GBOT revelam desigualdade de acesso entre SUS e saúde suplementar
Menos da metade dos oncologistas da rede pública tem acesso regular ao exame molecular que orienta o tratamento.
Pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS) com um subtipo específico de câncer de pulmão recebem menos da metade da terapia-alvo disponível na saúde suplementar e apresentam sobrevida menor, apontam dois estudos do Grupo Brasileiro de Oncologia Torácica (GBOT) publicados em junho na revista científica JCO Global Oncology. Juntos, os trabalhos medem a distância entre o avanço da medicina de precisão e o que efetivamente chega ao paciente brasileiro.
O foco é o câncer de pulmão de não pequenas células com alteração no gene ALK, presente em cerca de 5% desses tumores. A alteração acelera o crescimento do câncer, mas também o torna tratável por medicamentos desenhados para bloqueá-la — as chamadas terapias-alvo, que agem diretamente sobre a alteração molecular responsável pela doença, em vez de atingir células de multiplicação rápida como faz a quimioterapia. Por controlarem a doença por mais tempo e provocarem menos efeitos adversos, essas drogas são hoje o tratamento preferencial para esse perfil de paciente.
O primeiro estudo (LACOG/GBOT 1918) acompanhou 101 pacientes diagnosticados entre 2015 e 2020 em 12 centros oncológicos brasileiros. Apenas 22,2% dos atendidos pelo SUS receberam terapia-alvo como primeiro tratamento, contra 53,9% na saúde suplementar. Na rede pública, 77,8% começaram por quimioterapia, mesmo diante de uma opção mais eficaz para o perfil ALK. A diferença reaparece na sobrevida medida pelo estudo: três anos após o diagnóstico, 61,4% dos pacientes do SUS estavam vivos, ante 87,2% no setor privado.
Segundo a oncologista clínica Samira Mascarenhas, presidente eleita do GBOT e autora principal do estudo, os números expõem o descompasso entre o avanço da medicina de precisão e o acesso efetivo dos pacientes. “As terapias-alvo são hoje o tratamento preferencial para pacientes com câncer de pulmão que apresentam alteração em ALK, porque controlam melhor a doença do que a quimioterapia. Quando a maioria dos pacientes do SUS ainda não consegue receber esse tratamento, fica evidente que a medicina de precisão ainda não chegou de forma igual para todos”, afirma.
Diagnóstico mais lento na rede pública
A desigualdade começa antes do tratamento. Do primeiro sintoma à confirmação do diagnóstico, o paciente do SUS esperou 3,6 meses, mais que o dobro do 1,6 mês registrado na saúde suplementar. O intervalo maior também se estendeu ao resultado do exame que identifica a alteração em ALK e ao início da terapia.
Esses atrasos podem comprometer o tratamento antes mesmo do acesso ao medicamento mais indicado, alerta a pesquisadora. “Em câncer de pulmão avançado, o tempo importa. A doença pode progredir, o paciente pode piorar clinicamente, desenvolver metástases sintomáticas ou até perder a oportunidade de receber tratamentos posteriores”, afirma. Quando se tornam sintomáticas, essas metástases podem provocar falta de ar, dor intensa, alterações neurológicas ou fraturas, conforme o órgão atingido, e reduzem as opções terapêuticas seguintes.
Exames moleculares e medicamentos concentrados no setor privado
O segundo estudo (LACOG 1224-GBOT) ouviu 156 oncologistas brasileiros entre outubro de 2024 e março de 2025 e mostra onde o funil se estreita. Menos da metade dos que atuam no SUS (43,9%) relatou acesso regular ao teste que identifica a alteração em ALK, percentual que chega a 93,9% na saúde suplementar. A principal barreira apontada foi a ausência de cobertura ou de financiamento para os testes moleculares, citada por 58,3% dos entrevistados, seguida de tecido tumoral insuficiente para análise (40,4%) e da pressão para iniciar rápido o tratamento (36,5%).
O gargalo se repete no acesso aos medicamentos. Entre os oncologistas do SUS, 94,4% apontaram a quimioterapia como principal opção de primeira linha. A disponibilidade de terapias-alvo iniciais ficou restrita ao crizotinibe (10,3%), com alectinibe e lorlatinibe citados por apenas 1,9% e nenhum relato de brigatinibe. Na saúde suplementar, o alectinibe estava disponível para 80,3% dos profissionais, o lorlatinibe para 64,6%, o crizotinibe para 61,9% e o brigatinibe para 57,1%.
Para o oncologista clínico Vladmir Cordeiro de Lima, presidente do GBOT e coautor do levantamento, identificar a alteração não basta quando o tratamento não está disponível. “Mesmo quando conseguimos identificar a alteração molecular, frequentemente não há acesso aos tratamentos recomendados pelas diretrizes. Isso limita o potencial da oncologia de precisão e impede que muitos pacientes recebam terapias associadas a melhores resultados clínicos”, afirma.
Um desafio que vai além do ALK
Os autores lembram que o crizotinibe foi incorporado ao SUS em 2022 e o brigatinibe em 2025, mas a adoção segue desigual entre os serviços públicos. As mesmas barreiras de acesso a testes e terapias-alvo atingem outros biomarcadores usados na prática clínica, como EGFR e ROS1, o que limita a incorporação da oncologia de precisão no país.
“Nossos resultados mostram um retrato da prática clínica brasileira e reforçam a necessidade de estratégias nacionais para ampliar o acesso aos testes moleculares, garantir a disponibilidade das terapias recomendadas pelas diretrizes e reduzir as desigualdades observadas entre os diferentes sistemas de saúde”, conclui Samira Mascarenhas.
Acesse os estudos
Os dois estudos foram publicados na revista científica JCO Global Oncology e estão disponíveis na íntegra. A análise sobre acesso ao tratamento e sobrevida (LACOG/GBOT 1918) pode ser consultada no site do periódico, assim como a pesquisa sobre a disponibilidade de testes moleculares e terapias-alvo entre os oncologistas brasileiros (LACOG 1224-GBOT).