Daraxonrasib no câncer de pâncreas: avanço real, acesso ainda distante no Brasil
Oncologista Rui Weschenfelder do Hospital Moinhos de Vento avalia resultados do daraxonrasib, medicamento que foi destaque na ASCO 2026.
O daraxonrasib, primeiro inibidor oral do estado ativo da proteína RAS, foi o grande destaque do congresso da Sociedade Americana de Oncologia Clínica (ASCO) 2026 ao quase dobrar a sobrevida no câncer de pâncreas metastático. Para o oncologista Rui Weschenfelder, coordenador do Núcleo de Oncologia Gastrointestinal do Hospital Moinhos de Vento e diretor do Grupo Brasileiro de Tumores Gastrointestinais (GTG), o resultado é um avanço sólido — que, ainda assim, esbarra em prazos regulatórios e em um gargalo de diagnóstico molecular no Brasil.
Um ganho proporcional inédito numa doença de avanços lentos
Em entrevista exclusiva ao portal Setor Saúde, Weschenfelder situa a relevância do estudo dentro da história da doença. O câncer de pâncreas concentra décadas de pesquisa com conquistas historicamente pequenas, e tudo o que existe de melhor hoje resulta de pequenos passos construídos ao longo de muito tempo. É esse o contraste que dá dimensão ao estudo de fase 3 RASolute 302. “Esse estudo, na verdade, o que ele trouxe foi um ganho proporcional muito grande dentro dessa história, dobrando o tempo de vida de pacientes com doença avançada”, afirma o oncologista.
Publicado no New England Journal of Medicine em 31 de maio de 2026 e apresentado em sessão plenária da ASCO 2026, o RASolute 302 elevou a sobrevida global de 6,7 para 13,2 meses e reduziu em 60% o risco de morte frente à quimioterapia padrão. A apresentação dos resultados foi recebida com aplausos de pé por oncologistas do mundo todo reunidos no congresso, em Chicago (EUA) — reação que traduz a magnitude do feito em uma doença historicamente refratária a avanços. Para Weschenfelder, é um ganho proporcionalmente muito grande em um espaço curto de tempo de uma nova pesquisa.
Por que o mecanismo alcança o que os anteriores não alcançavam
O alvo central são as mutações na proteína RAS. “As chamadas mutações RAS, elas são presentes em cerca de 90% a 95% dos cânceres de pâncreas e ela, na verdade, funciona como se fosse um motor para o desenvolvimento da maioria desses tumores”, explica o oncologista. Ele lembra que muito se pesquisou para bloquear essas mutações, mas o mecanismo não era factível até então, e que as tentativas anteriores miravam mutações específicas — como as variantes G12 e G13, cada uma com suas subunidades. O daraxonrasib, comprimido oral de uso diário, atua sobre o estado ativo da proteína e alcança um espectro mais amplo de variantes, incluindo G12, G13 e Q61.
Toxicidade menor e mais qualidade de vida
A troca de perfil de segurança é um dos pontos mais sensíveis para o paciente. Segundo Weschenfelder, “o perfil de toxicidade da quimioterapia que hoje mesmo com as melhores drogas disponíveis continua sendo um mecanismo de matar células e ele é logicamente mais direcionado para células de câncer, mas ataca células sadias e por isso a gente tem o cenário de neutropenia que é queda de defesa, anemia, especificamente a neuropatia periférica que é muito comum”. A neuropatia periférica ocorre quando os nervos fora do cérebro e da medula espinhal são danificados.
Com o medicamento alvo, o quadro observado é outro. “Com o daraxonrasib, que é uma droga alvo oral, o que a gente acabou vendo mais no estudo realmente foi toxicidade cutânea, o rash mimetiza um tipo de acne na pele e estomatite é basicamente descamação ou inflamação da parte interna da boca, mas esses efeitos eles costumam ser menos graves e normalmente respondem bem a tratamento”, afirma. Esse comportamento reduz o risco de eventos graves e melhora a qualidade de vida ao longo do tratamento.
A tolerabilidade aparece também na adesão: a taxa de descontinuação no braço do daraxonrasib ficou na casa de 1%. “Isso é um número considerado muito vitorioso, só 1% dos pacientes interromperem o tratamento”, destaca. O oncologista aproveita para questionar uma crença comum: “Existe uma máxima que diz que remédio bom precisa ser amargo, porque muitas vezes se interpreta que é necessário ter algum efeito colateral para algum medicamento estar funcionando”. Para ele, há situações na oncologia em que isso se confirma, mas não é o caso do daraxonrasib, outro ponto extremamente positivo e comemorado por especialistas e pacientes.
O caminho até o Brasil ainda é longo
No Brasil, o peso da doença ajuda a dimensionar o interesse pela nova terapia. A Estimativa 2026–2028 do INCA, a mais recente, projeta 781 mil novos casos de câncer por ano no país e mantém o câncer de pâncreas entre os dez tumores mais incidentes na região Sul, onde atua o Hospital Moinhos de Vento. Obesidade e tabagismo estão entre os principais fatores de risco da doença.
Sobre o acesso, Weschenfelder evita cravar prazos por causa das etapas regulatórias e projeta o trajeto com base no histórico de aprovação de novas drogas. O primeiro passo costuma ser a submissão ao FDA, agência reguladora dos Estados Unidos; em avanços de grande demanda – como é o caso do daraxonrasib -, é comum o chamado fast track, que acelera a análise e pode liberar uso e comercialização no país em alguns meses. Em seguida viria a submissão à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para aprovação no Brasil e, depois, a inclusão no rol da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), na medicina privada. A incorporação ao Sistema Único de Saúde (SUS) tende a vir por último e pode levar mais de um ano, após as etapas citadas. “A gente ainda tem um caminho longo pela frente, essa é a expectativa no Brasil”, resume.
Diagnóstico molecular: o gargalo do acesso
O acesso real depende de identificar os pacientes com as variantes de RAS, feito por meio de testes moleculares com painéis específicos. Eles existem no Brasil, mas o acesso não é uniforme: hoje estão concentrados na medicina privada. Para o oncologista, seria preciso homogeneizar esses exames nas rotinas dos convênios e incorporá-los ao SUS. “Sem dúvida seria um grande gargalo para o tratamento”, afirma. Ele faz uma ressalva relevante: cerca de 10% dos pacientes do estudo não tinham as mutações G12, principal grupo tratado pela droga, e a comunidade científica ainda discute o quanto a avaliação dessa mutação será mandatória — uma questão em aberto.
O que vem na esteira do daraxonrasib
Weschenfelder enxerga duas frentes de evolução. A primeira é o desenvolvimento, já em curso, de medicamentos para mutações além das G12 e para os casos em que o tumor desenvolve resistência ao tratamento. “É necessário desenvolver inibidores de nova geração para tratar casos em que surgem mutações de resistência ao tratamento”, afirma. A segunda é o uso do próprio daraxonrasib em linhas mais precoces: o RASolute 302 foi conduzido em pacientes que já haviam falhado pelo menos uma linha de quimioterapia, e a expectativa agora é avaliá-lo em pacientes virgens de tratamento, isolado ou em combinação com a quimioterapia.
Um avanço com os pés no chão
Ao final, o oncologista faz questão de equilibrar o entusiasmo. “É importante lembrar que esse remédio é mais uma ferramenta na luta contra essa doença e os ganhos obtidos não significam cura”, afirma. Ele defende manter a esperança sem transformar o avanço científico em uma promessa de cura que o estudo não sustenta, alinhando expectativas com os pacientes. E reforça o peso da individualização: “Cada paciente é único e, da mesma forma, a doença dentro do organismo de cada paciente é única”. Para Weschenfelder, a avaliação individual de cada caso segue sendo essencial na decisão sobre o melhor tratamento.
Resumo do estudo
O que foi testado: um estudo de fase 3 (a etapa final de avaliação antes da aprovação de um remédio) comparou o daraxonrasib, um comprimido tomado uma vez por dia, com a quimioterapia padrão, aplicada na veia. Participaram 500 pacientes com câncer de pâncreas metastático (espalhado pelo corpo) que já haviam feito tratamento antes — 248 receberam o novo medicamento e 252, a quimioterapia.
Tempo de vida (sobrevida global): quem tomou o daraxonrasib viveu, em média, 13,2 meses, contra 6,7 meses de quem fez quimioterapia — quase o dobro. Na prática, o medicamento reduziu em 60% o risco de morte.
Tempo sem a doença avançar (sobrevida livre de progressão): em média, 7,3 meses com o daraxonrasib contra 3,5 meses com a quimioterapia, entre os pacientes com a mutação RAS G12.
Como o remédio age: ele bloqueia a proteína RAS quando ela está “ligada”, funcionando como o motor que faz o tumor crescer. Essa alteração está presente em mais de 90% dos casos de câncer de pâncreas.
Efeitos colaterais: o tratamento foi bem tolerado, sem surpresas de segurança. Os efeitos mais comuns foram na pele (parecidos com acne) e na boca (inflamação), em geral leves e controláveis — diferentes dos efeitos mais pesados da quimioterapia, como queda das defesas e formigamento nas mãos e pés.
Onde foi divulgado: os resultados foram publicados na revista científica New England Journal of Medicine em 31 de maio de 2026 e apresentados em sessão plenária do congresso da ASCO 2026, em Chicago.
Importante: o medicamento ainda não está disponível no Brasil e os ganhos, embora expressivos, não significam cura.