Estatísticas e Análises | 9 de junho de 2026

Daraxonrasib no câncer de pâncreas: avanço real, acesso ainda distante no Brasil

Oncologista Rui Weschenfelder do Hospital Moinhos de Vento avalia resultados do daraxonrasib, medicamento que foi destaque na ASCO 2026.
Daraxonrasib no câncer de pâncreas avanço real, acesso ainda distante no Brasil

O daraxonrasib, primeiro inibidor oral do estado ativo da proteína RAS, foi o grande destaque do congresso da Sociedade Americana de Oncologia Clínica (ASCO) 2026 ao quase dobrar a sobrevida no câncer de pâncreas metastático. Para o oncologista Rui Weschenfelder, coordenador do Núcleo de Oncologia Gastrointestinal do Hospital Moinhos de Vento e diretor do Grupo Brasileiro de Tumores Gastrointestinais (GTG), o resultado é um avanço sólido — que, ainda assim, esbarra em prazos regulatórios e em um gargalo de diagnóstico molecular no Brasil.


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Um ganho proporcional inédito numa doença de avanços lentos

Em entrevista exclusiva ao portal Setor Saúde, Weschenfelder situa a relevância do estudo dentro da história da doença. O câncer de pâncreas concentra décadas de pesquisa com conquistas historicamente pequenas, e tudo o que existe de melhor hoje resulta de pequenos passos construídos ao longo de muito tempo. É esse o contraste que dá dimensão ao estudo de fase 3 RASolute 302. “Esse estudo, na verdade, o que ele trouxe foi um ganho proporcional muito grande dentro dessa história, dobrando o tempo de vida de pacientes com doença avançada”, afirma o oncologista.


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Publicado no New England Journal of Medicine em 31 de maio de 2026 e apresentado em sessão plenária da ASCO 2026, o RASolute 302 elevou a sobrevida global de 6,7 para 13,2 meses e reduziu em 60% o risco de morte frente à quimioterapia padrão. A apresentação dos resultados foi recebida com aplausos de pé por oncologistas do mundo todo reunidos no congresso, em Chicago (EUA) — reação que traduz a magnitude do feito em uma doença historicamente refratária a avanços. Para Weschenfelder, é um ganho proporcionalmente muito grande em um espaço curto de tempo de uma nova pesquisa.


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Por que o mecanismo alcança o que os anteriores não alcançavam

O alvo central são as mutações na proteína RAS. “As chamadas mutações RAS, elas são presentes em cerca de 90% a 95% dos cânceres de pâncreas e ela, na verdade, funciona como se fosse um motor para o desenvolvimento da maioria desses tumores”, explica o oncologista. Ele lembra que muito se pesquisou para bloquear essas mutações, mas o mecanismo não era factível até então, e que as tentativas anteriores miravam mutações específicas — como as variantes G12 e G13, cada uma com suas subunidades. O daraxonrasib, comprimido oral de uso diário, atua sobre o estado ativo da proteína e alcança um espectro mais amplo de variantes, incluindo G12, G13 e Q61.


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Toxicidade menor e mais qualidade de vida

A troca de perfil de segurança é um dos pontos mais sensíveis para o paciente. Segundo Weschenfelder, “o perfil de toxicidade da quimioterapia que hoje mesmo com as melhores drogas disponíveis continua sendo um mecanismo de matar células e ele é logicamente mais direcionado para células de câncer, mas ataca células sadias e por isso a gente tem o cenário de neutropenia que é queda de defesa, anemia, especificamente a neuropatia periférica que é muito comum”. A neuropatia periférica ocorre quando os nervos fora do cérebro e da medula espinhal são danificados.

Com o medicamento alvo, o quadro observado é outro. “Com o daraxonrasib, que é uma droga alvo oral, o que a gente acabou vendo mais no estudo realmente foi toxicidade cutânea, o rash mimetiza um tipo de acne na pele e estomatite é basicamente descamação ou inflamação da parte interna da boca, mas esses efeitos eles costumam ser menos graves e normalmente respondem bem a tratamento”, afirma. Esse comportamento reduz o risco de eventos graves e melhora a qualidade de vida ao longo do tratamento.

A tolerabilidade aparece também na adesão: a taxa de descontinuação no braço do daraxonrasib ficou na casa de 1%. “Isso é um número considerado muito vitorioso, só 1% dos pacientes interromperem o tratamento”, destaca. O oncologista aproveita para questionar uma crença comum: “Existe uma máxima que diz que remédio bom precisa ser amargo, porque muitas vezes se interpreta que é necessário ter algum efeito colateral para algum medicamento estar funcionando”. Para ele, há situações na oncologia em que isso se confirma, mas não é o caso do daraxonrasib, outro ponto extremamente positivo e comemorado por especialistas e pacientes.

 O caminho até o Brasil ainda é longo

No Brasil, o peso da doença ajuda a dimensionar o interesse pela nova terapia. A Estimativa 2026–2028 do INCA, a mais recente, projeta 781 mil novos casos de câncer por ano no país e mantém o câncer de pâncreas entre os dez tumores mais incidentes na região Sul, onde atua o Hospital Moinhos de Vento. Obesidade e tabagismo estão entre os principais fatores de risco da doença.

Sobre o acesso, Weschenfelder evita cravar prazos por causa das etapas regulatórias e projeta o trajeto com base no histórico de aprovação de novas drogas. O primeiro passo costuma ser a submissão ao FDA, agência reguladora dos Estados Unidos; em avanços de grande demanda – como é o caso do daraxonrasib -, é comum o chamado fast track, que acelera a análise e pode liberar uso e comercialização no país em alguns meses. Em seguida viria a submissão à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para aprovação no Brasil e, depois, a inclusão no rol da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), na medicina privada. A incorporação ao Sistema Único de Saúde (SUS) tende a vir por último e pode levar mais de um ano, após as etapas citadas. “A gente ainda tem um caminho longo pela frente, essa é a expectativa no Brasil”, resume.

Diagnóstico molecular: o gargalo do acesso

O acesso real depende de identificar os pacientes com as variantes de RAS, feito por meio de testes moleculares com painéis específicos. Eles existem no Brasil, mas o acesso não é uniforme: hoje estão concentrados na medicina privada. Para o oncologista, seria preciso homogeneizar esses exames nas rotinas dos convênios e incorporá-los ao SUS. “Sem dúvida seria um grande gargalo para o tratamento”, afirma. Ele faz uma ressalva relevante: cerca de 10% dos pacientes do estudo não tinham as mutações G12, principal grupo tratado pela droga, e a comunidade científica ainda discute o quanto a avaliação dessa mutação será mandatória — uma questão em aberto.

O que vem na esteira do daraxonrasib

Weschenfelder enxerga duas frentes de evolução. A primeira é o desenvolvimento, já em curso, de medicamentos para mutações além das G12 e para os casos em que o tumor desenvolve resistência ao tratamento. “É necessário desenvolver inibidores de nova geração para tratar casos em que surgem mutações de resistência ao tratamento”, afirma. A segunda é o uso do próprio daraxonrasib em linhas mais precoces: o RASolute 302 foi conduzido em pacientes que já haviam falhado pelo menos uma linha de quimioterapia, e a expectativa agora é avaliá-lo em pacientes virgens de tratamento, isolado ou em combinação com a quimioterapia.

Um avanço com os pés no chão

Ao final, o oncologista faz questão de equilibrar o entusiasmo. “É importante lembrar que esse remédio é mais uma ferramenta na luta contra essa doença e os ganhos obtidos não significam cura”, afirma. Ele defende manter a esperança sem transformar o avanço científico em uma promessa de cura que o estudo não sustenta, alinhando expectativas com os pacientes. E reforça o peso da individualização: “Cada paciente é único e, da mesma forma, a doença dentro do organismo de cada paciente é única”. Para Weschenfelder, a avaliação individual de cada caso segue sendo essencial na decisão sobre o melhor tratamento.

Resumo do estudo

O que foi testado: um estudo de fase 3 (a etapa final de avaliação antes da aprovação de um remédio) comparou o daraxonrasib, um comprimido tomado uma vez por dia, com a quimioterapia padrão, aplicada na veia. Participaram 500 pacientes com câncer de pâncreas metastático (espalhado pelo corpo) que já haviam feito tratamento antes — 248 receberam o novo medicamento e 252, a quimioterapia.


Tempo de vida (sobrevida global): quem tomou o daraxonrasib viveu, em média, 13,2 meses, contra 6,7 meses de quem fez quimioterapia — quase o dobro. Na prática, o medicamento reduziu em 60% o risco de morte.


Tempo sem a doença avançar (sobrevida livre de progressão): em média, 7,3 meses com o daraxonrasib contra 3,5 meses com a quimioterapia, entre os pacientes com a mutação RAS G12.


Como o remédio age: ele bloqueia a proteína RAS quando ela está “ligada”, funcionando como o motor que faz o tumor crescer. Essa alteração está presente em mais de 90% dos casos de câncer de pâncreas.


Efeitos colaterais: o tratamento foi bem tolerado, sem surpresas de segurança. Os efeitos mais comuns foram na pele (parecidos com acne) e na boca (inflamação), em geral leves e controláveis — diferentes dos efeitos mais pesados da quimioterapia, como queda das defesas e formigamento nas mãos e pés.


Onde foi divulgado: os resultados foram publicados na revista científica New England Journal of Medicine em 31 de maio de 2026 e apresentados em sessão plenária do congresso da ASCO 2026, em Chicago.


Importante: o medicamento ainda não está disponível no Brasil e os ganhos, embora expressivos, não significam cura.

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