O papel do médico do trabalho em tempos de pandemia
Gislaine Lunardi Flores foi a convidada de Live apresentada pelo professor Paulo Petry, na quinta-feira (20)
Com o impacto da pandemia na rotina dos trabalhadores, a saúde ocupacional, área da medicina voltada diretamente para estudos referentes a segurança e saúde do trabalhador, foi tema da Live promovida pela Faculdade de Tecnologia em Saúde (Fasaúde/IAHCS). A Live Saúde Ocupacional em Tempos de Pandemia, contou com a participação da médica do trabalho e professora da Fasáude, Gislaine Lunardi Flores. O evento foi comandado pelo coordenador de pós-graduação da Faculdade, doutor em Epidemiologia e professor Paulo Petry.
Médico do trabalho
Flores explicou como é a atuação do médico do trabalho. De acordo com ela, o profissional que atua na saúde ocupacional presta serviços dentro de empresas, ou realiza consultorias para as empresas, ou presentando serviço em uma clínica. “O principal papel do médico do trabalho, com a equipe que envolve saúde, segurança e medicina do trabalho, é promover e prevenir doenças, principalmente doenças de cunho ocupacional”, explicou.
Saúde ocupacional em tempos de pandemia
Petry questionou o impacto que a pandemia trouxe para a área da saúde ocupacional. A médica salientou que a área já vem sofrendo modificações desde antes da pandemia. “Hoje, o profissional deve ter um olhar mais amplo à saúde do trabalhador. Não olhar somente os riscos, os exames ocupacionais. Hoje, vamos além disso, porque passamos a ser a porta de entrada para pessoas muitas vezes sem acesso a um serviço de saúde”, disse.
Com a pandemia, o impacto foi “total” para o médico do trabalho, de acordo com Flores. “A pandemia não espera, ela atropelou. Não tivemos tempo para nos planejar para esse momento. Ocorreu uma mudança no perfil do médico do trabalho. Sabemos que os sistemas de saúde não conseguem absorver todas as pessoas que serão infectadas pelo vírus. As empresas acabaram fazendo uma espécie de readequação do seu serviço de saúde operacional para suprir uma parte dessa necessidade do mercado de saúde. Tivemos que nos readequar. Além dos riscos normais que lidávamos, há os riscos de contaminação da pandemia, presentes em todos os setores, que temos de lidar”, salientou.
Ela citou que a saúde ocupacional também foi impactada pelo Medida 927, que ocasionou em suspensão dos exames ocupacionais. “Essa medida já caiu e está sendo revisada novamente, com novas discussões. Porém, essa medida havia suspendido a realização de exames ocupacionais”, explicou.
Papel do médico do trabalho
Petry perguntou como a médica observa o papel do médico do trabalho na condução dos processos relacionados à saúde ocupacional. Para Flores, com a pandemia, podemos observar diferentes cenários, que impõem dificuldades distintas, dependendo da situação.
Para ela, há uma segurança maior para a medicina ocupacional em empresas maiores e bem preparadas, que contam com enfermeiras do trabalho, técnicos de segurança do trabalho, engenheiro de segurança, entre outros profissionais, além da estruturação dos protocolos de segurança bem definidos por essas empresas.
“Numa empresa de menor porte, o profissional terá que prestar consultoria, provavelmente, para saber como adaptar. Temos legislação federal, estadual e municipal. Temos de adequar tudo isso, o que as legislações dizem, os protocolos do Ministério do Trabalho, da Saúde, e o que nossas diretrizes. Sozinho, esse trabalho é impossível. O médico do trabalho tem uma função, a segurança do trabalho outra, por exemplo. Então, são criados comitês de crise”, afirmou.
Flores explicou que, em relação à Covid-19, o papel principal do médico do trabalho é reduzir a exposição ao risco de contaminação. “Porém, esse trabalhador tem a vida dentro e fora do seu ambiente de trabalho. Dentro, podemos controlar. Fora, podemos orientar esses profissionais”, ressaltou.
Como o médico pode minimizar os impactos da pandemia
Petry questionou a Flores como que a medicina ocupacional poderá minimizar os impactos da pandemia. A médica definiu em um termo: participação ativa.
“O médico do trabalho tem de estar junto da empresa, propondo mudanças e adequações. Qualquer empresa, atualmente, que queira retomar atividade, precisa ter um plano de contingência, é exigência”, explicou. Nesse plano, a empresa tem de ter todas as medidas de garantia de segurança, como disponibilizar álcool gel, por exemplo, e fornecer um ambiente de trabalho seguro. Flores avaliou que a área de vigilância sanitária pode ser considerada uma parceira nesse processo, ajudando com suas avaliações nas medidas que deverão ser tomadas.
Flores destacou que o médico do trabalho atua com ênfase no controle da pandemia nas empresas. “O médico do trabalho é hoje é importante para o diagnóstico, para determinar com as empresas as medidas que ela deve ter lá na ponta. O plano de contingenciamento exige que tenha um checklist de sintomas. É preciso avaliar o trabalhador quando ele chega no trabalho, promover um ambiente com ventilação, avaliar os riscos do ambiente, distanciamento, disponibilidade de álcool gel, monitoramento de saúde dos trabalhadores. E, quando ocorre algum caso [de Covid-19], devemos monitorar o profissional e seus familiares também. Absorvermos essa rotina, porque o sistema de saúde mão dá conta de lidar com tantas pessoas afetadas pela Covid-19. Recebemos muitos feedbacks positivos, de trabalhadores que estão cheio de dúvidas e se sentem acolhidos pela nossa atuação”, afirmou.
Flores ressaltou que a pandemia traz muitos aprendizados, e que novas adaptações terão precisarão ser implementadas nos protocolos de segurança das empresas, além de ressaltar que a eficácia dos protocolos de segurança também dependerá das mudanças comportamentais dos comportamentos individuais. “Teremos de conviver com o vírus, que é um grande problema, mas o nosso comportamento também pode ser um grande problema. Não adianta usar a máscara apenas no ambiente de trabalho, por obrigação, e não seguir esse comportamento fora do ambiente de trabalho. Serão adaptações necessárias daqui para frente”, disse.
Encerramento
No final do encontro, Petry anunciou que essa é foi a última Live da série especial Fasaúde Ao Vivo, em função de novos compromissos de sua agenda profissional. “Gostaria de agradecer a todos os que nos acompanharam, aos palestrantes de altíssimo nível que nos acompanharam sempre. Espero que tenhamos contribuído com as Lives. Eu costumo brincar que vivemos uma era da infodemia, a pandemia da informação. Existem muitos palpites. Por isso, a ideia das nossas Lives foi de trazer a opinião de pessoas sérias, éticas e comprometidas com a verdade científica. É o que prezamos, e nós que somos da área da saúde temos essa formação muito sólida. Grande abraço a todos e obrigado por nos acompanharem”, finalizou.
Fasaúde Ao Vivo
Os debates tiveram o apoio da Federação dos Hospitais e Estabelecimentos de Saúde do Rio Grande do Sul (FEHOSUL), Sindicato dos Hospitais e Clínicas de Porto Alegre (SINDIHOSPA), Associação dos Hospitais do RS (AHRGS), Instituto de Acreditação Hospitalar e Ciências da Saúde (IAHCS Acreditação) e Portal Setor Saúde.
Leia as matérias com a cobertura das lives já realizadas, com a participação de Robson Morales, Milton Berger, Salvador Gullo, Alex Mello, Fernando Torelly, José Carlos Calich, Jorge Bajerski, Cristiano Englert, Patrícia Prolla, Rogério Tovar e Carlos Klein.