Gestão e Qualidade | 23 de julho de 2026

Preços de medicamentos para hospitais sobem pelo terceiro mês consecutivo

Mesmo com altas em abril (+0,78%), maio (+0,12%) e junho (+0,14%), IPM-H encerra o primeiro semestre praticamente estável.
Preços de medicamentos para hospitais sobem pelo terceiro mês consecutivo

Os preços dos medicamentos negociados entre fornecedores e hospitais brasileiros subiram, em média, 0,14% em junho, na terceira alta mensal consecutiva do Índice de Preços de Medicamentos para Hospitais (IPM-H), calculado pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe) com base em dados transacionais da plataforma Bionexo 360º. A sequência de altas — 0,78% em abril, 0,12% em maio e 0,14% em junho — não reverteu, contudo, o quadro mais amplo: no primeiro semestre, o índice ficou praticamente estável (-0,01%), e em 12 meses acumula queda de 4,08%.


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Por que isso importa: o teto sobe, o preço real cai

A leitura apressada do resultado sugere início de recomposição de custos. O comportamento anual aponta o contrário. Após a entrada em vigor dos reajustes anuais autorizados pela Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (CMED) — que, em 2026, estabeleceu faixas escalonadas de +1,13% a +3,81%, conforme o nível de concorrência de cada grupo de medicamentos —, o teto regulatório subiu. O preço efetivamente praticado na negociação hospitalar, medido pelo IPM-H, recuou 4,08% no mesmo horizonte. A distância entre o preço máximo permitido pela regulação e o valor real de compra, portanto, ampliou-se. Para o gestor de suprimentos, é justamente esse intervalo que se traduz em poder de barganha.


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A deflação começa a ceder

O dado de 12 meses traz uma inflexão que a variação mensal esconde. A retração acumulada pelo IPM-H, iniciada em outubro de 2025, atingiu o ponto mais profundo em abril de 2026, quando marcou -5,96%. De lá para cá, começou a se atenuar: passou a -5,10% em maio e a -4,08% em junho. A deflação segue expressiva, mas perde intensidade — movimento que dá sustentação concreta à tese de recomposição gradual dos preços, ainda distante de uma recuperação ampla. Para referência histórica, desde o início da série, em janeiro de 2015, o IPM-H acumula avanço nominal de 46,0%.


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O que o IPM-H mede — e o que não mede

A natureza do índice é o que explica o paradoxo, e precisa ficar clara para evitar leitura equivocada. Fruto de uma parceria entre a Fipe e a Bionexo Tasy, o IPM-H é elaborado a partir de transações efetivamente realizadas na plataforma Bionexo 360º. A cada mês, calcula-se para cada medicamento a variação de seu preço frente ao mês de referência, considerando fatores da negociação como a quantidade de produtos por transação e a distância geográfica entre hospital e fornecedor. Os itens são agrupados por classe terapêutica, segundo a classificação ATC (Anatomical Therapeutic Chemical Code) da Organização Mundial da Saúde (OMS), e ponderados pelo valor total transacionado.

Duas fronteiras são explicitadas pela própria Fipe. Primeiro, o IPM-H não mede preços em farmácias nem o valor pago pelo consumidor final: ainda que possam estar correlacionados, o índice capta exclusivamente o mercado hospitalar, distinto do varejo farmacêutico. Segundo, o índice não corresponde ao custo total de hospitais ou operadoras, que inclui também equipamentos, procedimentos, materiais e recursos humanos. O IPM-H afere o preço transacional do medicamento — o valor de fato negociado na compra —, e não o preço de lista. É por isso que ele pode cair enquanto o teto da CMED sobe.

Câmbio no radar

O informe acompanha o IPM-H lado a lado com a taxa de câmbio, e o paralelo do período chama atenção. Em junho, o câmbio médio apurado pelo Banco Central subiu 2,89%, mas ainda acumula queda de 5,97% em 2026 e de 7,56% em 12 meses — trajetória de valorização do real que caminha na mesma direção da deflação do índice. O câmbio é, aliás, uma das variáveis que a CMED considera na formação do teto de reajuste, entre os custos não captados diretamente pela inflação. A relação entre os dois movimentos não é de causa e efeito automática, mas o comportamento cambial é um vetor a monitorar por quem administra a compra de medicamentos com componente importado.

Onde renegociar e onde proteger preço

A leitura por grupo terapêutico transforma o índice em ferramenta de priorização. No acumulado de 12 meses, as maiores quedas se concentram em imunoterápicos, vacinas e antialérgicos (-11,84%), sistema musculoesquelético (-9,48%) e aparelho digestivo e metabolismo (-5,95%) — classes em que o comprador ganhou margem relevante e onde há espaço para revisar contratos vigentes. No sentido oposto, apenas quatro grupos acumulam alta no período: sistema nervoso (+3,23%), aparelho cardiovascular (+2,37%), aparelho geniturinário (+2,06%) e aparelho respiratório (+1,11%) — itens em que travar preço por prazo mais longo tende a proteger o orçamento.

No recorte do mês, as maiores altas vieram de aparelho respiratório (+1,67%), órgãos sensitivos (+1,65%) e sangue e órgãos hematopoiéticos (+0,92%); as quedas, de sistema musculoesquelético (-1,67%), aparelho geniturinário (-1,07%) e anti-infecciosos gerais para uso sistêmico (-0,48%). A oscilação de um único mês, porém, importa menos do que a tendência acumulada para quem gere contratos de fornecimento.

O que esperar

Para diretorias de suprimentos e finanças, a orientação é de cautela com a leitura de curto prazo. Três meses de alta não configuram tendência de recomposição de custos, e projetar reajustes lineares no orçamento com base na variação mensal pode superestimar a pressão real sobre o item medicamento. O que os dados de 12 meses mostram é um mercado ainda em deflação, embora em desaceleração, no qual o poder de barganha do comprador hospitalar permanece elevado em boa parte das classes terapêuticas. A variável sob controle do gestor segue a mesma: decisão de compra ancorada em dado transacional, e não em percepção de mercado.


SOBRE O IPM-H: O IPM-H é uma parceria entre a Fipe e a Bionexo Tasy que acompanha, desde janeiro de 2015, o preço dos medicamentos transacionados entre fornecedores e hospitais na plataforma Bionexo 360º. A Bionexo Tasy reúne mais de 11 mil clientes, 35 mil fornecedores e 1,2 milhão de usuários ativos, movimentando mais de R$ 45 bilhões em transações ao ano. Baixe aqui os estudos.


 

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