O paradoxo da saúde: lucros recordes, crise de incentivos e o desafio da longevidade
Confira o artigo de Emanuel Malta, economista sócio-fundador da Vértice Consultores.
O Brasil atravessa uma transformação demográfica sem precedentes. O envelhecimento da população não é mais uma projeção estatística, mas uma realidade do presente, que traz mudanças profundas nas demandas assistenciais e exige novas posturas em defesa do idoso. Esse cenário impõe uma transição urgente: a área da saúde deve deixar de ser um mero setor pagador de procedimentos para assumir o papel de gerenciador da longevidade funcional.
Neste horizonte, o Brasil se destaca por abrigar centros de saúde de referência mundial, posicionados entre os melhores do globo. O ecossistema brasileiro de saúde demonstra sua força e resiliência, com hospitais que alcançam reconhecimento internacional por sua excelência e infraestrutura de ponta. Essa base de alta performance é o alicerce para a medicina de 2040, que será moldada pela personalização e pela tecnologia preditiva.
Pilares como a inteligência artificial para diagnósticos rápidos, a genômica para tratamentos de precisão e o monitoramento remoto via dispositivos conectados transformarão o cuidado reativo em uma rede de atenção contínua, centrada no desfecho e na sustentabilidade. Entretanto, para enxergar e aproveitar essas oportunidades, é preciso enfrentar ameaças críticas que já estão no radar dos conselhos de administração.
A principal delas reside na obsolescência do modelo de incentivos. O sistema ainda está excessivamente preso a uma lógica que premia o volume e o desperdício, em vez da saúde efetivamente entregue. Sem migrar para modelos baseados em valor (Value-Based Healthcare), a conta da saúde se tornará impagável.
Soa, ainda, um alerta importante sobre a qualidade da formação médica no país. O desempenho preocupante em exames nacionais de novos cursos de medicina ameaça a segurança do paciente e a previsibilidade de custos operacionais no longo prazo.
No campo financeiro, o biênio 2025-2026 revela um cenário de saneamento, com lucros líquidos recordes que totalizaram R$ 24,4 bilhões no último ano e redução da sinistralidade para patamares de 80%. Contudo, esse fôlego financeiro é, em grande parte, resultado de reajustes severos e de um processo agressivo de consolidação, com fusões de gigantes hospitalares e operadoras verticais em busca de escala e eficiência.
Esse movimento coloca em xeque a sustentabilidade de quem não profissionalizar sua estratégia. O escrutínio sobre a manutenção de beneficiários crônicos e a dificuldade crescente de repasse de custos indicam que o modelo tradicional de gestão de sinistro está chegando ao seu limite social e econômico.
Transpor esses desafios — equilibrando a excelência assistencial com a sustentabilidade financeira e a disrupção tecnológica — exige uma visão que domine os padrões das organizações de classe mundial. Minha experiência direta no desenvolvimento de estratégias para grandes sistemas e federações de saúde, incluindo o Sistema Unimed, me dá segurança para afirmar que a complexidade de gerir estruturas de referência global exige rigor analítico e inovação constante.
Lideranças e conselhos de administração precisam ser apoiados para transformar esses desafios estruturais em vantagens competitivas reais, garantindo perenidade e relevância em um mercado cada vez mais consolidado. É fundamental para a sobrevivência das organizações que estejam preparadas para liderar essa transição — ou serão apenas espectadoras da consolidação do mercado.
Para isso, é necessário estar aberto a discutir, organizar e preparar a operação para o cenário de 2040, utilizando a expertise de quem possa, de fato, contribuir nesse processo.
Emanuel Malta é economista e sócio-fundador da Vértice Consultores.