Yuka chega ao Brasil para estimular escolhas de consumo mais saudáveis
Chegada do app que soma mais de 85 milhões de usuários no mundo .conecta alimentação saudável a um debate global sobre o custo dos sistemas de saúde.
Um aplicativo internacional chega ao Brasil com a proposta de ampliar a conscientização do consumidor e ajudá-lo a escolher melhor os produtos que consome, em favor de uma alimentação mais saudável. O Yuka, criado na França e já presente em 15 países, escaneia o código de barras de alimentos, cosméticos e itens de higiene para avaliar seu impacto na saúde e estreia no país com uma base inicial de 600 mil produtos cadastrados. Segundo a empresa, a plataforma soma mais de 85 milhões de usuários no mundo.
A ferramenta atribui a cada item uma nota de 0 a 100 e uma classificação por cores, do verde ao vermelho, e sugere alternativas com melhor perfil quando a pontuação é baixa. O interesse, porém, vai além do consumidor. Má alimentação está na raiz de boa parte das doenças crônicas — obesidade, diabetes, hipertensão — que pesam sobre os custos das operadoras e sobre o orçamento da saúde pública. Toda ferramenta capaz de mudar hábitos de compra entra, portanto, no campo da prevenção, hoje pilar de qualquer sistema de saúde sustentável.
Como o Yuka avalia os produtos
A avaliação dos alimentos combina três fatores: qualidade nutricional (60% da nota), presença de aditivos (30%) e certificação orgânica (10%). A parte nutricional usa como base o Nutri-Score, sistema adotado em países europeus que pondera calorias, açúcar, sódio, gorduras saturadas, proteínas, fibras e teor de frutas e vegetais. A análise de aditivos se apoia em recomendações da Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos (EFSA) e da Agência Internacional para Pesquisa sobre o Câncer (IARC), além de estudos independentes. Em cosméticos e produtos de higiene, cada ingrediente é classificado por faixa de risco, de “sem risco identificado” a “risco elevado”.
Em cosméticos e produtos de higiene, o Yuka analisa cada ingrediente da fórmula com base em evidências científicas, avaliando fatores como potencial alergênico, irritação, desregulação endócrina, risco carcinogênico e impacto sobre a vida aquática. A partir desses critérios, os ingredientes são distribuídos em quatro categorias de risco, que vão de “sem risco identificado” a “risco elevado”.
Segundo a empresa, nenhuma marca pode pagar para alterar notas ou recomendações. A principal receita vem da versão Premium, e a companhia divulga suas fontes de receita e o balanço financeiro no próprio site — argumento central para sustentar a independência das avaliações.
“O consumidor merece acesso a informações claras e confiáveis sobre os produtos que utiliza diariamente. O Yuka foi criado para tornar essas informações mais fáceis de entender e para dar às pessoas os meios necessários para fazer escolhas com base em dados transparentes e independentes”, afirma Julie Chapon, cofundadora do Yuka.
A conta da prevenção é global
O interesse em escolhas alimentares mais saudáveis extrapola operadoras e planos: é um debate mundial sobre o custo dos sistemas de saúde. A lógica é conhecida — populações mais saudáveis desenvolvem menos comorbidades, recuperam-se melhor de doenças e cirurgias e passam menos tempo internadas, o que alivia a pressão sobre hospitais públicos e privados. A prevenção, nesse arranjo, deixa de ser discurso e vira variável econômica. Uma saúde menos custosa para empresas e pessoas.
Site da Yuka (se abrir em inglês, abra a versão em língua portuguesa (desce até o final da barra de rolagem e mude para PT a língua).
No Brasil, o terreno é fértil. Pesquisa liderada por cientistas da Universidade de São Paulo (USP) mostrou que os ultraprocessados já respondem por quase um quarto da alimentação dos brasileiros — base do avanço de doenças crônicas que consomem recursos de operadoras e do setor público. Que uma ferramenta de consumo consiga mexer nesse hábito não é evidente, mas há indícios: em estudo do próprio Yuka com mais de 20 mil usuários nos Estados Unidos, 94% deixaram de comprar itens classificados em vermelho, 92% passaram a consumir menos ultraprocessados e 88% relataram percepção de melhora na saúde. O efeito também alcança a indústria: levantamento do instituto IFOP, na França, apontou que 78% das empresas de alimentos consideram as notas do aplicativo ao desenvolver ou reformular produtos.
“O Brasil vive um movimento cada vez mais forte em torno da saúde e do bem-estar, mas muitos consumidores ainda não compreendem plenamente o que estão consumindo. Quando informações técnicas e, muitas vezes, complexas sobre ingredientes e perfis nutricionais se tornam mais acessíveis, as pessoas ganham mais autonomia para entender os rótulos e fazer escolhas mais alinhadas à sua saúde. Com o tempo, o acesso a essas informações tem o potencial de transformar hábitos de consumo”, afirma Gabriela Mourad Vicenssuto, engenheira de alimentos brasileira da equipe do Yuka.
No mundo, a plataforma reúne mais de 6 milhões de produtos cadastrados — cerca de 4 milhões de alimentos e 2 milhões de cosméticos. No Brasil, a base começa em 600 mil itens e deve crescer nos próximos meses. Não há, por ora, dado que ligue o aplicativo a redução de custos ou de sinistralidade no país. Ainda assim, para operadoras, hospitais e prestadores que apostam em prevenção e no manejo de doenças crônicas ligadas à alimentação, ferramentas que educam o consumidor tendem a somar-se às estratégias de promoção da saúde.