Estatísticas e Análises, Mundo | 11 de abril de 2016

Nos EUA, mortes para todos os cânceres baixaram, exceto para um tipo

Restrições para o tratamento de câncer de fígado ainda são muitas
Nos EUA, mortes para todos os cânceres baixou, exceto para um tipo

O Relatório Anual à Nação sobre o Estatuto do Câncer (Annual Report to the Nation on the Status of Cancer) que abrange o período entre 1975 e 2012, publicado online pelo Instituto Nacional do Câncer do Estados Unidos (NCI, National Cancer Institute), mostrou que as taxas globais de mortalidade de câncer para os homens e mulheres de todas as principais populações raciais e étnicas diminuiu 1,5% ao ano de 2003 a 2012. As taxas de incidência – novos casos diagnosticados para cada 100 mil pessoas – diminuiu entre os homens e permaneceu estável entre as mulheres durante esse período.

Conforme levantamento do portal Medscape Medical News, o relatório (veja em inglês) mostra que entre os homens, as taxas globais de mortalidade de câncer diminuiu em média de 1,8% ao ano; entre as mulheres, a queda média foi de 1,4% ao ano; e para as crianças e adolescentes com idade entre 0 a 19 anos, a média foi de 2% ao ano. No entanto, as mortes por câncer do fígado foram contra essa tendência. De acordo com o relatório, as mortes por esse tipo aumentaram 2,8% por ano nos homens e 2,2% por ano em mulheres.

Durante o período de 2008 a 2012, a taxa de incidência de câncer de fígado foi quase três vezes maior em homens do que em mulheres. Para os homens, a taxa de incidência foi de 11,5%, e para as mulheres, era de 3,9%. “Em 2012, o ano mais recente para o qual existem dados disponíveis, 28.012 pessoas foram diagnosticadas com câncer de fígado nos EUA. Destes, 20.207 eram homens e 7.805 eram mulheres”. As mortes por câncer de fígado em 2012 foram quase duas vezes maiores entre os homens: 15.563 para eles e 7.409 para elas.

O relatório NCI não considerou o câncer do pâncreas entre os mais comuns. Harvey Risch, médico epidemiologista na Escola de Medicina de Yale, que não esteve envolvido com o relatório, disse Ao portal Medscape Medical News que “a mortalidade por câncer de pâncreas é sensivelmente maior do que a mortalidade de câncer de fígado, o que tem aumentado e continua a aumentar, e será superior a mortalidade por câncer de fígado daqui a uma década”.

Infecção por vírus da Hepatite C, um importante fator de risco

O relatório aponta para um grande fator de risco para câncer de fígado: a infecção pelo vírus da hepatite C. A incidência de novas infecções atingiu o pico na década de 1960 até 1980, antes de o vírus ser descoberto e as medidas preventivas serem tomadas.

O relatório constatou que as taxas de incidência de câncer de fígado foram maiores entre os denominados baby boomers (pessoas nascidas logo após a II Guerra Mundial, durante uma explosão populacional) do que entre os nascidos em outros períodos. “Outra causa determinante para o câncer de fígado listada no relatório é a cirrose. Fatores de risco para a cirrose incluem o consumo abusivo de álcool, obesidade e diabetes tipo 2”.

Infecção pelo vírus da hepatite B também aumenta o risco de câncer de fígado. É um fator de risco comum entre as populações da Ásia e das Ilhas do Pacífico, especialmente entre asiáticos. “Felizmente, as taxas de infecção pelo vírus da hepatite B estão em declínio em todo o mundo, devido ao aumento de vacinas para a hepatite B para crianças desde o nascimento”, de acordo com o relatório.

Medicamentos muito caros

Dr. Risch explica que “pelo menos metade dos cânceres de fígado nos EUA é associada à infecção pelo vírus da hepatite C, assim, o tratamento deve ser realizado o mais cedo possível para reduzir o risco de câncer de fígado”. Os custos atuais do tratamento são muito caros, entre US$ 30 mil e US$ 40 mil. “A estes preços (altos) é pouco provável que a redução substancial na incidência de câncer de fígado ocorra”, reflete o especialista.

Dr. Srinivas Reddy, do Instituto Roswell Park Cancer, concorda que o custo “proibitivo” dos medicamentos é um fator para o aumento das mortes de câncer de fígado. “A incidência está aumentando e isso é devido a uma elevada prevalência de hepatite C e a incapacidade de muitas pessoas terem acesso aos novos medicamentos que são usados ​​para o tratamento. Por isso, mesmo tendo esses novos tratamentos para a hepatite C, não se espera que a prevalência da doença vá cair até 2025″, disse Dr. Reddy em abordagem do Medscape Medical News.

A segunda questão, segundo o especialista, é que “estamos descobrindo rapidamente que, na verdade, a doença de fígado mais comum nos EUA e no resto do mundo é a doença hepática gordurosa. Em breve, talvez até mesmo nos próximos 5 a 10 anos, isso será realmente a causa mais comum de câncer de fígado primário e a causa mais comum de cirrose”. A doença hepática gordurosa é a manifestação da síndrome metabólica no fígado, explica o Dr. Reddy.

“Assim como outros elementos da síndrome metabólica, tais como obesidade e diabetes, a doença hepática gordurosa não mostra perspectivas de declínio, e, na verdade, vai continuar aumentando no futuro. Há uma pequena porcentagem de pacientes que podem desenvolver a inflamação de gordura no fígado, e isso é o que pode levar à cirrose e ao câncer de fígado primário”. Por fim, Dr. Reddy lembra a falta de boas opções de tratamento para câncer de fígado. A prevenção deve ser aplicada sistemicamente como política pública.

“Ao contrário do câncer de cólon e de mama, por exemplo, não temos muito boas opções de tratamento por quimioterapia, e a única chance de cura a longo prazo para esses pacientes é a cirurgia. O problema é que muitas vezes, a doença é diagnosticada tarde demais, quando a cirurgia não é possível. Muitas vezes, não há sintomas iniciais de câncer de fígado”. O fato de ser um órgão muito resistente, torna-se (ao mesmo tempo) o benefício e a maldição do fígado. “Assim, por um lado, o fígado pode compensar uma grande massa sem causar quaisquer sintomas de insuficiência hepática mas, por outro lado, isso significa que, muitas vezes, essas massas podem continuar crescendo sem o conhecimento do paciente até que seja tarde demais para fazer qualquer coisa do ponto de vista cirúrgico”, destaca.

Assim, tomados em conjunto, todos esses fatores, a necessabilidade a medicamentos para tratar a doença, o aumento da doença do fígado gorduroso, o fato de que não haver uma boa quimioterapia para câncer de fígado, além de que, uma vez que os diagnósticos ocorrem demasiadamente tarde para tratá-los, “tudo contribui para o aumento das mortes de câncer de fígado”, conclui Dr Reddy.

Cenário brasileiro

O câncer é hoje a segunda causa de morte no Brasil e no mundo, atrás apenas das doenças cardiovasculares. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), em 2030, a estimativa é de 27 milhões de novos casos da doença, 17 milhões de mortes por câncer e 75 milhões de pessoas com a enfermidade.

Dados do Instituto Nacional do Câncer (Inca) indicam que, em 2016, deverá ocorrer 596 mil casos da doença. Os tipos mais incidentes no país serão os cânceres de pele não melanoma, próstata, pulmão, cólon, reto e estômago (para o sexo masculino); e os cânceres de pele não melanoma, mama, colo do útero, cólon e reto e glândula tireoide (para o sexo feminino).

O câncer de fígado não consta no Brasil entre os dez mais incidentes, segundo dados obtidos dos Registros de Base Populacional existentes. Assim como ocorre nos EUA, o câncer de fígado é diagnosticado com mais frequência em homens do que em mulheres. O risco é de cerca de 1 em 81 em homens, e para mulheres é de cerca de 1 em 196. A idade média no momento do diagnóstico do câncer de fígado é 63 anos. Mais de 95% das pessoas diagnosticadas com câncer de fígado tem mais de 45 anos. Cerca de 3% tem entre 35 e 44 anos e cerca de 2% tem menos de 35 anos.

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