Gestão e Qualidade | 8 de janeiro de 2024

Ciclo estratégico da Santa Casa de Porto Alegre foca em sustentabilidade, qualidade, inovação e desenvolvimento

Após a inauguração do Hospital Nora Teixeira no final de 2023, o Diretor Geral Júlio Matos anuncia uma série de novos projetos para este ano.
Ciclo estratégico da Santa Casa prioriza sustentabilidade, qualidade, inovação e desenvolvimento

Para a Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre o ano de 2023 vai ficar marcado na sua trajetória pela inauguração do Hospital Nora Teixeira e pelas comemorações dos 220 anos da instituição. Além de salvar vidas, o moderno complexo de saúde tem o importante papel de contribuir para a sustentação econômica dos hospitais da Santa Casa que prestam serviços aos usuários do Sistema Único de Saúde. “Vejo que este é o grande movimento estratégico que fizemos no sentido de ser viável a manutenção de nossa função social, inarredável desde nossa fundação há 220 anos, aliada à fundamental sustentabilidade econômico-financeira, que assegurará, pelos próximos anos, a continuidade do volume e da qualidade do atendimento prestado aos pacientes do SUS”, destaca Júlio Matos, Diretor Geral da Santa Casa e o oitavo participante da série especial de entrevistas com executivos de hospitais, operadoras e clínicas do Brasil.

Como descreve Matos,”2023 foi um ano especialmente positivo” para a Santa Casa. Além da entrega do novo hospital, a instituição consolidou o seu Centro de Pesquisa e fechou uma parceria com a Unisinos, instituição de ensino superior reconhecida pela qualidade acadêmica. Ainda na área de educação, as atividades da Escola Técnica Santa Casa tiveram o pontapé inicial no ano que passou. E na gestão, mudanças realizadas no organograma possibilitaram o avanço no tema da governança.


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O ciclo estratégico da Santa Casa está estruturado em quatro vertentes: sustentabilidade, qualidade, inovação e desenvolvimento. Matos detalhou algumas prioridades para 2024: a reforma e modernização do Hospital Dom Vicente Scherer, a continuidade das obras de áreas SUS do Hospital Santa Rita, a criação de uma departamento específico para o relacionamento com o mercado, investimentos no parque tecnológico, assim como ações para favorecer a transformação digital. A inovação seguirá ganhando protagonismo. “Há um impacto enorme [da inovação] em todas as nossas áreas, seja nas atividades administrativas ou assistenciais”, explica Matos. O Diretor Geral também fala da parceria com o Einstein na área de oncologia, aborda o papel do Escritório de Valor e o Jeito Santa Casa de Ser, discorre sobre os gargalos da saúde, detalha indicadores e reconhecimentos e analisa as tendências e inovações que impactam atualmente ou impactarão a saúde nos próximos anos. Na parte final da entrevista Matos faz um agradecimento especial a todos que contribuem para o progresso da saúde auxiliando o trabalho da Santa Casa e de suas equipes. Leia a entrevista completa.

2024: um ano de concretizações  

“Há mais de dois séculos, a Santa Casa desempenha um papel de extrema importância na promoção da saúde da população. Primeiro hospital do Rio Grande do Sul, a Santa Casa nasceu como uma instituição assistencial com o propósito de cuidar de todos, quando a capital dos gaúchos tinha apenas 3,9 mil habitantes, e se tornou um complexo hospitalar de referência de medicina de alta complexidade, responsável pelo atendimento de pacientes não só do Estado, como de todo o Brasil”, inicia.

“Sempre atenta às mudanças na área da Saúde, nesses 220 anos evoluiu como instituição sem deixar de oferecer assistência de qualidade para pacientes de todas as classes sociais, missão presente desde sua origem. Hoje, somos o maior prestador de serviços do SUS no Rio Grande do Sul e figuramos entre os cinco maiores do país”, completa Matos.

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“Faço essa introdução para dizer que uma longa trajetória – exitosa, podemos afirmar – é construída ano a ano, a partir de valores e princípios sólidos, compartilhados com a sociedade, que é fundamental em toda a sua pluralidade para o êxito de todos os nossos projetos.”

“De maneira geral, este é um ano a ser comemorado. Na realidade, é difícil olharmos apenas para os últimos 12 meses, uma vez que, na prática, é unicamente o período em que concluímos uma série de movimentos estruturantes que vêm sendo desenvolvidos ao longo dos últimos anos. Eu diria que 2023 foi um ano especialmente positivo, pois é sempre importante para as instituições concluírem ciclos de desenvolvimento que darão as condições de sustentabilidade para o negócio para os próximos anos. Neste caso, um ciclo especialmente significativo pela dimensão das obras e intervenções colocadas em prática, que terão impacto fundamental na sustentabilidade econômica da Instituição frente a um déficit do SUS que há muito demandava um equacionamento mais perene.”


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“No campo do ensino e da pesquisa, consolidamos nosso novo Centro Multidisciplinar de Pesquisa Clínica, concentrando em uma área corporativa todo o vasto número de iniciativas de pesquisa. São trabalhos e estudos de diversas áreas que podem, num futuro próximo, se incorporarem aos processos assistenciais ou, até mesmo, tornarem-se novas fontes de receitas, como o desenvolvimento de novas drogas e medicamentos em parceria com outras instituições e laboratórios públicos e privados”, vislumbra.

“Outro avanço importante dá conta da consolidação da condição de hospital de ensino do Hospital Dom João Becker. Numa parceria com a Unisinos, é uma ação que visa melhorar a eficiência assistencial da Instituição, que tem fundamental alcance social para o município de Gravataí e região.”

“Além disso, lançamos a Escola Técnica Santa Casa, a materialização de um importante projeto para uma instituição tradicionalmente direcionada ao ensino, em todos os níveis de formação, aspecto fundamental, assim como a pesquisa, para a assistência integral em saúde. Com a escola, consolidamos ainda mais nossa atuação na área do ensino e, da forma como iniciamos nossas atividades, ainda conseguimos dar amplitude no papel social da instituição, abrindo oportunidades para a qualificação e acesso ao mercado de trabalho da saúde para 150 pessoas através de cursos de qualificação oferecidos gratuitamente, somando-se aos cursos técnicos em diversas áreas de formação em saúde.”

“Em infraestrutura, diversas reformas, modernizações e novas edificações tiveram suas etapas conclusivas neste ano, dentre as quais podemos citar algumas entregas importantes, naturalmente iniciando pelo Hospital Nora Teixeira, já mencionado como estratégico para a sustentabilidade da instituição à longo prazo. Em torno deste, outras obras foram concluídas e mudaram integralmente a fotografia interna da instituição, como a Praça Alexandre Grendene, o novo hall de acesso ao Hospital São Francisco e a rua coberta, somando-se ainda a isto o novo sistema de acessibilidade – passarelas que interligam todos os hospitais, facilitando sobremaneira a circulação das 25 mil pessoas, em média, que diariamente transitam pela Santa Casa, entre pacientes, familiares e colaboradores”, pontua o Diretor Geral da Santa Casa de Porto Alegre.

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“Mas há outras também muito significativas aqui nos hospitais da matriz, em Porto Alegre, como as novas Unidade de Diálise do Santa Clara e UTI do Santa Rita, dedicada a pacientes oncológicos, e a reforma da Área de Relacionamento com Corpo Clínico e Convívio Médico. Já em Gravataí, no Hospital Dom João Becker, tivemos a duplicação da UTI, a estruturação de uma nova área de endoscopia e cardiodiagnóstico e, ainda em andamento, a ampliação da Emergência SUS, uma obra há muito esperada pela população do município e viabilizada em parceria com aquele município e governo do estado.”

“No terreno assistencial, tivemos números perfeitamente alinhados com nosso planejamento, tendo até mesmo superado as expectativas em alguns aspectos agora nos meses finais do ano, quando já tivemos alguns incrementos de receitas por conta da finalização de algumas obras, com ampliação da capacidade de atendimento, e também melhoria da produtividade em algumas áreas importantes”, comemora Matos.

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“Vale mencionar também outras conquistas que são motivo de orgulho para a Instituição neste ano que finda. Nosso provedor, dr. Alfredo Englert (no centro, foto acima), grande condutor deste ciclo de desenvolvimento vivido pela Santa Casa nos últimos anos, recebeu da Assembleia Legislativa do Estado do RS a Medalha do Mérito Farroupilha, reconhecimento que tem a chancela e é motivo de orgulho para todos nós, bem como o título de Doutor Honoris Causa agraciado pela Universidade La Salle como reconhecimento ao impacto social da trajetória profissional e pessoal do nosso provedor. E também vale mencionar homenagens recebidas pela Santa Casa, pelos seus 220 anos, de instituições como o Ministério Público Estadual, a Federasul, Assembleia Legislativa do Estado, Câmara dos Vereadores de Porto Alegre e Associação Comercial.”

“Por último, mas não menos importante, quero mencionar importantes avanços que tivemos em nossos processos de governança ao longo do último ano. Foram redefinições em nosso organograma e alinhamentos funcionais que garantirão a otimização de processos, a segurança institucional e, sobretudo, a transparência da gestão, valor que nos é mais caro a cada ano que passa desta longa história de 220 anos.”


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Principais investimentos de 2024

“No terreno administrativo, temos aprimorado nossas práticas com a permanente avaliação da estrutura e dos processos de gestão, o que julgamos essencial para a governança da instituição como um todo. Neste sentido, projetamos dar uma atenção especial às práticas ESG, muito mais no sentido de mapear e classificar as ações e projetos que há muito realizamos a partir desta sistemática, o que nos permitirá a comparação e o balizamento com outros grandes players do mercado, além do direcionamento de novos investimentos que possam nos alinhar às melhores práticas ESG.”

“Em termos de infraestrutura, daremos início às obras de reforma e modernização do Dom Vicente Scherer, nossa unidade hospitalar especializada em transplantes, adequando a atual estrutura às novas demandas assistenciais e tecnológicas requeridas com a evolução da especialidade nos últimos anos. Como é de conhecimento público, tivemos a doação de R$ 36 milhões do casal Nora Teixeira e Alexandre Grendene para o início deste projeto, salientando que a nossa benfeitora também está capitaneando uma campanha de arrecadação para atingirmos o valor integral do projeto, orçado em R$ 70 milhões”, pontua Matos.

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“Também terão continuidade as obras das áreas SUS do Hospital Santa Rita – internação, ambulatório, quimioterapia e farmácia – bem como a realocação do laboratório de patologia, custeados com recursos da bancada federal gaúcha e do Tribunal de Justiça do RS, mediante convênio com a Secretaria Estadual da Saúde. Além disso, deveremos concluir, ainda no primeiro semestre de 2024, o novo bloco cirúrgico do Hospital Nora Teixeira e a reforma e ampliação da central de materiais e esterilização, ambas visando atender o crescimento das demandas projetado para o futuro próximo.”

“Com relação a novas tecnologias, podemos afirmar que estamos rigorosamente alinhados aos melhores hospitais do Estado e do país, entretanto este é um aspecto extremamente dinâmico e estaremos sempre abertos a novos investimentos e adequação do nosso parque tecnológico. Aliás, esta é sempre uma questão importante na elaboração de planos orçamentários e investimentos, pois as tecnologias médicas demandam permanente atualização, sob pena de obsolescência e perda de competitividade no mercado. A grosso modo, falamos em algo em torno de R$ 50 milhões de investimentos anuais”, adiciona.

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“Isso sem mencionar o processo de transformação digital pelo qual a maioria das instituições está passando, colocando figurativamente, na palma da mão – com aplicativos e soluções digitais – inúmeros processos que há pouco eram exclusivamente do mundo físico.”

“Um outro aspecto que deverá ser amplificado está no âmbito do relacionamento com o mercado. Nos últimos anos, fizemos adequações estruturais importantes, com a criação de uma área específica para este fim, que integra aspectos comerciais, inteligência de mercado e qualidade, dando a abrangência necessária para entender e acompanhar os movimentos e a dinâmica de mudanças do setor”, completa.

“Por último, há uma área cujos investimentos são fundamentais hoje em dia e que também será objeto de atenção de nossa parte: a inovação. Desde 2018, quando abrimos, em parceria com a Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre, o nosso Centro de Inovação, esta tem ganhado centralidade em nossa organização. Mesmo sem os números consolidados deste exercício, posso afirmar que há um impacto enorme em todas as nossas áreas, seja nas atividades administrativas ou assistenciais, das soluções inovadoras incorporadas aos processos, com ganhos incrementais absolutamente fundamentais para os nossos resultados.”

“Até o mês de setembro, estimamos um custo evitado: R$ 6.760.850,00, com algo em torno de 90 mil vidas impactadas. São 15 projetos entregues até o momento, com mais 5 em andamento para entrega até o final do ano, totalizando 21 projetos até dezembro de 2023. Além disso, vale mencionar que firmamos 4 acordos de colaboração com startups, as chamadas healthtechs do mercado da saúde.”

“E, embora sejam números auspiciosos, vejo que o mais importante é estarmos disseminando em toda a organização a cultura da inovação. Nos dois últimos anos, formamos duas turmas de profissionais, das mais diversas áreas, em Gestão da Inovação, cursos com 20 horas de duração ao longo do exercício, além das horas dedicadas para elaboração de um projeto de inovação para a instituição. Ao todo, já são mais de 170 colaboradores que atuam como verdadeiros multiplicadores da cultura da inovação em toda a organização.”

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Eficiência, função social, sustentabilidade econômico-financeira e integração com a Rede Einstein de Oncologia e Hematologia

“Lembro que todo o projeto do Hospital Nora Teixeira teve origem em duas necessidades determinantes: a disponibilidade de uma nova Emergência dedicada aos usuários do Sistema Único de Saúde a ampliação da capacidade de sustentabilidade do Sistema Único de Saúde como um todo na instituição”, recorda o Diretor Geral da Santa Casa.

“A integração da nova estrutura com os outros centros de excelência médica e assistencial já reconhecidos em nossos outros sete hospitais – nas especialidades de cardiologia, neurologia e neurocirurgia, pediatria, ginecologia e obstetrícia, pneumologia e cirurgia torácica, oncologia e transplantes – consolida um conceito há muito por nós idealizado: a cidade da saúde.”

“Sendo assim, vejo que este é o grande movimento estratégico que fizemos no sentido de ser viável a manutenção de nossa função social, inarredável desde nossa fundação há 220 anos, aliada à fundamental sustentabilidade econômico-financeira, que assegurará, pelos próximos anos, a continuidade do volume e da qualidade do atendimento prestado aos pacientes do SUS”, entende Matos.

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“Em termos objetivos, hoje temos um cenário com um déficit anual superior a R$ 150 milhões pelo atendimento aos pacientes do Sistema Único de Saúde. Quando em pleno funcionamento, projetamos novas receitas geradas pelo Hospital Nora Teixeira, com o atendimento de pacientes particulares e de convênios, na ordem de R$ 100 milhões ao ano, o que representará um fôlego financeiro para novos investimentos, conforme já colocado.”

“Mas há outro ponto bem importante nesta pergunta, a questão dos ganhos de eficiência e produtividade. Na realidade, não é possível uma organização moderna manter-se competitiva sem um olhar permanente para estes aspectos. Em um mercado de altos custos fixos e margens cada vez mais enxutas como a saúde, então, essa questão ganha contornos de sobrevivência, uma vez que é fundamental a otimização dos recursos existentes, especialmente aumentando as taxas de ocupação de leitos e equipamentos, ganhos de eficiência e produtividade.”

“Neste sentido, devo dizer que temos trabalhado a questão de forma bastante ampla, especialmente naquilo que tange à incorporação de novas tecnologias, equipamentos, processos e inovações incrementais que geram a redução de custos e/ou incremento de receitas.”

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Um bom exemplo destes movimentos é a integração das unidades de tratamento de câncer da Santa Casa à Rede Einstein de Oncologia e Hematologia, modelo de atuação do Hospital Israelita Albert Einstein, de São Paulo, para troca de conhecimento, inovações, tecnologias e protocolos assistenciais na área, além de boas práticas de gestão. “Com o intercâmbio de informações e experiências, a integração irá ampliar as possibilidades de atuação dos profissionais da Santa Casa nos atendimentos de pacientes do Hospital Santa Rita, unidade especializada em oncologia da instituição, e do Centro de Oncologia do Hospital Nora Teixeira.”

“Além de permitir o aprimoramento das práticas médicas e assistenciais na área de oncologia, a integração será fundamental na promoção de atividades de ensino e pesquisa, com a possibilidade de realização conjunta de estudos clínicos. A partir da experiência de ambas as instituições, o objetivo é trabalhar pelo desenvolvimento técnico-científico do tratamento oncológico, contribuindo para o aperfeiçoamento dos serviços de saúde em todo país”, adiciona.

 Diretrizes estipuladas para o ciclo 2024: gestão e assistência

O Hospital Nora Teixeira também impõe desafios. “O próximo ano será o segundo deste ciclo estratégico iniciado em 2023, cujos temas estratégicos são sustentabilidade, qualidade, inovação e desenvolvimento, e vamos colocar todos os esforços em dar continuidade às diretrizes atreladas a estes. 2024 será o ano em que o Hospital Nora Teixeira gradualmente terá a plenitude de seus serviços em funcionamento. Isto quer dizer que, se por um lado representará um importante incremento de receitas, por outro demandará um esforço conjunto de toda a instituição, uma vez que deverá haver uma perfeita integração com todas as outras unidades assistenciais e de apoio do complexo hospitalar.”

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“De maneira geral, em termos de gestão, nosso objetivo estará muito centrado na consolidação dos mais de R$ 600 milhões investidos nos últimos anos, cuja plenitude dos resultados projetados ainda depende do aprimoramento de processos e na perfeita integração dos novos projetos e estruturas com o todo de nosso complexo hospitalar.”

“Ao mesmo tempo, como já referido anteriormente, continuaremos buscando inovações incrementais que possam se enquadrar em todos os nossos os processos, sejam administrativos ou assistenciais, para ganhos de produtividade e segurança assistencial, aquilo que se poderia chamar de fazer mais com menos”, reforça Matos.

“Outro aspecto que vale mencionar é a diretriz de ampliação de nossos mercados, dando ênfase a novas parcerias e integrações horizontais no mais amplo escopo. Há um mercado ávido por novas soluções e alianças que tragam benefícios para todas as partes.”

“E, claro, não se pode deixar de mencionar as pessoas, um grande contingente de profissionais que faz, inventa e reinventa a Santa Casa diariamente. Nosso objetivo é, incisivamente, ampliar o foco no treinamento e qualificação de nossos profissionais. Formar para fazer cada vez melhor, fazer com o Jeito Santa Casa de Ser”, afirma o executivo.

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“No que diz respeito mais especificamente ao terreno assistencial, terá ênfase ainda maior um conceito que sempre esteve presente na Santa Casa, mas que mais recentemente viveu um processo de profissionalização, com a estruturação do chamado Escritório de Valor, e ganhou um olhar mais estratégico: a “experiência do paciente” como um valor que perpassa toda a instituição, até mesmo as áreas consideradas “meio”.”

“Implementado em fevereiro de 2022, o Escritório de Valor tem como missão “entregar cuidado qualificado com ênfase nas expectativas e necessidades dos pacientes e familiares”. Na prática, para que esse objetivo fosse alcançado, definimos inicialmente as linhas de cuidado prioritárias, as quais foram exaustivamente revisitadas pelas equipes multiprofissionais, visando maior eficiência dos processos e melhora da entrega de resultados médico-assistenciais a partir da identificação dos principais pontos críticos e elaboração de planos de ação conjuntos.”

De acordo com Matos: “apoiado por outros setores, como inovação e relações comerciais, mas principalmente pela qualidade e segurança assistencial, o Escritório de Valor atua no redesenho de jornadas de cuidado para modelos médicos baseado em valor.”

Santa Casa de Porto Alegre anuncia integração com a Rede Einstein de Oncologia e Hematologia

Ele exemplifica: “Para se ter uma ideia da amplitude do trabalho, atualmente são monitorados mais de 5 mil pacientes que estão vinculados a 8 linhas de cuidado. Dentre os benefícios alcançados através das atividades desenvolvidas na área da oncologia, por exemplo, posso citar a diminuição do número de visitas à emergência de pacientes com câncer de mama (<3% em +2.000 intervenções), diminuição do tempo entre diagnóstico e início de tratamento do câncer de mama (mediana de 83 dias para 53 no SUS – comparação out/22 e out/23).”

“Na linha de cuidado da Síndrome Metabólica, obtivemos um crescimento financeiro de 105% (comparação jan/23 com nov/23), aumento da taxa de ocupação dos ambulatórios em 30% e o índice de satisfação do paciente (NPS) passou de 64 para 93 pontos. o que fez com que houvesse um reposicionamento de mercado do Centro de Tratamento da Obesidade.”

“Doenças tempo dependentes, como o AVC e o infarto agudo do miocárdio, também têm seus protocolos gerenciados, casos discutidos em round semanais e indicadores analisados em reuniões mensais”, explica.

“Outra área vinculada ao escritório de valor é o núcleo de navegação de pacientes. Atualmente, mais de 300 pacientes são navegados por enfermeiras que apoiam nas barreiras encontradas por eles durante os seus tratamentos para câncer de mama e pulmão, cirurgia de coluna e esclerose múltipla”, continua.

“Ao colocarmos como ponto focal de toda a organização a necessidade de melhoraria contínua da experiência do paciente, visamos incorporar este valor cada vez mais à cultura organizacional, um conjunto de valores e comportamentos ao qual chamamos Jeito Santa Casa de Ser, já mencionado anteriormente.”

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“Na Santa Casa adotamos o conceito de que a experiência humana é o somatório da experiência do paciente e sua família, da experiência dos colaboradores e corpo clínico, do cuidado centrado, mas acima de tudo dos desfechos assistenciais de alta qualidade. Nesse sentido, para o ano de 2024 está prevista a manutenção dos treinamentos dos colaboradores em experiência do paciente, somando-se aos 6,6 mil colaboradores já treinados, a criação do Conselho Consultivo de Pacientes, a expansão do Projeto Conexão afetiva, em que nossos colaboradores perguntam diariamente aos pacientes o que importa para eles, e o desdobramento das ações elencadas no Planejamento Estratégico de Experiência do Paciente, desenvolvido pelo Time de Governança e pelo Time executivo, líderes da experiência, no ano de 2023.”

“Outro ponto que vale mencionar é a geração de indicadores, fundamental para o acompanhamento e gestão dos processos. Desde 2022, implementamos a pesquisa de satisfação através da Plataforma HFOCUS, com uma meta institucional pactuada para 2023 de 75 pontos no Net Promoter Score (NPS). Considerando que em novembro de 2023 essa meta foi alcançada, o desafio para 2024 será o atingimento de pelo menos 78 pontos na escala”, projeta.

“Este é um desafio que envolverá a revisão e aprimoramento de protocolos médico assistenciais e reforço nos treinamentos assistenciais, com atenção especial a execução do plano terapêutico e as seis metas internacionais de segurança do paciente, além da incorporação de novas tecnologias visando uma melhor eficiência operacional e melhores desfechos clínicos.”

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A Santa Casa diante das tendências e/ou inovações

“Vejo que há tendências que já estão em curso como, por exemplo, o uso da robótica em diversas atividades médicas, que já demonstram ganhos de eficiência com menor invasividade e desospitalização mais rápida, e a telemedicina, agora já regulamentada e em prática a partir da sua utilização emergencial na pandemia,” afirma.

“Ao mesmo tempo, talvez estejamos às portas daquilo que pode realmente ser a grande revolução, não só da medicina e da área da saúde, mas de todas as áreas profissionais, que é o uso da inteligência artificial de forma massificada, como já vemos com o ChatGPT e outras ferramentas do gênero disponíveis ao grande público.”

“E acho fundamental citar novamente a formação de alianças, parcerias e integrações que irão maximizar os recursos existentes e atender de forma mais racional e resolutiva os usuários de todo o sistema de saúde suplementar, além de trazer resultados para todos os players envolvidos”, complementa.

Santa Casa de Porto Alegre inaugura novas estruturas de Diálise e UTI oncológica

Gargalos e ineficiências que devem ser foco de atenção dos governos e das organizações de saúde em 2024

“No que tange aos gargalos, há algumas questões que surpreendentemente são recorrentes e não temos conseguido, como sociedade, equacionarmos e encontrarmos soluções mais perenes. E talvez a maior delas seja o subfinanciamento do SUS, que há 30 anos é uma pauta recorrentemente alvo de muito debate e pouca solução.”

“O que é um paradoxo, pois talvez seja o mais abrangente e mais complexo sistema de saúde pública do mundo, atendendo mais de 160 milhões de pessoas, e assim mesmo não encontramos uma forma de financiá-lo adequadamente. E já está muito claro que isso gera uma grande pressão sobre os prestadores de serviços ao SUS, dentre os quais está a rede de Santa Casas e hospitais filantrópicos que, ano a ano, ampliam seu endividamento e estressam seus recursos e seu crédito para viabilizar a manutenção do atendimento a milhões de pacientes do SUS, algo em torno de 70% de todo os 160 milhões de segurados que dele dependem como única alternativa de assistência à saúde”, analisa.

“No caso do nosso estado, embora tenha havido alguns movimentos positivos neste ano que se encerra, será preciso também um avanço em todo o modelo estrutural do IPE-Saúde [autarquia com 1 milhão de beneficiários, composta por funcionários do Governo do
Estado do RS], uma vez que dele dependem milhões de gaúchos”, pontua.

Para Matos, há uma falta de planejamento da saúde para o longo prazo. “Ao invés de políticas de estado, temos políticas de governos, que são transitórios. Vista disso é o fato de que tivemos 31 ministros da saúde nos últimos 30 anos.”

Com modelo assistencial e tecnologias de ponta, Hospital Nora Teixeira tem o olhar para o futuro da Santa Casa

“Ao mesmo tempo, há alguns outros gargalos nos quais deveríamos colocar celeridade, tais como a migração dos modelos de remuneração do fee for service para o fee for value, o aumento dos investimentos em pesquisas, o maior apoio do estado à inovação na cadeia da saúde, um debate mais resolutivo sobre as questões dos pisos salariais, em especial no que tange à definição das fontes de custeio, e também sobre o rol taxativo / exemplificativo da ANS, bem como levar a termo o interminável debate acerca da judicialização na saúde, que anualmente  consome de forma errática – e muitas vezes injusta – importantes recursos público da saúde.”

“Em outra frente, no campo dos serviços de saúde complementar, há também uma série de ajustes e avanços na agenda, os quais deverão ser negociados e equacionados entre operadoras e prestadores de serviços de saúde no sentido de viabilizarmos reduções nos custos, remuneração mais justa e, sobretudo, mais eficiência do sistema e maior satisfação dos usuários”, defende o Diretor Geral da Santa Casa.

“Com relação àquilo que podemos classificar de ineficiências, vejo questões importantes tanto no setor público quanto privado. Por exemplo, colocar-se foco e investimento em atenção primária e prevenção de doenças seria uma forma objetiva de diminuirmos a pressão sobre as instituições terciárias e todo um conjunto de altos custos operacionais ali presentes. Neste mesmo sentido, a ampliação das parcerias público-privadas também poderia representar ganhos de eficiência e qualidade em todos os níveis assistenciais, a exemplo de experiências já em curso, como as UBSs de Porto Alegre, cujos ganhos de produtividade são claramente demonstráveis.”

“No plano nacional, destaco mais uma vez a necessidade de um planejamento de longo prazo, no qual poderíamos ampliar o escopo atual do setor, com investimentos em um polo industrial da saúde nacional e no desenvolvimento de mecanismos para a produção de insumos e equipamentos no Brasil, também uma forma de minimizar custos pelo ganho em escala a partir da ação sinérgica de todo o ecossistema da saúde, estejamos falando de saúde pública ou privada”, argumenta.

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Agradecimentos

“Gostaria primeiramente de agradecer a toda a comunidade da nossa Santa Casa – colegas da diretoria, colaboradores, médicos, residentes, estagiários, pacientes, familiares, empresas terceirizadas e voluntários – pelas conquistas e resultados alcançados em 2023.”

“Este foi um ano especialmente repleto de desafios, somente alcançados, e até mesmo superados, pelo esforço de cada um dos 15 mil profissionais que laboram diariamente por esta que agora chamamos Cidade da Saúde.”

“Também aproveito para agradecer novamente a todos – pessoas físicas, empresas, instituições públicas e privadas, governos municipal, estadual e federal e bancadas municipal, estadual e federal – que, por meio de doações, verbas públicas ou emendas parlamentares, viabilizaram recursos fundamentais para as entregas realizadas em 2023”, completa.

“Que em 2024 possamos avançar, como sociedade, na melhoria das condições de vida e da assistência à saúde das populações mais necessitadas, pois somente assim teremos um país mais justo e igualitário”, finaliza Matos.

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