Há uma relação comprovada entre liderança eficaz e boas noites de sono
Artigo ressalta a importância de dormir bem para uma gestão competente
Em uma sociedade hiper-conectada, muitos estão perdendo a capacidade de ter uma boa rotina de sono. Uma pesquisa publicada na Harvard Business Review, com mais de 180 líderes empresariais, descobriu que quatro em cada 10 entrevistados (43%) dizem que não têm um sono suficientemente bom em, pelo menos, quatro noites por semana. Isso pode prejudicar importantes formas de comportamento de liderança e desempenho.
Um artigo assinado por dois especialistas em sono da empresa holandesa de consultoria McKinsey’s, Nick van Dam (professor nas Universidades da Pensilvânia, Harvard e Nyenrode University Business) e Els van der Helm (especialista do sono e pesquisadora na Harvard Medical School e na Universidade da Califórnia), analisa a ligação entre o sono e a gestão, antes de discutir soluções que podem melhorar o bem-estar individual e a eficácia organizacional.
A ligação entre o sono e liderança organizacional
A última parte do nosso cérebro a evoluir foi o neocórtex, responsável por funções como percepção sensorial, comandos motores e idioma. A parte frontal do neocórtex (córtex pré-frontal) orienta o que os psicólogos chamam de “funcionamento executivo”, incluindo todos os principais processos cognitivos, tais como resolução de problemas, raciocínio, organização, inibição, planejamento e execução de planos.
“Há muito tempo se sabe que todo o comportamento de liderança se baseia em pelo menos uma (e muitas vezes mais de uma) destas funções executivas e, por conseguinte, em particular, sobre o córtex pré-frontal”, afirma o artigo. Os neurocientistas sabem que, embora outras áreas do cérebro podem funcionar relativamente bem com muito pouco tempo de sono, o córtex pré-frontal não pode. Habilidades visuais e motoras básicas deterioram-se quando as pessoas são privadas de sono, mas nada comparável ao que ocorre com as habilidades mais executivas.
Pesquisas anteriores da McKinsey já haviam mostrado uma forte correlação entre o desempenho de liderança e a saúde organizacional. Em uma pesquisa com 81 organizações e 189 mil pessoas em todo o mundo, os investigadores descobriram que quatro tipos de comportamento de liderança são mais comumente associados a equipes de executivos de alta qualidade: atuar com uma forte orientação para resultados; resolver problemas de forma eficaz; buscar diferentes perspectivas; apoiar os outros colegas/funcionários. “O impressionante em todos os quatro casos é a relação comprovada entre o sono e liderança eficaz”, diz o artigo da Harvard Business Review.
Atuar com uma forte orientação para resultados
Para isso, é importante se concentrar e evitar distrações. Ao mesmo tempo, é preciso analisar o cenário de forma ampla (ou seja, se a sua empresa está caminhando na direção certa). A privação de sono prejudica a capacidade de focar a atenção seletivamente: a pesquisa mostra que, após cerca de 17 a 19 horas de vigília (por exemplo, entre as 23h e à 1h para alguém que acordou às 6h), o desempenho individual em uma série de tarefas é equivalente à de uma pessoa com um nível de álcool no sangue de 0,05%. Após cerca de 20 horas de vigília, o desempenho dessa mesma pessoa é igual à de alguém com um nível de álcool no sangue de 0,1%, o que se enquadra na definição legal de bêbado nos EUA.
Resolver problemas de forma eficaz
O sono é benéfico para uma série de funções cognitivas que ajudam a resolver problemas de forma eficaz, incluindo a percepção, o reconhecimento de padrões e a capacidade de avançar com ideias inovadoras e criativas. Um estudo mostrou que uma boa noite de sono leva à novas percepções: os participantes que dormiram bem tiveram o dobro de chances de descobrir um atalho escondido em uma tarefa, em comparação com aqueles que não descansaram devidamente. Da mesma forma, um cochilo à tarde foi comprovado como fator que ajuda na resolução criativa de problemas. Indivíduos que fizeram uma sesta depois de enfrentar um problema de vídeo game estavam quase duas vezes mais propensos a resolvê-lo, em comparação aos sujeitos que tinham ficado acordados. Outra pesquisa demonstrou que o pensamento criativo é especialmente incentivado a funcionar durante o sonho, reforçando a integração de informações não-associadas e às soluções criativas.
Buscar diferentes perspectivas
A gama de estudos científicos tem destacado o impacto do sono em todas as três fases do processo de aprendizagem: antes de aprendizagem, para codificar novas informações; depois aprendizagem, na fase de consolidação, quando o cérebro faz novas conexões; e antes de lembrar, para recuperar informações da memória. Estes processos são fundamentais para a capacidade de buscar, codificar, e consolidar diferentes perspectivas. Outra consideração importante é a capacidade de pesar a importância relativa dos diferentes fatores de produção com precisão, a fim de evitar uma visão limitada da questão. O sono foi comprovadamente um fator de melhora para a tomada de decisão em tais situações (em tarefas que imitam a vida real, por exemplo, que requerem integração de múltiplas respostas emocionais). A ciência suporta o conselho comumente ouvido que, em vez de tomar uma decisão importante ou enviar um e-mail sensível à noite, você deve dormir com o problema na cabeça e só na manhã seguinte tomar uma decisão.
Apoiar os outros
Para ajudar outras pessoas, você deve primeiro compreendê-las. Se o fizer, pode interpretar emoções em seus rostos ou no tom de voz. Mas em um estado privado de sono, o cérebro é menos capaz de interpretar esses sinais e reage de forma exagerada a acontecimentos emocionais. Além disso, a pessoa tende a expressar seus sentimentos de forma mais negativa quando está com sono. Estudos recentes têm mostrado que pessoas que não dormem o suficiente são menos propensas a confiar plenamente em outra pessoa. Outra experiência demonstrou que os funcionários se sentem menos engajados no seu trabalho quando os seus líderes têm noites ruins de sono.
O que as instituições podem fazer
Segundo os especialistas da McKinsey, as organizações podem melhorar a qualidade e eficiência do sono de seus líderes para atingir – ou recuperar – os mais altos níveis de desempenho. Entre as recomendações estão:
– Desenvolver programas de treinamento voltados para aumentar a consciência e criar uma mudança comportamental duradoura. “A nossa experiência indica que os programas de aprendizagem sobre a importância do sono pode ter um efeito positivo no bem-estar”.
– Avaliar e reformular as políticas da empresa para garantir que elas encorajem – ou pelo menos não desencorajem – uma boa noite de sono. “Observe as políticas que tratam de viagens, e-mails (por exemplo, o tempo de abandono do e-mail, após o qual não se responde mais), trabalho em equipe (criação de tabelas que permitam que os funcionários trabalhem de forma harmoniosa através dos turnos), limites de tempo de trabalho (definição de limites da carga horária ou a criação de períodos de suspensão), férias livre de trabalho obrigatórios, salas de descanso e tecnologias que melhorem o gerenciamento de sono”.
No entanto, certos tipos de organizações não podem implementar essas ideias sem uma mudança de acompanhamento na cultura subjacente. “Além de ter líderes mais descansados e, portanto, mais eficazes, mais um argumento para dar atenção à qualidade do sono é que ela impede o desgaste”.
Um estudo recente da Harvard Medical School descobriu que 96% por cento dos gestores relataram ter pelo menos algum grau de burnout (http://setorsaude.com.br/burn-out-sinais-de-alerta-para-diagnosticar-a-depressao/). Um terço descreveu sua condição como extrema.
“Existe uma grande gama de evidências sobre a relação bidirecional entre o sono e estresse: a falta de sono cria uma reatividade emocional elevada, e a experiência de estresse por resultados leva a uma pior qualidade do sono. Além disso, a falta de sono tem sido apontada como um importante indicativo de pouco envolvimento no trabalho. É hora de as organizações encontrarem formas de combater a rotatividade de funcionários, a perda de produtividade e o aumento dos custos de saúde decorrentes do sono insuficiente”.a