Supressão de funções inibidoras do cérebro pode levar a experiências espirituais
Cientistas buscam entender a questão do "sentir” a presença de Deus
O termo “experiência mística” se refere a uma extensão temporária da consciência, um momento em que se estabelece uma relação singular entre as chamadas vidas interna e externa. A experiência mística seria algo divino, o que religiosos considerariam como “sentir” a presença de Deus.
Conforme uma pesquisa do Rehabilitation Institute of Chicago (reconhecido como um das melhores instituições em medicina física e reabilitação) e da Victoria University of Wellington, a supressão de funções inibidoras do cérebro pode resultar na abertura a experiências místicas.
O estudo constata que, ao invés da ativação de uma única área no cérebro, o que tem sido referido como o potencial Ponto de Deus (God Spot), é a supressão das funções de regulação do cérebro que aumenta a probabilidade de experiências místicas.
As experiências místicas – encontros onde as pessoas sentem que tiveram uma ligação a um poder superior, levando a um aumento de inteligência ou perspicácia – têm sido relatadas em todo o mundo. É uma condição da vida humana, que pode aparecer com certa frequência em momentos em que uma doença prevalece.
Empurrar e puxar
As teorias relativas à razão que permite tais experiências podem se dividir em dois campos: empurrar e puxar (push and pull).
“As teorias push argumentam que a ativação de um único Ponto de Deus gera crenças místicas, sugerindo que as lesões nestes pontos reduziria o misticismo. Em contrapartida, as teorias pull afirmam que a supressão das nossas funções inibidoras abre o cérebro para as experiências místicas”, afirmou o professor Joseph Bulbulia, da Universidade de Victoria. “É um tema muito debatido, e queremos esclarecer o assunto”.
Os pesquisadores trabalharam com os resultados de testes de um grupo de veteranos da Guerra do Vietnã que haviam realizado testes cognitivos antes e depois da guerra. Usando dados de tomografia computadorizada do cérebro, os pesquisadores foram capazes de examinar como os danos a certas partes do cérebro afetaram a probabilidade de se ter uma experiência mística.
Porta da percepção
Dra. Irene Cristofori, do Rehabilitation Institute of Chicago, ressalta que o estudo “sustenta que a teoria pull, demonstra que indivíduos que sofreram lesão traumática no ‘Ponto de Deus’ eram mais propensas a terem experiências místicas”.
Isto sugere que estes pontos podem estar ligados a funções cognitivas inibitórias, e uma supressão dessas funções que normalmente ajudam a regular e resolver nossas experiências perceptivas, parece abrir uma ‘porta da percepção’, expondo as pessoas a experiências místicas.
“Os resultados fornecem credibilidade, mas não podem resolver o debate sobre a realidade”, diz o Dr. Joseph Bulbulia. “Nós não estudamos se as experiências místicas são verdadeiras ou falsas, mas em vez disso descobrimos algo sobre como o cérebro determina quais as experiências percebemos como místicas”, conclui.
Acesse o estudo Neural correlates of mystical experience, em inglês.