Porto Alegre caminha para a adoção de lockdown nos próximos dias
Portal Setor Saúde ouviu gestores de hospitais sobre o tema
Diante do crescimento do número de internações em leitos de UTI por Covid-19 em Porto Alegre, a alternativa de lockdown ganha cada vez mais força. Caso ocorra a decisão, todas as atividades não essenciais obrigatoriamente devem parar e o governo exerce controle total do deslocamento das pessoas em vias públicas e ou privadas. A situação é basicamente como as vistas em países como a Itália e a Espanha, onde as cidades ficaram com as ruas totalmente vazias.
No início da tarde de sexta-feira, dos 748 leitos de UTI em operação em de Porto Alegre, 649 (90,14%) estavam ocupados e 259 (34,63%) deles eram por pacientes em tratamento de Covid-19. O número total de óbitos em Porto Alegre chegou a 200 nesta sexta.
O prefeito Nelson Marchezan Júnior admitiu que a situação está sob tensão e que a possibilidade de adoção do lockdown é iminente . “Os hospitais já não estão confortáveis com o cenário atual, estão no limite de recursos humanos e estruturais. Precisamos diminuir a circulação de pessoas e frear a contaminação” disse Marchezan.
Porto Alegre é a segunda capital no Brasil com mais leitos, segundo Marchezan, em termos de leitos dividido pelo número de habitantes. “Isto é importante registrar. Mesmo com esta situação, estamos tendo uma demanda extremamente alta que está exigindo muito dos hospitais e dos profissionais de saúde”, complementou.
Ao portal Setor Saúde, o Grupo Hospitalar Conceição, Santa Casa de Porto Alegre e Hospital Ernesto Dornelles analisaram a situação atual.
Grupo Hospitalar Conceição (GHC)
O diretor-presidente do GHC, Cláudio Oliveira, destacou que a instituição aumentou em 28% o número de leitos, mas mesmo assim, a ocupação nas últimas semanas sempre se manteve em níveis máximos.
“Tivemos 28% no aumento do número de leitos desde o início da pandemia e, atualmente, observamos a ocupação entre 95% e 100% nas últimas semanas. Estamos percebendo uma alta procura na nossa Central de Triagem, na UPA na Zona Norte. Estamos percebendo um aumento do número de casos. ”
Para Oliveira, a medida de lockdown tem que ser bem discutida entre os governos, inclusive o Estadual. “Nós somos referência para a Região Metropolitana. Então, fazer um lockdown apenas para Porto Alegre não se justifica, porque atendemos as cidades vizinhas. Não se justifica fazer lockdown em apenas uma cidade e as outras seguirem demandando o sistema da saúde. Isso precisa ser pensado entre os gestores”, destaca.
O diretor-presidente do GHC, Cláudio Oliveira diz que é preciso que a população entenda a necessidade de isolamento, com atenção às pessoas do grupo de risco, que devem permanecer isoladas, e reforçando aos que precisam trabalhar a necessidade de manter distanciamento social, higiene frequente das mãos e uso de máscara.
Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre
A Santa Casa, por meio do seu diretor administrativo, Jader Pires, confirmou que as duas últimas semanas foram de aumento mais acentuado da taxa de ocupação dos leitos dedicados à Covid-19, assim como em todos os hospitais de Porto Alegre e do estado.
“A instituição hospitalar tem hoje 48 leitos de UTI dedicados exclusivamente aos pacientes da Covid-19, sendo 46 ocupados, ou seja, em torno de 98% de ocupação. A mesma ocupação se dá com relação à internação (leitos clínicos), onde temos 78 leitos para a Covid e praticamente todos ocupados”, disse Pires. Ainda com relação aos leitos de UTI, Pires destacou que no sábado (18) serão abertos 8 novos leitos, e na próxima terça-feira, outros 17. E no dia 31 de julho, serão disponibilizados outros 15 leitos, totalizando, até o final do mês, 40 novos leitos de UTI exclusivos para os pacientes da Covid-19.
Pires alerta para a dificuldade de equação em relação à velocidade de ampliação de leitos versus a demanda, e faz um apelo à população.“A capacidade de ampliação de leitos segue em ritmo acentuado, mas o crescimento da ocupação das unidades assistenciais tem sido exponencial. O fato é que a população deve respeitar os decretos públicos e as orientações dos profissionais de saúde, pois percebe-se que ainda há um número grande de pessoas circulando e aglomerações ocorrendo, o que não é desejável neste período da pandemia. Determinadas restrições neste momento são fundamentais para evitarmos um cenário que exija medidas mais drásticas mais adiante”, reforça Pires.
Hospital Ernesto Dornelles (HED)
O Ernesto Dornelles, que atende muitos pacientes do IPE-Saúde e de planos de saúde, diz estar trabalhando no limite, com ocupação de 88% dos leitos de UTI. O HED diz estar igualmente atendendo muitos pacientes críticos não Covid na emergência. Nas unidades de internação, a ocupação é de 70% com Covid. Houve um aumento de aproximadamente 100% nos atendimentos por suspeita de Covid nas últimas 2 semanas, segundo a instituição.
O Hospital Ernesto Dornelles manifestou apoio às condutas tanto da Prefeitura quanto do Governo do Estado e diz que seguirá apoiando o que for definido. “Em relação ao lockdown, acreditamos que caso a população não entenda ao chamamento das autoridades e aumente o percentual de isolamento, o lockdown será necessário no início da próxima semana. Nossa posição se baseia no número finito de profissionais da saúde qualificados para trabalhar e pela escassez de medicamentos no mercado”, disse Odacir Vicente Rossato, superintendente administrativo.
FEHOSUL
O presidente da Federação dos Hospitais e Estabelecimentos de Saúde do RS (FEHOSUL), Cláudio Allgayer, diz que “a situação realmente é muito preocupante. Há uma conjugação de fatores críticos que conspiram negativamente no sentido de agravar o quadro de escassez” diz Allgayer, chamando a atenção para “o esgotamento dos leitos dedicados ao atendimento exclusivo dos pacientes com coronavírus, a progressiva dificuldade dos hospitais em adquirir os medicamentos essenciais do denominado ‘kit covid’, o adoecimento dos médicos, enfermeiros e demais profissionais de saúde na linha de frente do enfrentamento, e a consequente indisponibilidade de recrutamento de novos profissionais qualificados, e mesmo o cansaço das equipes assistenciais após quatros meses de duros enfrentamentos”.
Allgayer apela aos dirigentes públicos “que analisem estas situações com rapidez e procurem minimizar as mencionadas dificuldades estruturais e de logística enfrentadas pelos hospitais, inclusive com o recrutamento emergencial de recursos humanos qualificados, em outros centros onde o pico da pandemia já foi superado“, afirmou o presidente da FEHOSUL. Allgayer diz que a entidade, juntamente com outras da área da saúde, vem discutindo com o governo soluções para garantir o atendimento da população.
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Prefeito faz apelo para que entidades empresariais apoiem distanciamento social
Em encontro realizado pela internet, com a presença de representantes de entidades empresariais, o prefeito fez um apelo para que as entidades apoiem o distanciamento social. Segundo Marchezan, se no mês de março a cidade não tivesse adotado o isolamento social, hoje o sistema de saúde já teria entrado em colapso. “Infelizmente, todas as nossas projeções se confirmam e mostram que as medidas de isolamento adotadas não foram precipitadas”, diz.
O presidente do Sindicato de Hospedagem e Alimentação (Sindha), Henry Chmelnitsky, propôs que as entidades se organizem para formatar uma campanha de conscientização da importância do isolamento social. “Vamos olhar para frente e evitar o caos”, diz ele.
Participaram do encontro entidades como Sindicato dos Lojistas do Comércio de Porto Alegre, Sindicato da Indústria de Construção de Estradas Pavimentação Obras de Terraplanagem RS, Associação Comercial de Porto Alegre, Associação Brasileira de Bares e Restaurantes, Grupo de Líderes Empresariais e Associação Brasileira De Shopping Centers, dentre outras.
A capital, que se encontra em bandeira vermelha dentro das regras de Distanciamento Controlado implementadas pelo Governo do Estado do RS, lançou recentemente o Desafio Porto Alegre, para que se registre pelo menos 55% nos níveis de isolamento social. Nas últimas 24 horas, o índice ficou em 47,8%, abaixo da meta estabelecida.
Sociedade Riograndense de Infectologia defende lockdown
A Sociedade Riograndense de Infectologia (SRGI) emitiu uma nota de alerta sobre o estágio da doença no Rio Grande do Sul. De acordo com a entidade, o estado vive uma grave situação epidemiológica.
Conforme ressalta a SRGI, “a adesão ao distanciamento social está diretamente relacionada à possibilidade de ter leitos disponíveis nos hospitais e atender as pessoas de modo adequado. Porto Alegre, por exemplo, apresentou nas últimas semanas menos de 50% de adesão ao distanciamento social, o que gerou um aumento nas hospitalizações nas instituições que atendem casos de Covid-19. Se isso continuar nas próximas semanas é bem provável que novas medidas tenham que ser muito mais rigorosas como a quarentena ou lockdown.”
Segundo a entidade, no último mês houve um crescimento de três vezes do número de casos confirmados e mortes, sendo que o total de óbitos por COVID-19 duplicou nas duas últimas semanas. A epidemia está em crescimento acelerado no Rio Grande do Sul, determinando impacto na capacidade de atendimento hospitalar, particularmente em Unidades de Terapia Intensiva, destacou em nota a entidade. A SRGI entende que as medidas adotadas até o momento serão insuficientes para conter a pandemia que está evoluindo para um grave comprometimento do atendimento de pacientes com COVID-19 e daqueles que apresentam outras doenças.
“Esperamos que medidas mais rigorosas sejam consideradas e organizadas antes do atingimento do colapso do sistema de saúde, cenário que acarretará diversas mortes evitáveis”, diz a nota.
A nota é assinada pelos infectologistas Alexandre V. Schwarzbold, Alexandre Prehn Zavascki, Ronaldo Campos Hallal e Diego Rodrigues Falci.