Gestão e Qualidade | 4 de julho de 2023

Os avanços da Onco-Hematologia e a importância de uma atuação focada no paciente

Líder da equipe de Hematologia do Instituto Kaplan, Dr. Dani Laks, concedeu entrevista exclusiva ao Setor Saúde.
Os avanços da Onco-Hematologia e a importância de uma atuação focada no paciente

O portal Setor Saúde conversou com o líder da equipe de Hematologia do Instituto de Oncologia Kaplan, o Dr. Dani Laks. O professor e Onco-Hematologista falou sobre as doenças onco-hematológicas e os principais avanços da área, como os testes genéticos e as imunoterapias, tratamentos cada vez mais sofisticados e que estão mudando o panorama das neoplasias do sangue. Ele também aborda a atuação do Kaplan e a importância de os pacientes buscarem locais que tenham equipes sempre atualizadas e comprometidas com as especificidades dos tratamentos estipulados para cada tipo de paciente. No final da entrevista, ele cita referências essenciais que servem de inspiração para a busca da melhor medicina. Confira.

Na Onco-Hematologia existe uma série de doenças chamadas de tumores do sangue, como leucemia, linfoma, mieloma múltiplo e mielodisplasia. Todas elas possuem diagnósticos e tratamentos cada vez mais avançados e que estão disponíveis no Kaplan.

“As leucemias são as mais conhecidas. Existem leucemias agudas e crônicas, cada uma com um tratamento diferente. Temos ainda os linfomas, tumores do sistema linfático. Um tratamento muito importante do cenário atual é para o mieloma múltiplo, um tumor de uma célula da medula óssea, chamada plasmócito, que compromete o organismo inteiro. Os tratamentos de mieloma múltiplo apresentam um dos maiores avanços dos últimos tempos. Já a mielodisplasia, que também é um tipo de tumor da medula óssea ou tutano, igualmente tem vários avanços recentes. Podemos dizer que estas são as principais neoplasias hematológicas, ou seja da Onco-Hematologia, na qual nossa equipe de Hematologistas se dedica”, explica.

A importância do diagnóstico precoce

O Dr. Laks destaca que hoje se faz mais diagnósticos na Onco-Hematologia. Por outro lado, o Brasil ainda precisa ampliar o acesso a testes de identificação para que os tratamentos iniciem mais cedo.

“Hoje as pessoas são mais informadas pelo dinamismo dos meios de comunicação, como as redes sociais, para o bem e para o mal, cabe ressaltar. Isto ajuda a alertar os pacientes a buscarem ajuda. Com o nível de informação que está mais difundido e com os exames mais específicos e sensíveis, que detectam em estágios mais precoces, podemos dizer que se consegue ter mais diagnósticos hoje em dia. São doenças que vemos com cada vez mais incidência em nosso dia a dia.”

Conforme Laks, os países desenvolvidos produzem diagnósticos menos tardios, diferente do Brasil. Isto acaba tendo melhores implicações no prognóstico dos pacientes, como menos intercorrências e com mais chances de as doenças serem revertidas.


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Compromisso para a disseminação de conhecimentos

Além de sólida formação na área de Hematologia, com mestrado e doutorado, Dr. Laks possui uma vasta experiência acadêmica. Atualmente ele atua como professor do curso de Medicina da Unisinos e coordena a área de Imunologia da instituição de ensino. Fora da universidade, ele tem realizado cursos com a participação das doutoras Bianca Sarturi e Ana Fenilli, que integram o time de especialistas do Kaplan. O foco é disseminar conhecimentos que mudem o cenário de demora em se chegar ao diagnóstico das doenças hematológicas.

“Desde que eu entrei no Kaplan eu me preocupei em fazer eventos que trouxessem informações não somente para colegas médicos da área, mas também para os de outras especialidades. Quando fui incorporado ao time do Kaplan, um dos focos que discuti é que eu gostaria que estes conhecimentos, que são tão importantes para se fazer um diagnóstico precoce, sejam difundidos. O objetivo é que os médicos encaminhadores tenham essa noção das doenças. É muito importante, por exemplo, que o paciente com mieloma múltiplo, cuja o principal sinal clínico são as dores óssea e lombar, não fique indo para uma emergência para receber um analgésico e depois volte com a mesma reclamação. Às vezes um sintoma simples como uma dor lombar pode ter uma doença grave por trás. É importante que o médico, seja qual for a especialidade, saiba ao menos como encaminhar e quais os exames iniciais que ele deve pedir. Esta é uma preocupação, em termos de educação do Instituto Kaplan, que também é uma missão minha. Já tivemos dois encontros e pretendo realizar outras edições ainda neste ano para que os médicos de outras especialidades saibam mais sobre as doenças oncológicas e hematológicas. Se eles não pensarem neste diagnóstico, pode demorar muito para que outros pensem. A demora em chegar ao diagnóstico hematológico é um cenário que precisa ser mudado. ”

Testes genéticos altamente sofisticados e o impacto dos novos tratamentos

Ainda sobre os testes diagnósticos, um dos avanços são os testes moleculares, disponíveis por meio de convênios ou clínicas particulares.

“Além de determinar o diagnóstico da doença, temos acesso a testes genéticos altamente sofisticados que identificam as características moleculares para cada câncer hematológico. Com a pesquisa molecular, dependendo das alterações genéticas moleculares e das mutações que são procuradas na célula cancerígena, conseguimos fazer adaptações especificamente no tumor do paciente por meio de tratamentos conhecidos como medicina personalizada. Avançamos muito. Se antes dizíamos que o paciente tinha leucemia, hoje eu tenho que dizer se é aguda ou crônica, ‘x, y, z’ e quais são as alterações moleculares presentes naquela leucemia. Assim conseguimos ter uma melhor ideia da doença do paciente e entregar um tratamento e um prognóstico mais refinado. Estas ferramentas já estão à disposição dos nossos pacientes, não há um dia que não se peça um teste genético.”

“O exame molecular tornou muito mais complexa a área da Onco-Hematologia. Hoje temos que estudar muito mais do que antigamente devido a estes novos conhecimentos. No entanto, são estes novos conhecimentos que estão melhorando de sobremaneira a resposta aos tratamentos. Se antes eu tinha um tratamento único para uma doença, hoje existem outros tratamentos tão específicos que eu consigo tratar muito melhor. Este conhecimento específico da biologia, das mutações genéticas, possibilitou o desenvolvimento de novas terapias. Há bem pouco tempo atrás havia tumores que eu tratava com quimioterapia e que hoje eu não preciso usar. Eu posso utilizar a imunoterapia, a terapia alvo molecular, terapias que mexem no DNA do paciente, chamada epigenética, ou seja, eu entendo muito mais da doença e principalmente das suas mutações e das possibilidades que contemplam tentar bloquear as alterações encontradas.”

CAR-T Cell

“A imunoterapia veio com força absolutamente total. Na última edição da ASCO [maior evento de Oncologia do mundo], foi apresentado um trabalho que utilizava a imunoterapia em uma doença extremamente grave da Onco-Hematologia, o mieloma múltiplo. O uso da terapia CAR-T cell mostrou resultados simplesmente incríveis, melhores inclusive do que o transplante de medula óssea. A verdade é que estas novas terapias, à base principalmente da imunologia, estão cada vez mais sofisticadas. Elas estão mudando totalmente o panorama das doenças Onco-Hematológicas”, comemora.

“O grande foco hoje está na imunoterapia, seja através das terapias CAR-T cell ou terapia do receptor de antígeno quimérico de células T, onde utilizamos a nossa imunidade das células T para combater de forma mais eficiente as células tumorais. Ou ainda os chamados anticorpos monoclonais, sendo que os mais modernos são os denominados biespecíficos. Somado a isto, as terapias alvo moleculares igualmente são de extrema importância.”

“Por exemplo, no tratamento da leucemia linfocítica crônica não utilizamos mais a quimioterapia, que era o tratamento padrão até pouco tempo atrás. Essa quimioterapia apresentava efeitos colaterais bastante significativos e que debilitavam muito o paciente. Hoje um dos principais tratamentos é realizado com terapia alvo molecular que inibe uma proteína chamada tirosina-quinase de Bruton, envolvida diretamente na ativação da doença. Com esta abordagem e sem a quimioterapia, o paciente está tendo uma sobrevida maior, com uma qualidade de vida melhor.”

“Não quer dizer que não existam desafios. Obviamente todas estas terapias novas ainda precisam evoluir. Ainda estamos aprendendo sobre os efeitos colaterais que existem, diferentes das terapias tradicionais. Estamos no momento de curva de aprendizado para lidar melhor com os efeitos. Mas reafirmo: os avanços são muitos significativos. Nos últimos cinco anos a medicina mudou de uma maneira que jamais imaginaríamos.”

Tratamentos consolidados e acesso a pesquisas experimentais

Mesmo que os tratamentos mais modernos estejam disponíveis no Kaplan, adicionalmente a clínica tem conseguido dar acesso a tratamentos experimentais, inclusive por meio de estudos com CAR-T cell.

“Nós temos acesso a todos os medicamentos da imunoterapia que não sejam experimentais. Eles fazem parte do nosso dia a dia. Hoje o paciente que é atendido pelo Kaplan recebe tratamentos que têm respaldo na melhor literatura médica, o que é consenso médico.”

O Instituto realiza os chamados “tumor boards”, importantes principalmente para os casos mais complexos, afirma o Dr. Laks. Os encontros também abrem portas a estudos experimentais com novas terapias.

“Já participei de várias discussões em outras instituições, mas as realizadas pelo Kaplan são de um nível técnico muito elevado. Nas discussões já conseguimos alocar alguns pacientes para pesquisas em nível nacional, em centros de pesquisas pelo Brasil. Então, o que há disponível de consagrado e de última linha, nós já dispomos aos nossos pacientes, ele já recebe isto, com a aplicação dos medicamentos realizada na própria clínica do Kaplan. Quando há algo ainda experimental, a grande vantagem é termos o contato destes centros de pesquisa, que são muito próximos a nós, assim como os principais pesquisadores do Brasil. Temos uma via direta com eles. Foi o caso de uma paciente de mieloma múltiplo que foi encaminhada para pesquisa com células CAR-T. Ou seja, também facilitamos ao paciente o acesso a tecnologias promissoras que ainda não chegaram ao mercado.”

Entre os profissionais de renome que participam dos tumor boards do Kaplan, está o professor Jorge Vaz. “O Dr. Vaz, de Brasília, é uma referência na Hematologia brasileira. Ele coordena muitas vezes os nossos encontros. Nós temos outros nomes de peso em nossas discussões de casos semanais, com profissionais de São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia e outros centros. E isto é realmente um diferencial do grupo.”

Outro destaque do atendimento que impacta positivamente na jornada e na segurança do paciente, na análise do Dr. Laks, é a questão da qualificação da enfermagem e demais membros da equipe Kaplan.

“Algumas das coisas que me fizeram aceitar o convite para integrar o Kaplan foi por conhecer a estrutura, os gestores, o prof. Gilberto Schwartsmann [Oncologista líder do Kaplan] que conheço há uns 30 anos, ao fazer o meu primeiro trabalho científico com ele. Eu sei que quando eu prescrevo um tratamento, duas coisas vão acontecer. Pode parecer pouca coisa, mas este é o segredo para as coisas darem certo. Primeiro: eu sei que a equipe de suporte, que inclui técnico de enfermagem, enfermagem, secretária, setor de autorização com operadora, assistente social, nutricionista e outros da equipe multidisciplinar, vai fazer de tudo para facilitar a vida do médico e com isto, facilitar a do paciente também. Esta equipe dá a facilitação no processo. E segundo: eu sei que o meu paciente vai receber o que eu prescrevi. O que o médico julgar melhor, o paciente vai receber. Esta é uma confiança que o médico precisa ter. A última preocupação que o médico quer é se preocupar se o tratamento que ele prescreveu está sendo feito da maneira adequada. Isto no Kaplan eu sei que está sendo feito. O que vejo é que todos estão preocupados com o paciente. ”

Segundo o Dr. Laks, todos os detalhes importam. Fazendo uma analogia, na Oncologia pilotamos supersônicos de última geração e não planadores. Devido a essa complexidade, qualquer detalhe importa: seguir corretamente o protocolo de tratamento prescrito, cuidados com a higiene ao prestar assistência ao paciente, atentar para o emocional do paciente… que infelizmente são ignorados em muitos locais. Quando se está lidando com uma situação da mais alta complexidade toda a equipe deve estar engajada no mesmo sentido e no mesmo nível de otimização.”

“Para mim, isto fecha o ciclo. Tenho acesso a discussões com os melhores colegas. Eu tenho todos os medicamentos de ponta e todas as tecnologias novas, incluindo imunoterapias à disposição. Eu tenho todos estes profissionais engajados num único objetivo: a melhora do paciente. É o que o médico precisa para que o seu paciente tenha o melhor que a ciência tem a oferecer. ”

Albert Sabin e Maimônides

Para o Dr. Laks, a área médica exige uma atualização constante para melhorar a entrega dos tratamentos para os pacientes. Ele cita os médicos Albert Sabin (EUA) e Maimônides (Espanha) como referências que ele costuma utilizar em suas aulas e que sintetizam os valores que todo o médico deve exercitar.

“Onco-Hematologia não é fácil e exige uma atualização diária, todos os dias. Gostar de pessoas é igualmente importante. Albert Sabin (1906 – 1993), que desenvolveu a vacina oral contra a paralisia infantil dizia que o médico não pode ficar tranquilo se o conhecimento para ajudar alguém pode estar em algum livro que ele tem que estudar. O Sabin é uma pessoa que levo como referência em toda a minha vida médica. Este é o norte da Medicina. Outra referência importante que gosto de focar com os meus alunos é a ‘oração do médico’, de Maimônides (1138 – 1204): “A Eterna Providência designou-me para cuidar da vida e da saúde de tuas criaturas. Que o amor à minha arte aja em mim o tempo todo, que nunca a avareza, a mesquinhez, nem a sede pela glória ou por uma grande reputação estejam em minha mente; pois, inimigos da verdade e da filantropia, eles poderiam facilmente enganar-me e fazer-me esquecer meu elevado objetivo de fazer o bem aos teus filhos”.

Além da Onco-Hematologia, o Kaplan atende outras especialidades médicas e oferece ainda o Núcleo de Vacinas e o Centro de Infusão e Terapia Imunobiológica (CIN).


Leia também: A importância da vacinação dos pacientes oncológicos e de seus familiares 


 

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