O futuro das doações e dos transplantes de órgãos foi debatido em seminário da FEHOSUL
Evento nesta quarta-feira reuniu lideranças gaúchas e nacionais em amplo debate sobre o tema
Palestras focadas em dados e projeções para um futuro mais positivo, intercalados com debates amplos, deram a tônica do seminário Doações e Transplante de Órgãos, promovido nesta quarta-feira, 27, pela FEHOSUL em parceria com a ONG VIAVIDA Pró-Doações e Transplantes.
Dirigentes de Hospitais, Membros das Comissões Intra-Hospitalares de Doação de Órgãos e Tecidos para Transplantes (CIHDOTT) e Profissionais da Saúde se reuniram para debater os rumos do setor no Brasil. Na abertura, o diretor-executivo da FEHOSUL, dr. Flávio Borges, salientou o exemplo de Santa Catarina. “Queremos entrar definitivamente nessa competição para ser o Estado com maior número de doações do Brasil. Essa campanha merece ser incentivada entre as mais de 16 mil instituições ligadas à nossa Federação”.
O exemplo de Santa Catarina
O coordenador da Central de Transplantes de Santa Catarina e do Departamento de Transplantes da Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO), dr. Joel Andrade, lembrou que o Rio Grande do Sul era, há pouco tempo, a grande referência nacional. “Muito do que foi feito em Santa Catarina desde 2005, quando assumi a função, se deveu a estudos das práticas aqui do Rio Grande do Sul, que ainda é referência em alguns aspectos da doação”.
Grande responsável pela melhoria catarinense na captação e transplante de órgãos, dr. Andrade afirma que a real evolução do sistema de doação e transplantes passa pelos seguintes pilares: rede qualificada de coordenadores; perfil adequado de profissionais; garantia de qualidade na busca por órgãos, doadores e pacientes; reembolso hospitalar; atendimento à imprensa (comunicação entre instituições e sociedade). Cada tópico é preciso ser adotado em seu devido tempo. Porém, o especialista ressalta que “a simples cópia de um modelo de sucesso pode ser ruim. É preciso adaptar à realidade local”.
“O melhor sistema de transplante é o da Espanha, que tem 35 doadores por milhão de pessoas (pmp). Em 2005 o Brasil tinha uma média de sete doadores/pmp e esse ano algumas regiões como o Distrito Federal tem média de 30 pessoas/pmp. O RS está com 15 doadores/pmp e quer mais, isso é um dado positivo”, diz Joel Andrade.
Segundo ele, existem várias maneiras de buscar melhores resultados, mas a reformulação intra-hospitalar é a mais eficiente. “O fator mais impactante para o aumento de doações é a educação e organização da gestão. A adoção de um sistema focado nestas bases é a mudança de paradigmas”.
Para presidente do VIAVIDA, informação é fundamental
Presidente da ONG VIAVIDA, Lúcia Elbern vê na comunicação entre estabelecimentos e sociedade o trunfo a ser conquistado. “Informação é um grande problema. Quando iniciei o trabalho no VIAVIDA fui a todos os Hospitais de Porto Alegre. Não há sistema de notificações, monitoramento ou de metas. Em hospitais de traumatologia ocorrem mais mortes encefálicas, deveríamos saber quantos pacientes entram, quantos se recuperam, quantos morrem, quais são doadores elegíveis. Esse é o desafio que colocamos: um processo de gestão em qualidade nos hospitais”.
Tratar a questão com a precisão de dados é fundamental para a organização do fluxograma de doações. “Estabelecer metas e fazer o monitoramento é uma necessidade. Sem isso, ficamos sem resultados”, resumiu a presidente.
Negativa familiar é entrave no RS
A coordenadora da Central de Transplantes do RS, dra. Rosana Nothen, alertou para outra situação. “Precisamos criar um organismo intermediário, porque o cenário gaúcho é muito heterogêneo”. Ela ressalta que “há uma lacuna entre a notificação e a doação. A tendência é que o número de notificações cresça, mas a quantidade de doações se estabilize. A estimativa de 2013 é que a negativa familiar seja o maior entrave de doações. Só no mês de setembro, 45% dos órgãos elegíveis foram negados por esse motivo”.
Para melhorar o quadro gaúcho, dra. Rosana acredita que é preciso rever impasses legais. “Há uma série de questões burocráticas que o país precisa repensar. Ainda temos falhas de informação. As avaliações de sobrevida de pacientes só são divulgadas quando o hospital está bem. Se o balanço é negativo, é melhor esconder”, lamentou a especialista.