Mudança de nome e avanços da Radioterapia do São Lucas
Dr. Aroldo Braga Filho explica adoção do termo "precisão"
O Serviço de Radioterapia do Hospital São Lucas da PUCRS (SERP) adotou nova identidade. Com 35 anos de existência, a unidade muda apenas uma letra em seu slogan, mas o simples acréscimo de um “P” no nome se refere à busca pela excelência. Agora, a sigla SERPP (e não mais SERP) significa Serviço de Radioterapia de Precisão do Hospital São Lucas da PUC.
O radioterapeuta Aroldo Braga Filho (foto), chefe do SERPP, explica que a mudança se deu por uma questão de adequação. “A radioterapia do Século XXI é muito diferente do que se fazia nos anos 1970, 1980 e mesmo nos anos 1990. Não é como a radioterapia que chamamos convencional. Novos equipamentos foram desenvolvidos, a busca agora é pela precisão. Por essa razão, acrescentamos a palavra ‘precisão’ no nome, que expressa melhor o que é a moderna radioterapia”, explicou, em entrevista ao portal Setor Saúde.
O grande avanço foi alcançado graças à aquisição do moderno Acelerador Linear Trilogy, que reforça a decisão pelo uso do termo precisão associado ao trabalho do setor. “Este acelerador linear, traz todas as tecnologias. É um aparelho sensacional”. Para o diretor, 2016 marca um grande momento. “Estamos na melhor fase dos 35 anos de existência do SERPP. Com tecnologia, profissionais qualificados, comprometidos, um espírito de colaboração, entusiasmo e orgulho por termos alcançado esse patamar”.
O SERPP oferece uma série de tecnologias de última geração. A Radioterapia Guiada por Imagem (IGRT, na sigla em inglês) permite que “o profissional veja, em tempo real, onde a radioterapia está sendo executada. Nesse momento, ele libera a dose quando todos os parâmetros que foram planejados coincidem. Previamente ao tratamento, se faz tomografias computadorizadas, ressonância magnética e PET-CT para demarcar com exatidão e muito detalhe, a área do tumor e as estruturas normais adjacentes que não devem receber tratamento. Com isso, conseguimos tratar tumores com uma dose maior e diminuir a dose nos tecidos saudáveis”, diz o Dr. Aroldo.
Além da IGRT, o SERPP também oferece outra tecnologia, a Radioterapia de Intensidade Modulada (IMRT). “Nós podemos ter precisão de milímetros, ou até menor, na correção do posicionamento do paciente. Junto com a IGRT, oferecemos ainda um tratamento muito mais preciso, exato, detalhado, que permite nuances de doses em uma mesma área tratada”. A IMRT é muito importante para o tratamento de neoplasias da próstata, por exemplo.
As tecnologias de ponta também incluem o método radioterapia em arco modulado volumétrico (chamado RapidArc) – que possibilita tratamentos executados em tempo mais rápido, cerca de sete minutos, metade do tempo de uma sessão tradicional, “diminuindo a possibilidade de movimentação do paciente, com a preocupação da precisão e do ponto a ser trato. O tempo da execução não gera prejuízo da dose e da eficácia”.
No Arco Modulado volumétrico, o aparelho gira ao redor do paciente, constantemente, diferentemente dos aparelhos fixos em alguns ângulos determinados. “o RapidArc faz um giro completo, está sempre emitindo radiação controlada por vários computadores, que só permitem tratar o que é determinado”, comentou o especialista. A geração de histograma dose-volume permite que os profissionais saibam a dose em todos os pontos tratados. “Existem orientações internacionais que devem ser respeitadas os limites de dose, não se podendo ultrapassá-las em um certo órgão ou estrutura. A medula espinhal, por exemplo, A dose deve estar limitada a, no máximo, EM 45 Gy”, exemplifica. O Gy, ou Gray, é a unidade no Sistema Internacional de Unidades de dose absorvida. Representa a quantidade de energia de radiação ionizante absorvida por unidade de massa, ou seja, um joule de radiação absorvida por um quilograma de matéria, ou J/kg.
O SERPP também possui outra tecnologia, chamada Respiratory Gating, a radioterapia sincronizada com a respiração. “O pulmão tem o movimento respiratório, com essa técnica irradiamos um nódulo pulmonar só em um ponto da respiração. Caso contrário, seria necessário tratar muito mais volume pulmonar. Com isso, tratamos só no momento que o pulmão entra na zona de tratamento, e a parte normal do órgão não é atingida”.
Dr. Aroldo salienta que “a medicina está muito ligada à tecnologia, um radioterapeuta, não faz nada só com uma caneta. Somos dependentes de equipamento e tecnologia. Com o avanço, tecnológico conseguimos melhorar resultados. Isso, na verdade, exige muito mais do médico, embora pareça que a tecnologia determine menos envolvimento do médico. Ao contrário, com novas ferramentas, o trabalho médico é maior por ter mais detalhes. Antigamente os tratamentos eram mais simples. O planejamento exige muito mais dedicação de tempo do que antigamente”.
Outra tecnologia disponível no Serpp é a radiocirurgia, que pode ser realizada para tumores cerebrais ou para tumores extra cranianos. A radiocirurgia é um método não invasivo que oferece resultados semelhantes aos obtidos com a cirurgia convencional.
A radiocirurgia extra craniana é utilizada para tumores primários ou metastáticos extracranianos. “Se usa uma dose muito mais elevada do que o tratamento normal, COM menos sessões de tratamento. Em um caso de câncer de pulmão, por exemplo, o tratamento convencional leva 30 dias. Com essa técnica, fazemos a mesma dose em três dias. Podemos aumentar a dose diária, justamente porque se tem a precisão e se utiliza campos de tratamento com dimensões reduzidas. A alta dose é ablativa, fazendo a “destruição” controlada do tumor.”
Em geral, cada aparelho de radioterapia atende uma faixa de 70 pacientes por dia, conforme o diretor. “Não pensamos em aumentar o número de atendimentos, massificar. O nosso objetivo é qualificar, executar um ótimo padrão técnico, com o controle de qualidade recomendado”.
“Apesar dessa tecnologia mais avançada, ao contrário do que se pensava, o tempo para cada paciente também aumenta. Em algumas situações temos que utilizar o aparelho por 40 minutos. Mesmo com tecnologia de ponta, o paciente também precisa de mais tempo na sala de tratamento, para se posicionar. A aplicação em si nem sempre é o mais demorado”.
Para a realização do atendimento, seja qual for o tipo, Dr. Aroldo diz que “é muito importante a participação de toda a equipe, é uma cadeia de responsabilidades e dedicação do trabalho diário”. O SERPP atua com três físicos especializados em medicina, dois dosimetristas, uma residente em física médica, 15 técnicos em radioterapia e cinco radioterapeutas. “Todos nós recebemos treinamentos no exterior e no Brasil, para operar adequadamente os aparelhos. Temos também cursos de reciclagem interna, para rever alguma tecnologia que queremos implementar”.
Sobre os desafios que a radioterapia enfrentará no futuro, o especialista diz que o setor alcançou um patamar tecnológico altíssimo. “Com os atuais equipamentos, fica difícil encontrar uma mudança radical no nível de excelência que alcançamos na radioterapia. Mas sempre somos surpreendidos com avanços, e temos que estar preparados para se atualizar e buscar bons tratamentos para o paciente. E para ele, o que importa é o melhor que ele pode receber”, conclui.
* Foto: Camila Cunha/ASCOM/PUCRS