Bactérias versus antibióticos, quem está vencendo?
Combate às doenças pode se tornar cada vez mais difícil
Um número crescente de doentes tem sido afetado pela resistência de bactérias a antibióticos. A ineficácia crescente de medicamentos gera a perspectiva sombria de um futuro em que a capacidade em combater doenças será cada vez mais difícil. Tuberculose, cólera, formas mortais de disenteria e germes contraídos durante cirurgias são exemplos de grandes perigos para as próximas gerações.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) lançou programas em todo o mundo para retardar o surgimento de nova resistência e preservar os tratamentos disponíveis. “Os antibióticos são agora vítimas de seu sucesso: a sua ampla utilização desde as décadas de 1960 e 1970 permitiu que bactérias aprendessem a se defender”, alerta o professor Patrick Plésiat, coordenador do Centro Nacional de Referência de Resistência a Antibióticos de Besançon (França), em entrevista ao jornal Le Figaro.
A OMS vai discutir o tema em maio, em sua Assembleia Anual, e também debaterá a criação de um plano global de ação contra a resistência microbiana. O assunto não é novo, mas ganha relevância porque países como o Reino Unido estão convencidos de que anos de inatividade tornaram o problema cada vez mais grave.
Bactérias multirresistentes foram inicialmente desenvolvidas em hospitais, onde a situação é duplamente favorável. Primeiro, porque é onde metade do consumo de antibióticos está concentrada, e segundo pela quantidade de indivíduos infectados e interligados pelos mesmos cuidadores.
Os esforços atuais se concentram em algumas Enterobacteriaceae (grupo de bactérias que podem causar infecções do aparelho gastrointestinal e de outros órgãos do corpo), resistentes à duas classes de antibióticos (cefalosporinas de terceira geração e carbapenêmicos). Presentes no ambiente humano, tais bactérias circulam amplamente de pessoa para pessoa e pode compartilhar rapidamente com muitas outras bactérias suas “receitas de sucesso” em resistência. Dessa forma, elas aprendem a digerir uma nova molécula ou se descontaminar do produto tóxico (antibiótico).
A Chatham House, uma organização internacional sediada no Reino Unido, realizou duas reuniões para analisar a questão: uma em outubro de 2013 e e outra em março de 2014. Nas ocasiões, foi destacado o fato de que nenhuma classe nova de antibióticos foi descoberta nos últimos 26 anos, o que favorece a defesa das bactérias. A conclusão é de que, se nada for feito para alterar esse cenário, em poucas décadas poderemos começar a morrer por cirurgias consideradas, hoje, comuns, e também por doenças que atualmente são tratadas facilmente.