Estatísticas e Análises, Mundo | 7 de julho de 2015

Os perigos da disseminação de bactérias resistentes a antibióticos

O paciente também deve contribuir e não solicitar aos médicos antibióticos sem necessidade
Os perigos da disseminação de bactérias resistentes a antibióticos

Bactérias resistentes a antibióticos se espalham pelo mundo, gerando sérias consequências. Em um extenso artigo publicado no site norte-americano Consumer Reports, o tema é amplamente abordado.

Personagem do artigo, Peggy Lillis, uma professora de 56 anos da cidade de Nova York, consultou um médico devido a uma infecção dentária e recebeu uma receita do antibiótico clindamicina. A conseqüência foi a eliminação das “boas” bactérias no intestino, que normalmente combatem as bactérias “ruins”. Sem essa proteção, as bactérias nocivas se desenvolveram, provocando uma infecção intestinal tão grave que os médicos tiveram que realizar uma cirurgia de emergência para remover seu cólon. Apenas 10 dias depois de começar a tomar o medicamento, a paciente faleceu.

Outro exemplo citado é de um garoto de 12 anos, que após um jogo de beisebol reclamou de dores no joelho, que se agravaram durante a noite. Seu médico prescreveu, inicialmente, um antibiótico que não conseguiu resolver o problema. Após a exposição a diversos antibióticos, o caso do paciente evoluiu e se espalhou por seu corpo, forçando os médicos a colocá-lo em coma induzido até que pudessem tratá-lo com vancomicina, um poderoso antibiótico que, felizmente, resolveu o problema.

As duas histórias são exemplos de casos cada vez mais comuns. Embora os antibióticos tenham salvado milhões de vidas desde que a penicilina começou a ser prescrita, há quase 75 anos, está claro que o uso desenfreado dessas drogas traz consequências inesperadas e perigosas. Apenas a bactéria C. difficile atinge mais de 2,25 milhões de norte-americanos a cada ano, sendo 37 mil vítimas fatais.

Os antibióticos podem perturbar o equilíbrio natural das bactérias no corpo, o que a pesquisa revela ser de extrema importância para a saúde humana. Além disso, o uso excessivo de antibióticos cria as “superbactérias”, que muitas vezes não podem ser controladas mesmo com múltiplas drogas. Entre elas está a MRSA (Staphylococcus aureus resistente à meticilina), uma bactéria que, uma vez presente no hospital, pode facilmente também se espalhar pela comunidade, incluindo serviços de manicures, vestiários, e playgrounds. Essas bactérias altamente resistentes infectam pelo menos dois milhões de pessoas nos EUA anualmente, matando pelo menos 23 mil.

O cenário pode, contudo, ficar pior. Os Centers for Disease Control and Prevention, órgão americano, alerta sobre duas ameaças: As enterobactérias resistentes ao carbapenem e a Shigella, bactéria altamente contagiosa, que apresenta resistência a vários antibióticos comuns, aumentando temores de um surto nos EUA.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) e a União Europeia consideram o surgimento de bactérias resistentes uma das crises mais graves na saúde do mundo, colocando a humanidade em uma “Era pós-antibiótico”. Em junho, o presidente Barack Obama convocou um fórum sobre esta crise, com a participação de 150 organizações. A proposta do governo dos EUA para o orçamento de 2016 incluiu US$ 1,2 bilhão para o combate a essas infecções resistentes.

Segundo o artigo, parte da solução pode vir com o desenvolvimento de novos antibióticos. Mas especialistas dizem que é ainda mais importante que médicos, hospitais e consumidores mudem a atitude em relação às drogas, aprendendo quando os antibióticos devem, ou não, ser usadas. Isso se aplica também na forma como os medicamentos são utilizados em fazendas: 80% dos antibióticos norte-americanos servem de alimentos para galinhas, vacas e outros animais de produção, principalmente para acelerar o crescimento e para prevenir doenças (ver matéria sobre planos dos governos da grã-bretanha, americano e alemão para conter os problemas do uso de antibióticos em animais para consumo humano).

Muitos dos avanços dos transplantes de órgãos, cirurgias invasivas, terapias para o câncer, entre outros avanços da medicina, dependem de antibióticos. Porém, os antibióticos tornaram-se uma vítima de seu próprio sucesso. As drogas pareciam tão eficazes que foram usadas, de forma equivocada, mesmo nos casos desnecessários. Especialistas estimam que até metade de todos os antibióticos utilizados nos EUA são prescritos ​​inadequadamente. Um recente estudo, com 204 médicos, sugeriu que alguns profissionais podem ser mais propensos a prescrever antibióticos para infecções virais no final do expediente, sinal de que eles podem estar tomando o caminho mais fácil para lidar com as queixas dos pacientes. Uma votação feita pelo Consumer Reports, com mil adultos, mostrou que uma em cada cinco pessoas que receberam um antibiótico tinha solicitado a droga.

A verdadeira solução do problema, segundo o artigo, é através da educação e um pouco de insistência. Levantamento do Journal of the American Medical Association descobriu que os médicos que participaram de uma sessão de uma hora de orientações para o tratamento de infecções respiratórias e, em seguida, receberam feedback sobre seus hábitos de prescrição, cortaram o uso de antibióticos quase pela metade, entre os participantes. Prescrições inapropriadas para sinusite e pneumonia foram cortadas em 50% a 75% das vezes.

Organizações médicas, como a American Academy of Family Physicians (Academia Americana de Médicos de Família) e a American Academy of Pediatrics (Academia Americana de Pediatria), distribuíram orientações sobre o uso de antibióticos adequados aos seus membros. Em alguns casos, o conselho é incorporado aos registros médicos eletrônicos, fazendo com que os médicos sejam alertados se prescreverem um medicamento de forma inadequada.

Os doentes também têm um papel fundamental, ajudando a garantir que esses medicamentos sejam utilizados apenas quando necessário e, evidentemente, evitando infecções.

Saiba algumas diretrizes a serem seguidas:

Não force o uso de antibióticos – Se o seu médico diz que você não tem uma infecção bacteriana, não insista. Pergunte sobre outros tratamentos que podem ajudar a se sentir melhor, como um analgésico, anti-histamínico ou descongestionante.

Tratamento sem medicamentos – Se as bactérias são a causa, mas os sintomas são leves, pergunte sobre a possibilidade de tratar a infecção sem drogas.

Peça medicamentos direcionados – Sempre que possível, o seu médico deve analisar de forma abrangente a infecção, assim como identificar a bactéria que causou a infecção e prescrever uma droga com maior precisão.

Use cremes antibióticos com moderação – Mesmo os antibióticos aplicados sobre a pele podem influenciar bactérias resistentes. Portanto, use pomadas contendo bacitracina e neomicina com parcimonia.

Evite infecções em primeiro lugar – Isso significa manter-se atualizado em termos de vacinas. Lave as mãos cuidadosamente e regularmente, especialmente antes de preparar ou comer alimentos, antes e após o mexer em um corte ou ferida, e depois de usar o banheiro, espirrar, tossir e manusear o lixo. Sabão comum e água são grandes aliados. Evite sabonetes antibacterianos e produtos de limpeza, que podem promover resistência.

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