Fernando Torelly analisa cem dias de enfrentamento da Covid-19 e aponta estratégias de sucesso
Superintendente do HCor (SP) foi atração em live da Fasaúde/IAHCS
O enfrentamento da Covid-19 apresenta cenários que se alternam em termos de gravidade em cada estado do Brasil. À frente do Hospital do Coração (HCor), de São Paulo, o superintendente executivo Fernando Torelly observa o número de internações diminuir, cem dias após o primeiro caso confirmado na instituição, ao mesmo tempo em que no Rio Grande do Sul identifica o aumento significativo de casos e internações. Na live Fasaúde ao Vivo, realizada pelo Instagram, Torelly – que é professor dos cursos de pós-graduação da Fasaúde – compartilhou aprendizados acumulados, apontando estratégias adotadas na instituição paulista. Intitulada Aprendizados e Desafios no enfrentamento da pandemia, a transmissão foi comandada pelo coordenador de pós-graduação da Fasaúde/IAHCS, doutor em epidemiologia, professor Paulo Petry.
Apesar de se mostrar preocupado com o crescimento do número de casos de Covid-19 no RS, o executivo demonstra confiança na resposta do estado, que, de acordo com ele, conta com um sistema de saúde de alta qualidade. “Acho que o Rio Grande do Sul vai dar um exemplo para o Brasil e o mundo. Vamos ter muitos casos [de coronavírus], mas não teremos tantos óbitos, pela qualidade dos profissionais e instituições de saúde do Rio Grande do Sul”, afirmou. Confira os temas que foram abordados durante a Live.
Como o HCor se preparou para enfrentar o coronavírus
De acordo com Torelly, o primeiro paciente internado no HCor ocorreu no dia 16 de março. A instituição já havia traçado, desde antes uma estratégia: expandir leitos sempre que a taxa de ocupação estivesse em 70% ou mais.
Além disso, o superintendente executivo destacou que a Covid-19 impõe o desafio de as instituições não conseguirem prever a evolução de internações a cada semana. “Você não sabe se terá 10, 50 pacientes. É preciso estar preparado para isso. Por isso, nós definimos, no início, colocar 50 leitos destinados aos pacientes com Covid-19 e, sempre que a unidade tivesse 70% de ocupação, ampliaríamos o número de leitos. Chegamos a ter 130 leitos para Covid, em um hospital especializado que tem 260 leitos”, disse.
Mudança no perfil do hospital e o impacto na saúde dos profissionais
“Há planejamento, treinamento de equipe para o atendimento. Mas quando o seu hospital chega a uma ocupação de 80 a 90 pacientes com Covid-19, há uma mudança completa no perfil do hospital. Há uma preocupação muito forte com os trabalhadores”, disse Torelly, acrescentando que é preciso muito rigor no padrão de qualidade e segurança para evitar a infecção dos profissionais.
SP x RS: inversão após cem dias
Hoje, após cem dias da primeira internação, o HCor já observa redução do número de pacientes, de acordo com o superintendente executivo. Ele afirma que a mesma tendência está sendo observada em muitos hospitais do estado de São Paulo, tanto nas unidades de saúde suplementar quanto públicas.
Já no Rio Grande do Sul, Torelly observa que o aumento de internações começa a “crescer de forma extremamente significativa”. O superintendente executivo manifestou apreensão com os números no RS. “Espero que não, mas me parece que a situação no Rio Grande do Sul está como há 100 dias em São Paulo, quando começamos a ter um número maior de pacientes com Covid” disse.
Aprendizados
“Na minha avaliação, temos que aprender muito sobre o que ocorreu nos outros estados, para não repetir os mesmos erros”, salientou. O superintendente executivo cita três temas que podem contribuir:
1) Utilização de protocolos de hospitais de outros estados que já enfrentaram a pandemia
2) Proteção da força de trabalho
3) Mudança no modelo de liderança
Protocolos disponíveis
Torelly cita como oportunidade a leitura de protocolos desenvolvidos em outros hospitais, principalmente aqueles que passaram pelos aumentos repentinos de demanda e internações. “Todos os nossos hospitais construíram protocolos de atendimento aos pacientes com Covid-19. Protocolos de atendimento com fisioterapia, medicação, equipamentos de proteção. Então, temos esses protocolos construídos durante cem dias, aperfeiçoados a cada semana. É muito importante que aqueles hospitais do Rio Grande do Sul que estão abrindo leitos de UTI acessem nossos protocolos, para que esse aprendizado que tivemos em cem dias seja utilizado”, ponderou.
Na live, Torelly se prontificou a disponibilizar protocolos que sejam solicitados por CEOs e equipes de outros hospitais, que queiram ter acesso aos materiais. “Você pode treinar tudo, mas quando começa a chegar o paciente da Covid, existe um pânico dentro da instituição. É um doença que afasta o familiar do paciente e é uma doença que tem uma grande capacidade de transmissão. Aquelas instituições que começam a ter uma demanda maior, acessem nossos dados, eles estão à disposição de vocês. Meus contatos estão disponíveis, pelo linkedin, telefone… nós podemos compartilhar. Nossos protocolos são fruto de muitas semanas de aperfeiçoamento”, explicou.
A segurança dos profissionais da saúde
Para Torelly, um dos pontos mais críticos da pandemia é a proteção da saúde dos trabalhadores. “Muitas das contaminações dos nossos colaboradores ocorreu no transporte coletivo. Logo que a pandemia começou a ficar forte, nós afastamos os nossos colaboradores do transporte coletivo.” Segundo Torelly, dispor quartos em hotéis próximos ao hospital ajuda os profissionais a diminuírem o risco de se contaminarem ou contaminarem seus familiares.
Torelly explicou que foi criado um pronto atendimento exclusivo para colaboradores e seus dependentes, para serem rapidamente atendidos. E também foi definido um protocolo: qualquer trabalhador de saúde com início de sintomas gripais deve ser afastado do trabalho, até a ter a testagem positiva ou negativa da Covid. Dos 2.600 colaboradores do HCor, 15% tiveram resultado positivo para Covid-19, e 35% foram afastados por síndrome gripal. Não foi registrado óbito de colaborador do hospital. “Comemoramos todo o dia não termos perdido nenhum colaborador no HCor”, diz.
Capital humano como diferencial
O superintendente executivo apontou que o diferencial de cura do coronavírus está na qualidade do capital humano de enfrentamento: bons fisioterapeutas, enfermeiros, médicos intensivistas, técnicos de enfermagem, além de equipamentos adequados. “O diferencial do enfrentamento da Covid é a qualidade das pessoas, e é preciso ter as pessoas com saúde para poder fazer esse enfrentamento”, avaliou.
Modelo de liderança: gerenciamento em rede
“O terceiro ponto que eu considero muito importante é a mudança do modelo de liderança dentro do hospital, tema que os cursos do IAHCS [Fasaúde] abordam bastante”, disse. Torelly explicou que o modelo de liderança tradicional, com reuniões de diretoria para definir ações, não funciona numa pandemia, que pede ações imediatas e colaborativas, gerando maior nível de engajamento.
“Mais do que decisões rápidas, é preciso que todo o hospital comece a implementar novos protocolos. Por isso, criamos um modelo de gerenciamento em rede, onde todos os dias, às 8 horas da manhã, reunimos todas as lideranças e médicos do corpo clínico que tenham interesse, mais ou menos 120 pessoas, e passamos o plantão do dia, com o aprendizado do dia anterior, o que mudou no nosso protocolo e quais os principais pontos que devemos observar”, explicou.
A transparência deve fazer parte do dia a dia. O superintendente executivo salientou que há dois boletins diários divulgados pelo HCor. Além disso, há o compartilhamento de indicadores com as operadoras de planos de saúde e gestores públicos.
Falta de ações coordenadas
Ao ser questionado por Petry sobre a falta de melhores orientações coordenadas (como as orientações hesitantes da OMS sobre o uso de máscaras, ou a troca de ministros da Saúde no Brasil), Torelly afirmou que “há estados no Brasil em que a pandemia já diminuiu significativamente. Se tivéssemos uma política pública integrada, os respiradores de Manaus viriam para Passo Fundo, onde está tendo o maior número de casos no RS. Não tendo isso, cada um dá um jeito de resolver o seu problema. E quando não há orientações claras, a população fica com dúvida. O uso de máscara é um ato de solidariedade e cuidado”.
O superintendente executivo explicou que os novos protocolos de segurança, disseminados a todos os cidadãos, como o uso de máscaras, fará com que “os hospitais sejam reinaugurados”, com um papel ainda mais cuidadoso em termos de segurança no ambiente hospitalar. Os pacientes exigirão um hospital compromissado com a qualidade e o controle de infecções, cobrarão que os profissionais lavem as mãos, usem roupas de proteção. Ele citou como aprendizado durante a pandemia, a necessidade de criação no HCor da nova superintendência de Proteção, Qualidade e Segurança. “Para ter, na direção, um profissional especializado, que oriente todas as decisões da instituição”, afirmou. Segundo Torelly, todas as mudanças, das mais simples às mais complexas, deverão ter a anuência desta superintendência.
Segundo Torelly, uma demonstração que o próprio setor hospitalar era, de certa forma, descuidado com a segurança, são os diferentes vídeos que foram feitos na pandemia para ensinar o profissional a lavar as mãos, algo simples que deveria ser indissociável da tarefa diária de um profissional que cuida ou interage com pacientes em um hospital. Demonstra que “nós nunca fomos rigorosos [em questões de higiene] como deveríamos ser. A Covid está nos ensinando que o hospital sempre terá que ser uma instituição segura”, completou.
As ações do Rio Grande do Sul
Torelly elogiou as ações tomadas no início da pandemia pelo estado do Rio Grande do Sul, que deram tempo para o sistema de saúde se organizar para enfrentar o aumento do número de casos, citando como exemplo o Hospital de Clínicas de Porto Alegre, que inaugurou o Bloco B em seu prédio novo para tratar exclusivamente casos de Covid-19, podendo aumentar a capacidade nos últimos 90 dias (atualmente, a estrutura conta com com 66 leitos de UTI, com projeção de 105 leitos durante o mês de julho).
“Qual é o trauma de uma sociedade? Alguém morrer por falta de um respirador ou UTI. E isso nós não vamos carregar, porque vamos evitar que isso aconteça. E o Rio Grande do Sul, fazendo da maneira que está sendo feita, liderado pelo governador, e com todas as equipes de saúde extremamente competentes – porque o RS tem uma característica muito interessante, com hospitais públicos e privados de muita competência, com padrões internacionais. A meta do Rio Grande do Sul é ter o menor número de óbitos de pessoas contaminadas pela Covid, pela qualidade do processo assistencial”, salientou.
Torelly avaliou que a conscientização da população gaúcha, de seguir as recomendações sanitárias, somadas à efetividade das ações conduzidas pelo poderes públicos e lideranças de saúde, podem colocar o RS como exemplo no enfrentamento da pandemia.
“A [restrição da] atividade econômica é uma consequência da consciência da população para o enfrentamento da pandemia, e da capacidade do setor público e privado para o atendimento. Os estados e municípios que estão tendo problema são aqueles em que o SUS já não funcionava antes da pandemia. Mas o SUS no RS e em Porto Alegre é um exemplo para o Brasil”, disse.
“Acho que o Rio Grande do Sul vai dar um exemplo para o Brasil e o mundo. Vamos ter muitos casos [de coronavírus], mas não teremos tantos óbitos, pela qualidade dos profissionais e das instituições de saúde do Rio Grande do Sul”, afirmou.
Perda de receita impõe a era da eficiência: “saúde baseada em sobrevivência”
Torelly disse que os hospitais terão que enfrentar uma forte perda de receita. De acordo com ele, o HCor já perdeu R$ 60 milhões em receitas (o que equivale a um faturamento mensal) com os impactos da pandemia.
“O meu grande medo é aqueles hospitais que não forem muito bem gerenciados e, com a redução da receita, coloquem em risco o emprego dos heróis da saúde. Estamos vivendo a era da eficiência, a era de gestão. Não é saúde baseada em evidência, é saúde baseada em sobrevivência. [É preciso] Enfrentar a Covid, cuidar da força de trabalho e assegurar os empregos dos trabalhadores de saúde”, detalhou.
Uma realidade que se extinguiu
No final do Fasaúde ao Vivo, o superintendente executivo foi enfático ao apontar que a realidade “não voltará mais ao normal.” As instituições de saúde precisarão se reinventar.
Próxima live
A próxima edição terá como convidado o presidente da Sociedade Psicanalítica de Porto Alegre, psicanalista Jose Carlos Calich. O evento ocorre no dia 1º de julho, quarta-feira, às 19h, novamente pelo instagram do professor Paulo Petry (@prof_paulo_petry). Leia as matérias com a cobertura das lives já realizadas, com a participação dos professores Robson Morales, Milton Berger, Salvador Gullo e Alex Mello.
Os debates têm o apoio da Federação dos Hospitais e Estabelecimentos de Saúde do Rio Grande do Sul (FEHOSUL), Associação dos Hospitais do RS (AHRGS), Instituto de Acreditação Hospitalar e Ciências da Saúde (IAHCS Acreditação), Sindicato dos Hospitais e Clínicas de Porto Alegre (SINDIHOSPA) e Portal Setor Saúde.