Gestão e Qualidade | 14 de março de 2017

As visões e os resultados das acreditações e certificações em hospitais gaúchos

Representantes de instituições destacadas apresentam experiências e resultados nos processos
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Após as palestras de Paulo Chapchap e Jorge Moll, o Tendências e Inovações em Saúde – desenvolvido pela FEHOSUL e o SINDIHOSPA -, abordou o tema acreditações e certificações em saúde, na tarde de 10 de março. O bloco de painéis intitulado Impacto das Certificações e Acreditação em Saúde na Gestão Hospitalar teve a participação de especialistas de hospitais de referência do Rio Grande do Sul.

Acreditação Joint Commission

Como primeira participação, a Coordenadora do Programa de Qualidade e Informação em Saúde do Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA), Helena Barreto dos Santos, falou sobre a Acreditação Joint Commission (JCI).

O HCPA é o primeiro centro médico acadêmico do país a ser certificado pela JCI. “Além dos padrões aplicáveis aos hospitais, nós temos padrões específicos de ensino e pesquisa”, explica Helena. Junto com números e dados da instituição, a coordenadora iniciou sua fala com um questionamento a ser respondido durante a apresentação: “Os padrões de um manual de acreditação podem ser uma agenda para gestão? ”

Helena Barreto dos Santos

Helena Barreto dos Santos é Coordenadora do Programa de Qualidade e Informação em Saúde do Hospital de Clínicas de Porto Alegre

 

A palestrante explicou que as primeiras mudanças foram em relação à estrutura do hospital e a concepção de um programa, com a capacitação das pessoas que iriam começar a trabalhar no processo de acreditação. Houve a criação da Comissão Permanente da Gerência de Risco Sanitário Hospitalar e de uma gestão proativa dos riscos. “A gente teve um impulso muito grande na notificação de incidentes, de poder estudar os incidentes. De trabalhar de fato com a melhoria da segurança”, afirmou Helena. A coordenadora também citou uma mudança na gestão documental do HCPA, “que não tinha uma história guardada do que a instituição fazia”, explica. Além disso, a ação serviu para padronizar processos e documentos, “associando a questão dos protocolos como diretrizes clínicas e gestão”, completou.

Conforme apresentou Helena, o Clínicas precisou se preparar e, além disso, preparar seus colaboradores, professores, pesquisadores e alunos. O selo JCI foi recebido em 2013, mas “a manutenção deste selo requer uma modificação”, principalmente com foco na gestão. No final, Helena Barreto afirmou que a acreditação “pode ser uma agenda de gestão” e que junto com o processo “trouxeram inovação para o hospital”.

Acreditação ONA

O segundo palestrante do painel foi o Superintendente Executivo do Hospital Tacchini, Hilton Roese Mancio, abordando a Certificação ONA, com foco na experiência da organização referência em Alta Complexidade para 27 municípios da região serrana gaúcha. O case de Mancio se diferenciou do tradicional, por apresentar o olhar de uma instituição que resolveu “descer” um nível para rever seus processos.

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Superintendente Executivo do Hospital Tacchini, Hilton Roese Mancio, abordou a acreditação ONA, sob o enfoque de uma instituição que preferiu voltar um passo no processo

 

Após apresentar um breve histórico da instituição, Mancio passou a expor a experiência com a acreditação ONA. Segundo ele, um dos pontos em que o hospital pode mostrar é uma certa dependência da certificação, ocorrida nos últimos anos. O Tacchini decidiu não passar por um processo de recertificação. Dentre as causas principais, “devido à crise econômica forte”, explicou.

O executivo colocou que, ouviu de um dos gestores que internamente o Hospital precisava encarar a acreditação de forma séria: “ou a gente passa a cumprir rigorosamente as normas de todos os procedimentos que a gente tem definido ou nós estamos brincando de fazer qualidade neste hospital”. Segundo Mancio, foi a “hora de abandonar”, e decidir postergar a recertificação e repensar os processos do hospital. O expositor explicou que após atingir um nível, é preciso seguir com forte engajamento interno para manter o que já foi conquistado. Mudanças recentes em áreas estratégicas do hospital, também influenciaram na decisão.

Hilton Mancio explicou que o Hospital Tacchini voltou, em 2016, ao nível Pleno [intermediário ou 2] da Acreditação ONA (deixando o nível máximo, denominado Excelência ou 3). O palestrante afirmou que o caminho [da acreditação] demanda tempo e investimento, principalmente na área de estrutura, mas que “o processo de acreditação é [sobre] nós ampliarmos a nossa capacidade sensorial”, deixando claro que entende que a acreditação tem um papel importante para ajudar a olhar para si mesmo como organização.

Certificação MAGNET

A terceira palestra sobre as certificações foi da enfermeira e Superintendente Assistencial do Hospital Moinhos de Vento, Vania Rohsig, com painel sobre a Certificação Magnet. Vania destacou, no início de sua fala, a história da Certificação, que é designada pela Associação Americana de Enfermagem (American Nurses Credentialing Center, em inglês).

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Superintendente Assistencial do Hospital Moinhos de Vento, Vania Rohsig

 

Afirmou que esses processos garantem um padrão mínimo de qualidade e os específicos vão colocar uma “lupa” nas linhas de cuidado. Assim, explicou aos presentes que Certificação Magnet “é o mais elevado reconhecimento concedido para organizações de saúde pela excelência na prática de enfermagem”, e que o nome – Magnet – deriva da palavra inglesa para ímã, porque é uma certificação que “retém e atrai talentos”, completou. Desse modo, falou aos presentes que mais importante que a própria Magnet é o processo, pois “ele é o que agrega o valor”, e que a certificação “é a cereja do bolo”, explicou a palestrante.

A partir disso, Vania passou a apresentar os benefícios desse processo: para os pacientes – “os desfechos são mais favoráveis em hospitais Magnet. Eles experienciam menos complicações, menor mortalidade e índices mais elevados de satisfação”; para os enfermeiros – é “o padrão ouro quando olham para o ambiente de trabalho onde a autonomia, o controle sobre a prática e o desenvolvimento profissional são estimulados”; e para o próprio hospital – “significa cuidado de alta qualidade para os pacientes”. Depois, Vania apresentou dados mostrando a eficácia da certificação, e citou que dos 10 hospitais top da Magnet, 8 estão na lista dos melhores dos Estados Unidos.

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Auditório da Amrigs lotado para assistir o painel sobre acreditação e certificação

 

No prosseguimento de sua palestra, falou brevemente sobre a trajetória do Hospital Moinhos de Vento no processo, dos investimentos feitos para isso, como curso em parceria com o Hospital Johns Hopkins (Estados Unidos) e eventos científicos, por exemplo. Além disso, ela apresentou índices da satisfação dos enfermeiros, técnicos e dos pacientes que melhoraram a partir do início da implantação do processo Magnet. Já no final da apresentação, Vania afirmou que “grandes lideranças, com grande estrutura, vão atrair e reter os melhores profissionais da enfermagem, vão gerar conhecimento e inovação e, com isso, ter grandes desfechos”.

Certificação PLANETREE

Encarregada da última apresentação do bloco, Márcia Fernanda Barreto Sampaio, Diretora de Marketing e Clientes do Hospital Mãe de Deus, falou sobre o Modelo Planetree. Partindo do objetivo “ser reconhecido como hospital referência no atendimento”, ela começou a palestra falando sobre o plano do Mãe de Deus de se diferenciar do mercado, “resgatando sua história, usando a verdade”, contou. Com isso, o hospital passou a adotar o processo do Planetree, “uma metodologia, um sistema que possibilitou que a humanização fosse sistematicamente mensurada e organizada de uma forma verdadeira dentro da instituição”, explicou Márcia aos presentes. E, citando Alceu Alves da Silva, Diretor Executivo do Sistema de Saúde Mãe de Deus, disse que o “Planetree é uma metodologia que contraria a forma arbitrária com que as instituições hospitalares se relacionam com seus pacientes”.

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Márcia Fernanda Barreto Sampaio, Diretora de Marketing e Clientes do Hospital Mãe de Deus

 

A palestra continuou com a diretora explicando as dez linhas de cuidado humanizado preconizado pela metodologia e o dever de olhar para as necessidades das pessoas. Segundo Márcia, existem apenas quatro ações que a organização precisa fazer, além das linhas de cuidado, para receber o selo: “85% dos colaboradores sensibilizados; horário de visita liberado; incentivo para o acesso ao prontuário e Conselho Consultivo de Pacientes”, explicou. Após isso, apresentou dados do Hospital Mãe de Deus acerca do processo Planetree, como 93% dos funcionários sensibilizados, 73% das melhorias previstas implementadas e mais de 1,8 mil ações Planetree realizadas. Para exemplificar isso, Márcia mostrou aos presentes um vídeo do relato de um paciente idoso, que estava internado para uma cirurgia complexa, que pode comparecer ao casamento de seu filho, no interior do Rio Grande do Sul, mesmo ainda sob cuidados do hospital – e antes do procedimento acontecer.

Finalizando a palestra, Márcia apresentou dados e índices acerca da melhora da satisfação dos pacientes com o hospital, do clima organizacional, e também da queda da rejeição e do turn over, segundo ela, devido ao Modelo Planetree. O Mãe de Deus está para se tornar apenas o segundo hospital brasileiro com essa certificação – o que deve ocorrer na metade deste ano, conforme afirmou Márcia. O Hospital Israelita Albert Einstein é o outro.

DEBATES

Ao final do painel, o Coordenador da Mesa, Sérgio Ruffini, que é Médico Coordenador e Avaliador Sênior do IAHCS Acreditação, indagou aos palestrantes que, mesmo com metodologias diferentes, “independente da natureza de cada uma delas, o quanto os pacientes percebem esse tipo de modelo? ” E complementou: “os pacientes tem que perceber o significado disso”, falando dos processos de acreditação.

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Sérgio Ruffini, do IAHCS Acreditação coordenou os debates do painel

 

De forma geral, os palestrantes disseram que os pacientes percebem uma melhora no cuidado, porém, ainda não associam isto diretamente aos processos de acreditação. Os pacientes, na maioria das vezes, enxergam que os esforços da organização e o bom atendimento são conquistados pelo trabalho interno exclusivamente, sem perceber que por detrás disto, está um criterioso esforço de adoção de práticas externas consolidadas.

Vânia Rohsig, do Moinhos de Vento, afirmou que a acreditação muda a cultura da organização. Disse que isso “leva tempo, mas por isso é um processo, uma jornada”. Ainda assim, há o retorno para o paciente, pois as certificações são centradas neles e em suas famílias. A especialista conta que esse retorno pode chegar via ouvidoria, “cartinhas” ou até agradecimentos “em guardanapos do paciente.

Já Hilton Mancio, do Hospital Tacchini, comentou que alguns pacientes que trouxeram alguma insatisfação durante o período de internação tiveram atendida sua reivindicação, “se sentiram estimuladas a trazer outras coisas que observaram no período”. Mancio afirmou que como a região de Bento Gonçalves possui grande longevidade, muitos de seus pacientes ficam bastante tempo no hospital, e possuem visão muito crítica. No entanto, “percebemos o engajamento na intensidade e eles vão ficando mais à vontade para trazer as questões que o incomodam e, assim, estão se sentindo acolhidos”, completou.

Complementando a fala de Mancio, Márcia Sampaio, do Mãe de Deus, falou que o Conselho Consultivo de Pacientes do hospital também é formado por aqueles que um dia criticaram a instituição. “Mas a gente repara que as pessoas criticam, e continuam criticando porque querem ver o hospital ainda melhor, não viram as costas para o hospital, porque acreditam nessa cultura”, afirmou. Segundo ela, pessoas dizem que a cultura do Mãe de Deus mudou. Além disso, Márcia terminou dizendo que “os indicadores falam por si, o quanto que o paciente percebe nas nossas instituições a qualidade”.

Helena Barreto, do Clínicas, colocou que “o que a gente tem são relatos. Uma coisa muito mais qualitativa de algumas pessoas que falam do hospital”. Segundo ela, esse processo nunca foi desvinculado da acreditação, de melhoria do Clínicas. Como exemplo, Helena falou da pulseira de identificação. “A gente mensura, nos últimos 3 anos, a adesão ao uso da pulseira de identificação. Entrevistando os pacientes a primeira pergunta é se ele foi orientado para quê servia o uso daquela pulseira. Isso faz um pouco parte da educação do paciente, e vemos que ele vem sendo mais orientado, que ele sabe mais o que acontece. Ele está sendo mais exposto a isso e seria essa uma maneira de avaliar”. Por fim, Helena comentou que, assim, deixa-se um ambiente aberto para que o hospital receba esse feedback dos pacientes.

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Cerca de 300 profissionais estiveram presentes na atividade Seminários e Tendências em Saúde, promoção da FEHOSUL e do SINDIHOSPA

 

 

 

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