Tecnologia e Inovação | 13 de setembro de 2016

Válvula cardíaca com novo método de substituição

Técnica não requer avançadas instalações cirúrgicas cardíacas ou imagem cardiovascular sofisticada
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Quando uma válvula cardíaca necessita ser substituída, os avanços da tecnologia e a melhora das técnicas cirúrgicas, têm oportunizado o rápido crescimento dos procedimentos em grandes e especializados hospitais.

Agora um novo método de substituição da válvula cardíaca tem demonstrado ser um sinal de esperança para milhares de pacientes com doença reumática que precisam do procedimento anualmente. A investigação foi apresentada durante o Congresso anual da South African Heart Association, realizado na Cidade do Cabo (foto), na África do Sul,  entre 8 e 11 de setembro, em parceria com a World Society of Cardiothoracic Surgeons.

Especialistas da European Society of Cardiology apresentaram um programa especial. “Na última década a cirurgia de válvula cardíaca foi revolucionada pelo implante transcateter da valva aórtica”, alegou o principal autor do estudo, Dr. Jacques Scherman, cirurgião cardíaco da Universidade da Cidade do Cabo. “Válvulas cardíacas são substituídas ou reparados através de um cateter, evitando a necessidade da cirurgia de coração aberto ou de circulação extra-corpórea (também chamada de máquina coração-pulmão)”.

Segundo Dr. Scherman, o implante transcateter da válvula aórtica “só é indicado para pacientes com estenose aórtica calcificada [doença valvular mais comum entre idosos, geralmente causada pela degeneração e calcificação da válvula], que é a patologia valvular aórtica mais prevalente nos países desenvolvidos. Nos países em desenvolvimento, a cardiopatia reumática ainda representa a maioria dos pacientes que necessitam de uma intervenção na válvula cardíaca”.

A doença cardíaca reumática é causada por febre reumática, que resulta de uma infecção estreptocócica (infecção bacteriana na garganta). Os pacientes desenvolvem fibrose das válvulas cardíacas, que leva à doença valvular cardíaca, insuficiência cardíaca e morte. “Só na África há cerca de 15 milhões de pacientes que vivem com doença cardíaca reumática, dos quais 100 mil anualmente podem precisar de uma intervenção da válvula do coração em alguma fase da vida. A grande maioria destes doentes não têm acesso à cirurgia cardíaca ou imagem cardíaca sofisticada”, diz o artigo da Science Daily.

Dr Scherman destaca que, inspirados pelo sucesso do implante transcateter da válvula aórtica para a doença em estágio calcificado, “desenvolvemos um dispositivo simplificado para substituição da válvula aórtica percutânea em pacientes com doença cardíaca reumática”.

Os balões intraaórticos atualmente disponíveis para o uso de implante transcateter da válvula aórtica “exigem o uso de imagem cardiovascular sofisticada para posicionar corretamente a nova válvula. Também usam um marcapasso temporário, que permite que o coração bata tão rapidamente que ele para a circulação do sangue para o resto do corpo (chamado de estimulação ventricular rápida)”.

Jacques Scherman lembra que a “estimulação ventricular rápida só pode ser tolerada por um curto período e, portanto, limita o tempo disponível para fazer a implantação”. O especialista e sua equipe desenvolveram um novo dispositivo para o implante transcateter da válvula aórtica “não-oclusivo”. Ou seja, não há necessidade de parar a circulação do sangue no corpo com a estimulação ventricular rápida. O dispositivo também se “auto-localiza” (self-locating) e não requer imagiologia cardíaca sofisticada para seu posicionamento.

O estudo de prova de conceito apresentado na África do Sul testou o dispositivo em um modelo com animais (ovelhas). Os investigadores descobriram que o dispositivo foi fácil de usar e de posicionar a válvula corretamente, e o procedimento poderia ser realizado sem a estimulação ventricular rápida.

Os pesquisadores mostraram que o método “tornou fácil a realização da substituição do transcateter da válvula aórtica. Usando um feedback tátil, o dispositivo é estabilizado na posição correta dentro da raiz da aorta durante a implantação. Também tem uma válvula de refluxo temporária para impedir que o sangue vaze para dentro do ventrículo durante a implantação da nova válvula. Todos estes fatores em conjunto permitiram um implante lento e controlado, em comparação com os dispositivos de balão intra aórticos expansíveis atualmente disponíveis”.

Dr. Scherman acrescenta que “esta abordagem simplificada pode ser feita em hospitais sem cirurgia cardíaca com uma fração do custo tradicional de implante transcateter da válvula aórtica. Isso tem o potencial para salvar a vida de um grande número de pacientes com doenças cardíacas reumáticas que precisam da substituição da válvula”.

A presidente da South African Heart Association, professora Karen Sliwa, admitiu ter ficado “realmente animada por termos não só um grupo internacionalmente forte trabalhando em epidemiologia e prevenção da doença reumática cardíaca na Universidade da Cidade do Cabo, mas também um dedicado e bem sucedido grupo cirúrgico, liderado pelo professor Peter Zilla no Departamento Chris Barnard. Embora a prevenção seja o objetivo final, milhões de pessoas irão precisar de cirurgia como medida para salvar vidas para as próximas décadas”. Segundo ela, “esta solução fascinante promete ajuda cirúrgica para todos estes pacientes jovens com doença cardíaca reumática em um continente que tem uma densidade correta de hospitais gerais, mas dificilmente oferece qualquer cirurgia de coração aberto”.

Da mesma forma, o professor Fausto Pinto, presidente da European Society of Cardiology e diretor do programa na África do Sul, disse que “o desenvolvimento de estratégias terapêuticas inovadoras é extremamente importante para permitir que um maior número de pacientes sejam tratados”.

 

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