Mundo, Tecnologia e Inovação | 3 de novembro de 2014

Pesquisa com células olfativas faz paciente paralisado voltar a andar

Estudo europeu inovador devolveu, a um homem de 40 anos, os movimentos das pernas
Sr. Darek Fidyka

Um tratamento inovador que envolveu o transplante de células da cavidade nasal para a medula espinhal fez com que um paciente recuperasse os movimentos das pernas. Darek Fidyka, de 40 anos, ficou paralisado do peito para baixo após ser esfaqueado em 2010. Graças ao experimento, ele pode caminhar usando um andador e também recuperou algumas funções da bexiga, intestino e funções sexuais.

Antes de iniciar o tratamento, Fidyka estava paralisado havia quase dois anos e não mostrava nenhum sinal de recuperação, apesar de meses de fisioterapia intensiva. Era o caso perfeito para ser analisado no estudo que envolveu cientistas poloneses e britânicos. O tratamento, inédito no mundo, foi divulgados na publicação científica Cell Transplantation.

“Quando você não pode sentir quase metade do seu corpo, você é impotente, mas quando ele começa a voltar, é como se você tivesse nascido de novo”, comentou o paciente, em reportagem da BBC, que acompanhou por um ano a reabilitação.

O tratamento utilizou células especiais que fazem parte do sentido do olfato. Elas agem como células de direção, que permitem que as fibras nervosas do sistema olfativo sejam continuamente renovadas. Foram duas operações. Na primeira, os cirurgiões removeram um dos bulbos olfativos do paciente e as células cresceram em cultura. Duas semanas depois, essas células foram transplantadas para a medula espinhal.

Olfatory Bulbs

Créditos : BBC News

Os cientistas tinham uma pequena porção de células (cerca de 500 mil) para trabalhar. Em torno de 100 microinjeções de células olfativas foram feitas acima e abaixo da lesão. Quatro tiras finas de tecido nervoso foram retiradas do tornozelo do paciente e colocadas através de uma lacuna de 8mm no lado esquerdo da medula espinhal.

De acordo com os resultados, os cientistas conseguiram dar às células olfativas uma direção, permitindo que as fibras acima e abaixo da lesão se reconectassem, usando os enxertos de nervos para preencher a lacuna na medula espinhal.

Desde antes do transplante, Fidyka realiza um programa de exercícios de cinco horas por dia, cinco dias por semana. Ele notou pela primeira vez as melhoras após três meses da cirurgia, quando sua coxa esquerda começou a desenvolver músculos. Seis meses depois, ele já tentava dar seus primeiros passos com a ajuda de barras paralelas, muletas e um fisioterapeuta. Dois anos após o tratamento, ele caminha fora do centro de reabilitação utilizando um andador.

O neurocirurgião polonês Pawel Tabakow, consultor no Hospital Universitário de Wroclaw e um dos líderes do estudo, salientou que “é incrível ver como a regeneração da medula espinhal, algo que era considerado impossível por muitos anos, está se tornando uma realidade”. O uso de céulas do bulbo olfatório do paciente foi fundamental para o sucesso da pesquisa, pois não havia risco de rejeição e, consequentemente, não houve a necessidade de medicamentos imunossupressores.

Segundo os cientistas, a recuperação da massa muscular e dos movimentos é uma evidência de que a recuperação se deve à regeneração, já que sinais do cérebro que controlam os músculos da perna esquerda viajam para baixo pelo lado esquerdo da medula espinhal (local mais afetado pela lesão do paciente). Exames também mostraram que a lacuna pós-traumática na medula fechou-se após o tratamento.

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