Gestão e Qualidade | 1 de dezembro de 2016

O DRG na gestão clínica e o impacto futuro nos modelos de remuneração

Especialistas do Albert Einstein abordaram o tema em seminário
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O uso do sistema de classificação de pacientes na gestão clínica foi o tema da terceira palestra – a primeira da tarde – do Seminários de Gestão: Tendências e Inovações em Saúde, realizado pela Fehosul e Sindihospa no Plaza São Rafael, no dia 30 de novembro. A atividade teve como conferencista o médico José Henrique Germann Ferreira, Diretor Superintendente do Instituto de Consultoria e Gestão do Hospital Albert Einstein. A médica Ana Cristina Sogayar (Hospital Albert Einstein), também participou como conferencista.

A sigla DRG se refere aos Diagnosis Related Groups, sistema de classificação que relaciona os tipos de pacientes atendidos pelo hospital com os recursos consumidos, criando grupos de pacientes coerentes do ponto de vista clínico e similares ou homogêneos quanto ao consumo dos recursos hospitalares.

“O DRG é uma ferramenta que considera o doente e os eventos e não a doença, e mede os recursos agregados ao atendimento, com objetividade e por isto pode ser o principal fator de mudança do atual modelo de remuneração, minimizando efeitos da subjetividade e falta de confiança”, destacou José Henrique.

“Temos aqui uma missão: a incumbência de mostrar a necessidade de usar e implantar o DRG”. Comparando a população brasileira dos anos 1960 (quando o DRG estava surgindo nos EUA) com a atual, Dr. José Henrique destacou que “a configuração de saúde era outra, a expectativa de vida era de 55 anos e uma população de 70 milhões. As neoplasias e doenças arteriais não estavam entre as principais causas de óbito”.

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José Henrique Germann Ferreira, Diretor Superintendente do Instituto de Consultoria e Gestão do Hospital Albert Einstein

 

“Antigamente as ferramentas de um hospital cabiam em uma caixa de sapato. Alguns tinham raio-X, as complexidades eram poucas. Os medicamentos eram antibióticos e sedativos”, contextualizou. Com o passar do tempo, tudo evoluiu, lembrou o conferencista. “Passou a existir a ação dos planos de saúde. Se fazia a negociação da prestação dos serviços. Mas os planos aumentavam e diminuíam o percentual de reajuste. Os hospitais foram adquirindo tecnologias, mudou inclusive com novos processos. Até em relação ao uso de novos insumos e recursos que surgiram”.

“Hoje temos um modelo baseado no fee-for-service (pacote por serviços) que não oferece valor ao paciente. Quanto mais uso, mais custo para o paciente ou para quem paga. Ele não busca a redução e induz o desperdício, não há previsibilidade na conta”. Se um contrato é baseado em serviços, “chegaremos a um valor e um reajuste. No ano que vem, podemos falar que não dá para manter esse valor, porque não existe confiança entre as partes para garantir uma contratação futura”.

Aprender a usar o DRG vai diminuir a subjetividade das negociações. “O DRG é uma ferramenta que pensa em cada pessoa e evento que estão circundando o atendimento, e não a ocorrência. É comumente confundido como uma ferramenta epidemiológica, mede os recursos agregados ao atendimento, seja a gravidade, a faixa etária, a epidemiologia própria. É uma ferramenta financeira que pode ajudar no modelo de remuneração”.

Falta de sustentabilidade

Na segunda parte da palestra, com Ana Cristina Sogayar (coordenadora médica de pacientes graves do Hospital Albert Einstein), foi tratado das discussões recentes sobre a falta de sustentabilidade no sistema de saúde. “O DRG não é coisa nova, começou na década de 1960, e em 1980 foi incorporada no sistema EUA, sendo aprimorado e difundido no mundo”, diz ela. “É preciso conhecer o perfil misto dos pacientes, a avaliação de qualidade assistencial, assim identificamos pontos onde pode se fazer melhorias”. A metodologia incorpora a possibilidade de coleta de dados em tempo real, e as informações são revistas para criar confiabilidade maior. Assim, se permite comparar instituições, compor desfechos clínicos, conseguimos os resultados facilmente e conseguimos avaliação de performance”.

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Ana Cristina Sogayar

 

Segundo a conferencista, o foco da aplicação do DRG, inicialmente, era a redução de recursos, “ver onde era gasto mais, com cada grupo de pacientes, e individualizar onde os esforços seriam concentrados. Dessa forma, temos uma cobertura melhor em tudo o que acontece com o paciente na internação”.

Não existe doentes, mas sim doenças

Na expansão do DRG na Europa os países usavam para remuneração, mas foi expandido para ser alimentado focado na qualidade da entrega de serviços. Assim sabemos quem atende, como atende e o que produz. A composição das atividades é particular para cada paciente, mas há características comparáveis”. Para facilitar a compreensão do DRG, ela diz que é importante ter em mente que “não existe doentes, mas sim doenças. Os pacientes se agrupam, a aí sim temos mais agilidade na prestação de serviços e no uso de produtos”.

Ana Sogayar apresentou cases de pacientes internados por infarto, com tempo de internação e custos de tratamento muito discrepantes. “Se olharmos só a internação, não vemos porquê um demorou mais e usou mais recursos. Quando olhamos o conceito do doente, vemos comorbidades, as necessidades que cada um tem, então podemos ver que o tratamento de um [perfil] vai custar mais caro”.  Ou seja, se a qualidade da informação é ruim, não se faz boa analise.

“Nossa implantação começou em 2015, com uma restruturação completa. Conseguimos adesão dos médicos e sustentamos a metodologia”, revelou Ana Sogayar. Complementando, José Henrique Germann Ferreira salientou que “é preciso calibrar o DRG para nosso sistema de saúde. Pela nossa metodologia, um internado por AVC, por exemplo, é estimado em ter alta em 20 dias, mas não sei se posso atender. Existe uma série de limitações para os agrupamentos aqui”.

No debate, Carisi Anne Polanczyk (superintendente médica adjunta do Hospital Moinhos de Vento) questionou o que as instituições querem com o uso do DRG. “Ele foi originalmente montado para ser um modelo de remuneração. Nos últimos 10 anos o Brasil também está nessa discussão. O uso foi diverso, utilizado para entender os pacientes e até para as operadoras avaliarem melhor o prestador. O olhar é completamente diferente se pensarmos o sistema de saúde pelo DRG. O sistema de saúde pode ser outro, pode ter influência na acurácia, na autonomia dos profissionais”.

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Diocélia Jungbluth, Flávio Borges e Carísi Anne Polanczyk

 

“Se ainda estamos usando um instrumento antigo, isso não mostra um certo desatualização do setor? ”, provocou o diretor-executivo da Fehosul, Flávio Borges, coordenador do debate, apontando a demora em adotar modelos como o DRG.

“No Brasil, muito se fala do DRG, mas pouco se faz. Temos visto muitas iniciativas da Anahp e hospitais isolados, para resolver isso. Pesquisas indicam que se o Brasil adotasse o DRG, teríamos R$ 9,1 bilhões em redução de custos”, comentou Diocélia Jungbluth, Gerente de relações com o mercado do Hospital Moinhos de Vento.

“Sem o DRG, não dá para gerenciar a assistência nem pensar na mudança no modelo de remuneração. Assim, as instituições de saúde vão ser sempre uma ´casa de comércio´”, encerrou o Dr. José Henrique Germann Ferreira.

 

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