O Compliance e a responsabilidade do gestor hospitalar
Tema foi abordado em palestra no Seminário Tendências e Inovações, promovido pela Fehosul
A segunda palestra do Seminários de Gestão: Tendências e Inovações em Saúde, realizado pela Fehosul e Sindihospa no Plaza São Rafael, no dia 30 de novembro, teve como tema Os Desafios do Compliance e as Responsabilidades do Dirigente Hospitalar. O conferencista foi o administrador Marcos Boscolo, especialista em Gestão Estratégica, sócio de auditoria na KPMG e líder de atendimento aos setores de saúde da empresa no Brasil.
“É um tema indigesto. Compliance é árido, mas de extrema relevância”, iniciou o conferencista. Gestão e compliance estão relacionados. O especialista, através da apresentação de diversos gráficos e dados, falou do que tem acontecido no setor saúde, trazendo um cenário do que é discutido e pesquisado pela KPMG.
Em termos de economia, o grande impacto é na forma como afeta a arrecadação de imposto e como o ente publico aplica o dinheiro. Emprego e número de segurados e renda da família. Segundo ele, a saúde responde a 9.3% do PIB no brasil. “Estamos acima de outros países de primeiro mundo, como Japão e Austrália. O importante não é o PIB, mas a gestão. A instituição melhora com gestão boa”.
Marcos destacou a queda de beneficiados por planos de saúde no Brasil, “o que representa sobrecarga no SUS”. A diminuição de emprego e renda, causados pela crise, tem muita relação com o número de segurados. “Isso mostra uma desigualdade que me incomoda bastante. Quando isso se relaciona com a falta de plano de saúde, de médicos e de assistência, temos problema grande de gestão para resolver”.
Sabendo do crescente envelhecimento da população e o consequente aumento de doenças, o especialista questiona se os hospitais estão preparados para enfrentar o futuro. “Temos que nos preparar de acordo com o impacto nos negócio. Mas se tivermos um novo perfil de paciente, temos que formar as pessoas hoje, para serem especialistas. É preciso pensar hoje no que pode acontecer daqui a 10 anos. Temos um desafio grande, e vamos ter que enfrentar investindo em gestão”.
Uma pesquisa feita pela KPMG com médicos, mostrou que a formação da mão-de-obra é inadequada em quantidade e qualidade (62% das respostas). Segundo dados apresentados na palestra, cerca de 90% das instituições foram afetadas pela crise. “Ao pesquisar qual iniciativa seria mais viável para melhorar, identificamos necessidade de foco e planejamento em gestão e administração financeira.”
“É uma série de desafios: crise, envelhecimento, sobrecarga no SUS. Para isso, temos que pensar diferente, fazer gestão do negócio. Temos um cenário de dificuldade e é preciso fazer diferente”.
Mapear os riscos
O compliance pode mapear o risco de várias formas, mas é preciso ser encarado de forma objetiva. “O código de ética de uma instituição permeia todos os campos da instituição, dividido com os funcionários. E deve ser claro”. O problema de muitas organizações, no entanto, é que “criam um conselho com quatro pessoas. Não pode ser para conversar com amigos, mas é o que acontece. Se criam conselhos que não têm orientação, questionamento, nada protocolar sobre gestão de risco. Qual é a competência dos conselheiros? Se cercar de pessoas que tenham habilidades, não ser protocolar, mas efetivo. Se não, vai ter tudo, menos efetividade”.

Os hospitais estão preparados para o aumento da expectativa de vida da população?
Adequação e cultura de gestão de risco
“Faça a adequação de políticas de compliance de acordo com o tamanho da instituição. Pesquisando, criando uma cultura de gestão de risco e compliance”. Marcos Boscolo destacou que, de acordo com a OMS, entre 20% e 40% do gasto em saúde é desperdiçado com ineficiência. “O compliance tem o objetivo de diminuir isso. Enquanto o dinheiro é gasto de outra forma, ele não vai para onde se precisa”.
O conferencista salientou que a fraude acontece por falta de organização interna. “47% dos fraudadores não usa tecnologia. Isso pode ser algo como colocar um medicamento no bolso e ir embora. Lei existe para combater isso. Se houver mecanismo interno de compliance para o combate à fraude, a própria instituição pode ter a pena reduzida”.

“Faça a adequação de políticas de compliance de acordo com o tamanho da instituição’, disse Boscolo
A saúde, em várias áreas, é um dos setores que mais tem apresentado crescimento mundial. Há uma série de desafio e oportunidades, mas que requerem mudanças de gestão e monitoramento. “Quando falo com médicos, tenho a função de ser mensageiro. Não se pode dar as costas para os problemas, vamos pensar na saúde através da linha da vida ou da morte? O gestor de saúde tem o compromisso moral de fazer com que isso melhore. É parte do que estamos batalhando. É preciso conseguir fazer com que o dinheiro vá para o lugar certo, as pessoas sejam atendidas com dignidade, para dormirmos mais tranquilos. É um ‘trabalho de formiga’, pessoas de bem fazendo o bem. Vamos trabalhar forte para mudar essa realidade”, concluiu.
Debates
No debate pós-apresentação, Ricardo Minotto (Diretor Financeiro do Hospital São Lucas da PUCRS) ponderou que “o importante não é somente saber que tem ocorrido inconformidades, mas saber como levar essas demandas adiante”, falou.

Marcos Boscolo (KPMG), Jorge Bajerski (Hospital de Clínicas de Porto Alegre), Ricardo Minotto (Hospital São Lucas da PUCRS) e Paulo Soares (Sindihospa)
Já o Dr. Paulo Roberto Barbosa Soares, Diretor geral do Sindihospa, declarou que “nossa função e responsabilidade como líderes é ajudar a construir o compliance e identificar o equilíbrio entre as normas que temos que praticar, junto com a pressão normal que há no setor saúde”. O executivo, com passagem recente pela Unimed, destacou o trabalho de compliance desenvolvido na operadora de planos de saúde sob a sua supervisão. Ele destacou ainda o caso da empresa Siemens, que vem se tornando o case “padrão” para ajudar na constituição de regras para prevenir, identificar e dar resposta a possíveis atos de corrupção.
“É preciso se preparar para nos anteciparmos às demandas regulatórias, na área cível, trabalhista, criminal. O tema requer uma reflexão permanente das práticas do dia a dia. Temos que pensar permanentemente”, resumiu Jorge Bajerski, Vice-Presidente Administrativo do Hospital de Clínicas de Porto Alegre e professor dos cursos de especialização da Fasaúde/IAHCS.

Jorge Bajerski foi o coordenador dos debates

Atividade foi realizada em Porto Alegre